sábado, julho 12, 2008

BLÙS E BULÙS: «(...)the Italian Futurist Fortunato Depero also wrote a short abstract stage piece, Colours, in which four coloured shapes in a bare blue room held a conversation in an abstract language. The dark-grey ovoid spoke interminably in an 'animal-like' voice, with many is and us, including frequent blùs and bulùs. The dynamic red triangular polyhedron spoke in a 'roaring, crashing' voice, with many sharp consonants, in words such as 'TORIAAAAKRAKTO'. The long, sharp, white shape spoke with a 'sharp, thin, brittle voice' with many is and zs, and the black multiglobe uttered deep, sonorous ms and os in a 'very profound, guttural voice'.» (in "Colour in art", John Gage, Thames & Hudson) Ao que consta, esta peça nunca foi levada à cena, o que é uma verdadeira lástima.

domingo, julho 06, 2008

MOMENTO DE CRÍTICA LITERÁRIA: «F-se! Qual Camões!? Qual Cesário Verde!? Qual Fernando Pessoa!? Qual Herberto Hélder!? Qual Cesariny!? Bom. Bom é o António Franco Alexandre!!!» Eu teria provavelmente empregue mais rodeios e menos vernáculo, mas solidarizo-me com este desabafo. A. Franco Alexandre é talvez o meu favorito entre os poetas portugueses em actividade. Há muito que alimento a ideia de escrever umas linhas sobre a sua obra.
A HORA RIVETTE (10): Se fosse necessário encontrar uma linha de força em torno da qual se pudesse articular um esboço de sumário para "Out 1", essa linha de força seria provavelmente o binómio inclusão/exclusão. Quase todas as movimentações de personagens estão relacionadas com o esforço de se aproximar de um grupo, de manter um grupo coeso, de se integrar, ou de favorecer a desagregação de um colectivo, ou com a tentativa de distinguir iniciados de leigos. O peso, a importância, a real influência social desses grupos é bem menos importante do que a sua capacidade para suscitar dinâmicas centrípetas e centrífugas, ou até as tangentes protagonizadas, de forma independente, por Frédérique (Juliet Berto) e por Colin (Jean-Pierre Léaud). Assim se compreende que a real natureza dos "treze" (grupo poderoso ou simples piada entre amigos?) permaneça indefinida. Quanto aos dois grupos de teatro a braços com os textos de Ésquilo, é sintomático que o mais duradouro seja aquele que investe uma menor fracção da sua energia na planificação construtiva de uma peça. Ao passo que o grupo de Lili (Michèle Moretti) desenvolve trabalho concreto de encenação dos "Sete Contra Tebas" (estudo do espaço, vocalizações, movimentações dos actores, leituras) e acaba por se desfazer, o grupo de Thomas (Michael Lonsdale), após algumas discussões iniciais sobre as ideias subjacentes ao "Prometeu Agrilhoado", passa a dedicar-se a exercícios e improvisações que só muito remotamente estarão relacionados com a peça, e acaba sobrevivendo até perto do final do filme. Esvaziar deliberadamente de propósito as suas actividades é aqui a estratégia correcta para contrariar a tendência natural para o desmembramento. Os "treze", que integram elementos de ambos os núcleos, são o grupo mais resistente de todos os envolvidos no filme, precisamente porque, mais ainda do que os seus objectivos, é a própria existência do grupo que se encontra envolvida na dúvida. Os "treze" respiram a própria precariedade, a própria fragilidade dos seus vínculos. Desprovida de sentido, à união dos seus membros ("sainte fut notre union", como reza o enigma que quase leva Colin ao desespero) resta existir, pois não pode contar com mais nada - plausibilidade, cabimento, verosimilhança. (Continua...)

domingo, junho 29, 2008

TEATRO E XADREZ: Atenção, as negras já jogaram e6. Talvez quisesses dizer 4.Cf3 c6, e aqui sim, tínhamos uma semi-eslava. Esta abertura corre o risco de se tornar algo enfadonha, pelo que preconizo o activo 5.Bg5 (anti-Merano) para animar a malta. Não estava a chamar pós-modernos aos Nature Theater of Oklahoma. Nem sequer assisti ao espectáculo, pelo que nunca me permitiria tais confianças. Estava simplesmente a meter-me dentro da cabeça de Lukas Podolski. Adivinho no avançado alemão, recentemente sagrado vice-campeão europeu, um asceta, um ortodoxo, que rejeita sob pretexto de pós-modernismo desviante todas as aventuras formais com que vai deparando pelos festivais de teatro da Europa. Saindo da cabeça de Lukas Podolski e reentrando na minha, até aprecio a designação de "pós-moderno". Tem a sua utilidade quando se pretende aludir, sem grandes preocupações de rigor, a manifestações artísticas caracterizadas por um desejo de exploração formal e pela aposta na reflexão sobre o próprio processo criativo, e que se situam, do ponto de vista cronológico, claramente para o lado de cá do movimento modernista propriamente dito (Woolf, Joyce, Musil, Stravinsky, Matisse, esses gajos). Donald Barthelme costumava dizer que aceitava o epíteto de "pós-modernista" para designar o grupo de ficcionistas norte-americanos composto por ele, Thomas Pynchon, Kurt Vonnegut, Grace Paley, Robert Coover, John Barth et al., mas apenas à falta de uma melhor alternativa.
CORRECÇÃO DE UM PEQUENO ERRO NO PROGRAMA DA CINEMATECA DE JULHO: O filme "La Leggenda del Santo Bevitore", de Ermanno Olmi, é baseado na novela de Joseph Roth, autor austríaco, e não americano, como se lê no programa.

quinta-feira, junho 26, 2008

NO DICE: Não fui o único a alvitrar que Lukas Podolski possui uma costela de historiador de xadrez amador. O sr. Greg Mack, de Melbourne, Austrália, desenvolveu uma teoria idêntica: «Gentlemen, perhaps you are being a little hard on Lukas Podolski. He may in fact be an amateur historian as well as a footballer. In the West, dice were used in chess between the 10th and 14th century to determine which piece should be moved. Religious leaders frowned upon the dice game. In the East, the Caliph al-Mahdi wrote to Mecca religious leaders in 780 to give up chess played with dice.» Quanto à sugestão do Francisco, é difícil atribuir-lhe crédito. Tanto as origens polacas de Podolski como a sua atitude dentro das quatro linhas leva-me a pensar que ele é um seguidor das teorias do "teatro pobre" de Jerzy Grotowski, e que as derivas pós-modernistas do grupo Nature Theater não merecem mais do que o seu desdém silencioso. A talhe de foice, isto é um gambito de dama recusado.
COMEÇAR A PENSAR: Leitor prezado, mesmo que não tenhas tempo para mais nada, sugiro-te que faças passar o teu périplo blogosférico pelas "Notas demasiado soltas" que o André dedicou ao festival "IndieLisboa". (Começar aqui e depois ir por aí acima.) Há poucos espaços em Portugal onde se pense o cinema de forma tão intensa e profunda, e ao dizer isto não estou a fazer distinção de meio: blogs, jornais, televisão, revistas, panfletos distribuídos no Rossio e conversas de café.

terça-feira, junho 24, 2008

PORQUE NÃO APOIEI A SELECÇÃO (3): Porque enveredou decididamente pela utilização espertalhona de jogadores recém-naturalizados. A partir do momento em que lhes foi atribuída a nacionalidade portuguesa, Deco e Pepe passaram a gozar de plenos direitos enquanto cidadãos deste país. Isso não me choca minimamente. Choca-me, isso sim, que lhes seja dada a oportunidade de representar uma selecção portuguesa, uma vez que não foram formados no país que estão a representar, não nasceram para o futebol em Portugal, emigraram para jogar futebol, o que faz com que toda a operação tresande a oportunismo. Estamos a falar de jogadores que passaram poucos anos em Portugal e que já não exercem a sua actividade aqui. Que critério pode justificar a sua inclusão numa selecção nacional? Não me incomoda nem um pouco que jogadores como Makukula ou Bosingwa representem Portugal, pois foi aqui que se desenvolveram enquanto futebolistas, e o seu percurso não passou por qualquer naturalização "à pressão" com o fim específico de envergar a camisola das quinas. Isto não é uma questão de saber a letra do hino nem de gostar de bacalhau. Trata-se de responder a esta questão simples: uma selecção nacional deve reflectir o valor de uma nação e dos seus atletas, ou a sua capacidade para atrair profissionais de outro país em quantidade e qualidade? Quanto ao argumento de que "os outros fazem o mesmo", é digno daqueles que confundem a ética com um jogo de imitação.
TOCA-E-FOGE: Certos blogs, reconhecíveis por uma panóplia de detalhes (os tiques, a postura, o estilo "toca-e-foge") cultivam um modo próprio de lançar provocações e de fingir admiração, postiça e chocarreira, perante quem reage às suas provocações com uma indignação que lhes pareça demasiado acalorada. Nesses cadinhos de bazófia, graçola e pseudo-ciência, a virtude do politicamente incorrecto é ponto mais do que adquirido, é credo e confiteor, razão de ser por vezes única. Assim, para citar um exemplo recente, quando Patrícia Lança se permite mais um dos seus celebrados devaneios homofóbicos, não falta um compagnon para assinalar, com uma brevidade que ele confunde com malícia, a multiplicidade de respostas neste blog. Aquilo que parece ficar esquecido, no meio da leviandade e da criancice que fazem lei nessas paragens, é esta coisa muito simples: alusões e asserções sobre os tais temas "fracturantes" suscitam indignação, revolta e desprezo não só pelo seu nível mais ou menos asinino (embora também por isso), mas sobretudo porque esses temas possuem um alcance social e humano profundo. Dar trela à homofobia, ainda que por mero desfastio ou por vontade de beliscar a sociologia bem-pensante, significa atrasar um pouco mais o combate contra uma mentalidade que ainda hoje faz com que duas pessoas do mesmo sexo que se amam tenham, na esmagadora maioria dos locais públicos do mundo, de esconder o que sentem. Significa, por omissão, contribuir para que permaneçam no lugar todas as estruturas legislativas, religiosas e sociais que consagram a perseguição e a hostilidade contra os homossexuais. É com o fogo que se está a brincar, quando se confunde um tema desta gravidade com uma troca de galhardetes blogosférica acriançada. O problema é que quem corre o risco de se queimar não é quem brinca.

domingo, junho 22, 2008

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na sala de espera da clínica veterinária, o dono de uma gatinha lia o "Times Literary Supplement". Continuamos numa onda de periódicos, desta vez num lugar inusitado.

quinta-feira, junho 19, 2008

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No comboio Lisboa-Porto, uma jovem lia "Os Irmãos Karamazov" em finlandês. Na linha vermelha do metropolitano de Lisboa, outra jovem lia "Diário para Eliza", de Laurence Sterne, enquanto comia quadrados de chocolate. O elemento-chave destas descrições é, no primeiro caso, o finlandês, e no segundo o chocolate.

segunda-feira, junho 16, 2008

OFERTA E PROCURA: No último dia da Feira do Livro, nos saldos da Relógio d'Água, vi o livro "Noivado em S. Domingo", de Kleist, à venda por 1 euro. Senti uma opressão no peito ao ver-me rodeado por milhares de pessoas que acham que uma moeda de 1 euro vale mais do que um livro de Kleist. Felizmente, a barraca das farturas estava mesmo ali à mão.
CINEMA: Um dos melhores momentos do filme "Sex & the City" é, indubitavelmente, a cena em que Kim Cattrall, num gesto de enfado, atira para trás das costas um exemplar do livro de Rhonda Byrne, "The Secret", que aterra na areia de uma praia californiana.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Para variar, hoje é uma revista que está em destaque. Na linha amarela do metro, um cavalheiro lia, compenetrado, a "New Yorker".
SPEAKING IN TONGUES: O locutor da TVI mostrava dificuldades evidentes em pronunciar o apelido do defesa suíço Stephan Lichtsteiner. Teriam bastando alguns rudimentos da fonética alemã, assimiláveis em 5 minutos. Em vez de fazer o trabalhinho de casa, o locutor troçou da própria inépcia: "Eles também não sabem pronunciar Miguel Veloso nem Jorge Ribeiro". Há poucas coisas mais patéticas do que alegar a (hipotética) incompetência alheia para se desculpar da própria incompetência. A propósito de pronúncia de nomes estrangeiros, quem mais se distingue positivamente neste campo, na televisão portuguesa, é claramente José Rodrigues dos Santos. Não aprecio o seu estilo, e ler "A Filha do Capitão" não faz parte dos meus planos para os próximos 600 mil anos, mas tiro-lhe o meu chapéu por causa disto.
PORQUE NÃO APOIO A SELECÇÃO (2a): Dificilmente se poderia pedir a Luiz Felipe Scolari uma confirmação mais eloquente da sua falta de carácter. No rescaldo de uma derrota (mesmo não contando para nada tratou-se de uma derrota), em vez de procurar justificar o que correu mal, contenta-se em insinuar que estava tudo decidido de início, e que o resultado mais não foi do que um presente de despedida para a selecção Suíça. Com a maior das ligeirezas, pôs em causa a integridade moral quer da equipa de arbitragem quer da organização do evento. É triste constatar como Scolari tão rapidamente assimilou a mentalidade lusa: quando ganhamos, é porque somos os mais fortes, quando perdemos é porque o árbitro não nos deixou ganhar (árbitro esse que, bem entendido, não passa de um testa-de-ferro de interesses escondidos, dos "grandes", desses que não perdoam que os "pequenos" portugueses andem por aí a chegar a finais de campeonatos). Haja dó. Mau perder e falta de categoria é o que não falta em Portugal. Compreende-se mal a necessidade de importar treinadores e de lhes pagar três milhões por mês. Qualquer tuga bigodudo da divisão de honra fazia o mesmo por cem vezes menos, mais umas imperiais de vez em quando.

sexta-feira, junho 13, 2008

SABEDORIA OCULTA: Lukas Podolski, jogador da selecção alemã que já marcou 3 golos no corrente Europeu, fez recentemente uma declaração que desencadeou o gáudio malévolo entre aqueles que coleccionam os disparates proferidos por desportistas: «O futebol é como o xadrez, mas sem os dados.» Todos os que deram largas à chacota fariam melhor em dedicar-se à pesquisa antes de crucificar o pobre Lukas. Sucede que o xadrez, ou pelo menos algumas das versões de jogos que são considerados os antepassados do xadrez (por exemplo o chaturanga), eram jogados com o auxílio de dados. Ver aqui, aqui e aqui, por exemplo. Lukas Podolski, para além da sua velocidade, sentido de colocação e portentoso remate de pé esquerdo, demonstra um conhecimento muito profundo da história do xadrez, e a capacidade louvável de se servir dele como inspiração para os seus mots d'esprit.
PORQUE NÃO APOIO A SELECÇÃO (2): Porque é comandada por um homem sem carácter. Agredir um membro de uma equipa adversária, em directo, e perante milhões de telespectadores, é já de si uma atitude extremamente condenável, e que levaria a despedimento com justa causa em quase todos os sectores profissionais. Negar o sucedido, não dar mostras de arrependimento, minimizar a gravidade do caso por meio de um punhado de trôpegas justificações, e apenas se desculpar muito mais tarde, e ainda por cima claramente a contragosto, eis o que define um perfil moral muito rasteirinho. A cereja em cima do bolo foi o recurso apresentado após uma sanção que só pecou por brandura, recurso apoiado pela Federação e inexplicavelmente acatado pela UEFA. Todo o país ficou a saber que ao seleccionador da equipa nacional de futebol tudo se desculpa. Não deveria ser assim, Trata-se de um cargo principescamente remunerado, com elevada exposição mediática e que acarreta responsabilidades de representação do país. A tolerância para prevaricações e comportamentos de arruaceiro deveria ser menor do que num cargo normal, e não maior. Scolari é um grande treinador; isso não contesto. Acho bastante graça àqueles que tentam relativizar o seu brilhante currículo por meio de golpes de rins argumentativos que fariam inveja aos sofistas da antiguidade. Porém, ser um grande treinador não chega.

terça-feira, junho 10, 2008

A HORA RIVETTE (9): Na Cinemateca, a Hora Rivette já acabou há muito; aqui no 1bsk, todas as horas são horas Rivette. Critiquei recentemente Antonio Rodrigues por mor de uma folha pouco conseguida sobre o filme "L'Amour par Terre". Convém deixar claro que os reparos que fiz se devem entender no contexto da profunda admiração e reconhecimento que sinto por este crítico desde que, há coisa de 2 anos, ele escreveu, a propósito de "Out 1: Spectre": «Um filme baseado em elementos frágeis (a improvisação, a paranóia), que resulta numa das aventuras mais intensas que um espectador de cinema poderá ter em toda a sua vida.»
PORQUE NÃO APOIO A SELECÇÃO (1): Porque rejeito a ideia de que os sucessos de uma equipa de futebol devam ser elevados à categoria de desígnio nacional. Televisões e jornais, ao alardearem com deprimente desmesura uma unanimidade tão eufórica como acéfala em torno da selecção, emitem uma censura implícita a todos aqueles que se obstinam em não se juntar à festa. Como se a indiferença pela carreira do futebol luso em terras austro-helvéticas, ou a preferência por uma outra qualquer selecção, fosse crime de lesa-pátria. Em suma: porque me repugnam situações em que a crítica, a dissidência e a oposição são desencorajadas, ainda que se trate de um campo (aparentemente?) lúdico e paralelo à vida real. Porque não gosto que falem levianamente em meu nome, e que assumam a minha adesão a uma causa apenas com base na minha nacionalidade.

terça-feira, junho 03, 2008

A DESCENTRALIZAÇÃO COMEÇA POR LANG, WELLES E RESNAIS: Eu já assinei. É incompreensível que uma instituição que ostenta no próprio nome a palavra "Portuguesa" se demita do dever de estender a sua acção para além das imediações da Avenida da Liberdade. Idealmente, o que seria desejável seriam sessões regulares de Murnau, Bergman, Griffith, Antonioni, Mizoguchi, Godard, Renoir, Hawks, Tarkovsky, Ray, Ray, Bresson, et al. em Faro, Vila Real, Funchal, Coimbra, Figueira da Foz, São Miguel, Braga, Viseu, Beja, etc. No mundo real, a existência de um pólo (ou delegação, ou antena, ou filial, ou o que quer que lhe chamemos) da Cinemateca no Porto é uma hipótese realista e perfeitamente justificável à luz da dimensão da cidade e das suas tradições culturais.

domingo, junho 01, 2008

E PLURIBUS UNUM: Conta-se que existia em torno da figura de Jorge Luis Borges uma espécie de teoria da conspiração, segundo a qual "Jorge Luis Borges" não existiria (ou não passaria de um medíocre escrevinhador). As obras atribuídas a Borges seriam, de acordo com esta teoria (ela própria fortemente borgesiana), um fruto do esforço de um grupo de escritores argentinos, que se ocultariam por detrás deste pseudónimo colectivo. Na mesma linha, por vezes sinto-me tentado a acreditar que "Sara David Lopes" é um pseudónimo que esconde uma comunidade de tradutores de filmes. Não me admiraria que esta suspeita fosse partilhada por muitos dos frequentadores das salas de cinema deste país.

[ADENDA - 15/6/2014: A Sara David Lopes teve a amabilidade de me contactar, esclarecendo que não se trata de um pseudónimo, mas sim de uma única e real pessoa. Naturalmente que nunca duvidei de tal coisa e espero que este meu pequeno e sensaborão chiste não tenha semeado dúvidas entre os leitores. Deixo a minha palavra de apreço pelo trabalho, quase sempre ignorado, desenvolvido por esta tradutora e pelos seus colegas.]
MOMENTO AMAZON.COM DA SEMANA: Os clientes que gostaram das Torneiras de Freud e do Moro Aqui também deverão gostar de I Kant, Kant You? (Seria um erro fatal perder esta oportunidade para recordar que Tori Amos, no início da sua carreira, cantava numa banda chamada "Y Kant Tori Read".)

sexta-feira, maio 30, 2008

PALMA DE OURO: Afinal, foi suficiente. Atribuo uma importância muito relativa a palmas, leões e ursos, mas satisfez-me que o galardão máximo do festival de Cannes deste ano tivesse sido atribuído a Laurent Cantet. Um cinema tão rico e diversificado como é o francês merece atenção e reconhecimento, e se a única (ou pelo menos a mais eficaz) maneira de receber essa atenção e reconhecimento é a reboque do mediatismo de um festival como o de Cannes, pois bem, venham as palmas e outros berloques em metal nobre. (Em dois jornais gratuitos publicados no dia seguinte à divulgação do palmarés, as manchetes iam para Benicio Del Toro, e era necessária alguma atenção para perceber quem tinha ganho a Palma de Ouro. É o culto da celebridade, na sua rotineira mesquinhez.) Teria preferido que o vencedor fosse Arnaud Desplechin, um dos poucos realizadores franceses nascido depois de 1940 a quem se pode aplicar o epíteto de "génio" sem qualquer escrúpulo de inexactidão ou hipérbole. Quanto a Philippe Garrel, já tem um Leão de Ouro na prateleira, o que torna mais tolerável a omissão do palmarés. De Cantet só conheço "L'Emploi du Temps", de que guardo boas recordações pela secura e inteligência da realização (mas também pela interpretação superlativa de Aurélien Recoing). Por coincidência, estou a ler neste momento um romance que se chama também "L'Emploi du Temps" (de Michel Butor), mas que nada tem a ver com o filme. Muitos foram os que assinalaram o facto de ser esta a primeira Palma de Ouro atribuída a um filme francês desde 1987 (Maurice Pialat, "Sous le Soleil de Satan"). O que quase ninguém disse foi que é preciso recuar outros 21 anos na lista dos galardoados para encontrar outro filme francês (1966, Claude Lelouch, "Un Homme et une Femme", que ganhou ex aequo com "Signore & Signori", de Pietro Germi). Ninguém pode acusar Cannes e o seu Festival de serem um feudo de chauvinismo nacionalista. Para além de Cantet e Lelouch, o único realizador francês vivo que triunfou em Cannes é Jean Delannoy (que cumpriu o seu 100º aniversário em Janeiro deste ano, e cujo filme "La Symphonie Pastorale" foi um dos distinguidos, em 1946, com o "Grand Prix du Festival International du Film" - era esta a designação do troféu máximo do certame, quer nesse ano quer em 1966). A esta lista poder-se-ia acrescentar Costa-Gavras (Palma de Ouro ex aequo em 1982 com "Missing", e que, salvo erro, possui dupla nacionalidade grega e francesa).

segunda-feira, maio 26, 2008

MONDAY, MONDAY: Os anos passam, tudo muda, as gentes mudam, os jornais mudam, os directores de jornais vão e vêm. No meio deste implacável devir, certas coisas permanecem intocadas e imunes ao passar do tempo, e uma dessas coisas é a crónica de João César das Neves no "Diário de Notícias", sem a qual as minhas segundas-feiras seriam muito mais áridas e difíceis de encarar. Desta vez, JCN debruça-se sobre uma das suas obsessões de longa data: o ateísmo. «A vida pública é hoje ateia ou agnóstica. Ouve-se muito criticar a tolice e o delírio das religiões, mas raramente se refere a fragilidade intelectual da própria atitude ateísta que, com todo o respeito, é muito inconsistente.» "Como todo o respeito", ou seja, sem ele (cf. "Yes, Minister"). A razão pela qual raramente se refere a fragilidade intelectual da atitude ateísta tem, possivelmente, a ver com o facto de que essa putativa fragilidade é infinitamente menos gritante do que a da atitude religiosa. Não é tarefa simples apontar inconsistências ao ateísmo sem se cair em falácias pouco bonitas de se ver, e JCN demonstra isso mesmo de forma magistral nas linhas que se seguem. «Recusar Deus é uma crença como as outras. No fundo trata-se de ter fé na ausência divina.» JCN arranca a todo o vapor, com a argolada do costume. Importa talvez relembrar (mas de que serve insistir no óbvio, perante alguém que cultiva a obstinação dogmática, e que prefere uma boa citação das escrituras a um silogismo?) que o ateísmo não é uma fé. Quem crê assume um estatuto lógico verdadeiro para um certo estado de coisas. Se essas coisas desafiam a verosimilhança (digamos, a encarnação, os milagres, a trans-substanciação, a ressurreição), existe uma ruptura com as evidências que qualquer crente deve, parece-me, ser capaz de assumir. As atitudes ateístas e agnósticas, pelo contrário, não implicam essa ruptura, mas sim a recusa em acreditar em coisas inverosímeis apenas porque são comummente aceites pela tradição cultural e religiosa onde o indivíduo se encontra inserido. Muito longe de ser uma fé, trata-se de uma postura racional e crítica. «A Antropologia e Sociologia sérias mostram o oposto: a religiosidade é o normal em todas as culturas e épocas.» A religiosidade é o normal em todas as culturas e épocas? De acordo, assim como não menos normal tem sido a tenacidade com que os cleros de todos os matizes e variedades têm batalhado para garantir essa normalidade, muito à força de astúcia, de chantagem e de entendimentos oportunos com o poder secular. Mas desde quando é que essa asserção, de índole sociológica e antropológica, tem relevância para a questão fulcral que é a de saber se o ateísmo e o agnosticismo são atitudes válidas? «O ateísmo é uma construção tardia e artificial de elites, sobretudo desde o Iluminismo.» Obra de elites artificial e tardia... Tal como a democracia, os direitos humanos, a emancipação da mulher (ups!, péssimo exemplo), o pacifismo, o fim da escravatura, a escolaridade obrigatória... (Sobre o emprego de "elites" no plural, ver aqui.) «Mantido em ínfima minoria, agora está em clara decadência. Vendo-lhe a lógica interna, percebe-se porquê.» Em que ficamos? A vida pública é hoje ateia ou agnóstica, ou o ateísmo é mantido em ínfima minoria? Parece-me que a "clara decadência" é da capacidade argumentativa do próprio JCN. Noutros tempos, podia ainda gabar-se, à falta de ter razão, de conseguir manter um vislumbre de coerência interna nas suas crónicas. E que estudos menciona JCN para sustentar essa "clara decadência"? Nenhuns. «O agnosticismo, hoje variante dominante, justificar-se-ia se a existência de Deus fosse inconsequente e negligenciável. Mas ignorar a possibilidade de Deus é como desinteressar-se da existência do pai, benfeitor ou patrão, senhorio ou polícia. E se Ele aparece?» Comparar Deus a um senhorio, eis aquilo que poucos ousariam sem pestanejar. Mas JCN ousa e não pestaneja, e talvez seja por isso que a sua crónica das segundas-feiras sobrevive a todos os ventos e marés. Este argumento não é mais do que uma versão rasca e pusilânime da aposta de Pascal. E se ele aparece? Pois é... À falta de certezas, mandam as cautelas e os caldos de galinha que se tenha fé, não se vá dar o caso de... Ou, pelo menos, que se pense no senhorio/patrão/papão de quando em vez. A vida não está fácil. Haverá algo de mais deprimente e degradante do que acreditar "just in case"? «A dificuldade mais visível vem da existência da realidade. Porque há algo em vez de nada? Porque existe ordem, não caos?» «Porque há algo em vez de nada» é mais uma frase de t-shirt do que uma questão filosófica séria. Em todo o caso, a existência (por oposição à não existência, hipótese inútil porque incompatível com um ser pensante que a concebesse) não pressuporia automaticamente um criador (ver mais abaixo). Quanto à existência de ordem em vez de caos, recomendo a leitura de alguns bons livros de Física, Química, Bioquímica e Astronomia. Por mais numerosas que sejam as questões por resolver, a compreensão de como a ordem pode surgir graças à acção de um punhado de partículas subatómicas e de algumas forças está ao alcance de qualquer leitor com um mínimo de formação científica. «A resposta ateia era recusar a questão, porque o universo sempre existira assim, mas a teoria do Big Bang explodiu essa certeza e deu solidez científica ao facto da Criação.» Afirmar que a teoria do Big Bang deu solidez científica à Criação é um daqueles disparates que dá vontade de perdoar porque faz sorrir. Igualmente patético, mas um pouco mais original, seria defender que a constante de Planck é Deus, ou que os três quarks que compõem os neutrões e os protões são a santíssima trindade. As possibilidades são inúmeras. «Eu e o mundo, as coisas, pessoas e outros seres não existiam e passaram a existir.» Mas não imediatamente após o Big Bang, meu caro JCN, as coisas ainda levaram o seu tempo. «Seria supina tolice supor um relógio surgindo perfeito das forças fortuitas da geologia e erosão.» Sem dúvida, mas o relógio é um artefacto humano. Nunca existiu pressão evolucionista que favorecesse o aparecimento de uma criatura dotada de um sistema de engrenagens que gerassem um movimento circular de um ponteiro com um período que fosse um submúltiplo do da rotação terrestre. O exemplo é tendencioso. «Um cérebro, muito mais complexo, quem o fez?» Não certamente o acaso, como JCN parece querer insinuar neste seu frouxo exercício de reductio ad absurdum, mas sim (e isto é crucial) mutações aleatórias, ao longo de muitos milhares de geração, conjugadas com a pressão evolucionista que favoreceu, em certos períodos, sistemas nervosos cada vez mais complexos e cada vez mais capazes de interagir criativa e eficazmente com o meio ambiente e com espécies rivais. O conceito não é dos mais intuitivos e fáceis de tragar, mas convenha-se que o esforço de imaginação requerido para interiorizar quão poderosa pode ser esta conjunção não é sobre-humano. «A resposta ateia tem de ser que o acaso de milhões de anos conduziu de uma explosão ao sorriso da minha filha. Ou o acaso é Deus, e o ateísmo nega-se (...)» Se se trata meramente de uma questão de nomes, então não existe desacordo. JCN é livre de chamar "Deus" ao acaso, à evolução, ao Big Bang, aos buracos negros e ao bosão de Higgs (aliás, não seria o primeiro a fazê-lo). Mas essa recuperação de conceitos científicos, longe de negar o ateísmo, reforça-o, pois constitui uma fuga para a frente por parte da religião, na direcção de uma posição cada vez mais vaga e inverificável: Deus é tudo, Deus é o cosmos, qualquer coisa que a ciência venha a descobrir é ainda Deus. Dir-se-ia um tratado de Tordesilhas unilateral em que quem parte e reparte insiste em ficar com a melhor parte, ou seja, tudo. «A violação da lei moral apenas confirma a sua existência. Muitos conseguem suprimir em si esta busca da justiça (embora a sintam quando vítimas), mas o trabalho que dá apagá-la revela a inscrição na própria identidade da raça. Uma lei implica um legislador. Como podem meros atómos de carbono, aglomerados em aminoácidos e evoluindo pela selecção natural, gritar que salário digno é valor universal?» Estas imagens, de esplendoroso fôlego surrealista, já se tornaram a imagem de marca de JCN. Têm a vantagem de poupar o comentador, pois ninguém, no seu perfeito juízo, se atreverá a argumentar contra átomos de carbono que fazem reivindicações salariais. Como desopilante, há muito pior. «O terceiro e pior obstáculo do ateísmo é a ausência de finalidade. Para o ateu este universo, sem origem nem orientação, também não tem propósito. Bons e maus têm o mesmo destino vazio. Saber que vivemos num mundo que se dirige à morte e ao nada faz de nós os mais infelizes dos seres. Se Deus não existe não existem o bem, a moral, a própria razão. Esta crueldade ontológica é tão avassaladora que poucos que a afirmam a enfrentam com honestidade.» Deus como condição necessária para a moral e para o bem é um lugar comum tão usado e abusado que mais vale deixá-lo entregue ao seu definhamento, que nem as recauchutagens sucessivas disfarçam. É mais digno de uma contracapa de edição barata de Dostoyevsky do que do discurso de uma pessoa educada. Quanto ao argumento subjacente (deve-se acreditar em Deus porque, sem Deus, o mundo seria cinzento, sombrio e desprovido de sentido), só são sensíveis a ele aqueles que preferem iludir-se a enfrentar a realidade munidos das armas de que dispõem: a lucidez, a objectividade, o cepticismo e o espírito crítico, mas também a compaixão, o bom humor, a coragem, a generosidade. (Vale a pena ler a crónica na sua totalidade, uma vez que os excertos nunca lhe farão inteira justiça.)

sexta-feira, maio 23, 2008

PLEONASMOS: No mesmo livro, Genette apresenta uma lista dos seus pleonasmos favoritos. Gosto bastante de "secousse sismique", "panacée universelle", "tri sélectif", "samba brésilienne" e "sciences cognitives", mas o mais precioso e suculento de todos é "chasseurs en colère". (Um dos choques mais difíceis de gerir durante a minha estadia em Paris foi o sucesso eleitoral, se bem que relativo, de um grupúsculo reaccinonário e patusco auto-intitulado "Mouvement Chasse, Pêche, Nature et Tradition", ectoplasma partidário da vontade de andar aos tiros pelos campos da doce França.)
SERÁ QUE GÉRARD GENETTE TEM ACOMPANHADO A HISTÓRIA RECENTE DO PSD?: «(...) le pays "réel", c'est celui qu'on veut séduire pour le dresser contre le pays "légal". L'usage de cette opposition est l'indice très sûr d'une démagogie de droite ou de gauche, qualifiée un temps d'"appel au peuple". Un autre marqueur de même sens est l'emploi péjoratif du mot "élite" - de préference au pluriel: l'élite peut être plus ou moins respectable, mais les élites ont toujours tort.» (Gérard Genette, In "Bardadrac", Éditions du Seuil, p. 258.)
ENTRETANTO, NA CROISETTE...: A selecção de filmes franceses em competição no festival de Cannes deste ano surge ao arrepio da tendência, predominante nos últimos anos, de escolher obras com um certo perfume "de autor" mas cirurgicamente insuspeitas de grandeza ou genialidade, e conformistas o quanto baste para evitar ofender a placidez mediática. (Não me esqueço de notáveis excepções, como Christophe Honoré, Bruno Dumont, Olivier Assayas, nem de falsas excepções ao jeito vivaço de Gaspar Noé e Dominik Moll.) Arnaud Desplechin e Philippe Garrel são, para além de realizadores consagrados, artistas em pleno vigor criativo, que assinaram recentemente obras-primas absolutas ("Rois et Reine" e "Les Amants Réguliers") estreadas em Portugal. A estes junta-se Laurent Cantet, que, sem ser um génio, sabe aplicar aos seus filmes as doses certas de inteligência, contenção e profissionalismo. Acho estupendo que se perca a vergonha de mostrar o cinema francês (o melhor do mundo, na minha opinião) em toda a sua excelência e pujança, ainda que tal possa não ser suficiente para que a Palma de Ouro fique em casa pela primeira vez desde que, em 1987, Maurice Pialat subiu ao palco (no meio dos assobios) e recebeu o troféu das mãos de Yves Montand, permitindo-se ainda um gesto que fez história («Si vous ne m'aimez pas, je ne vous aime pas non plus»).


"La Frontière de l'Aube", de Philippe Garrel.

terça-feira, maio 20, 2008

AINDA XADREZ: Durante anos, o "Échiquier Niçois" foi um dos sites que eu visitava com regularidade quase quotidiana, até ter sido interrompido pelo mais trágico dos motivos. Nem sempre, ao navegar pela internet, nos lembramos de como a possibilidade de desfrutar desta extraordinária riqueza de informação depende, em tão grande medida, do esforço, da persistência, da dedicação, do entusiasmo desmedido de alguns.
XADREZ NOVAMENTE: Jogar xadrez sem auxílio de tabuleiro é proeza corriqueira para o grande-mestre médio. Existe mesmo um torneio anual onde alguns dos melhores jogadores do mundo se defrontam às cegas. Bem entendido, o nível de jogo deixa algo a desejar, e abundam os erros de cortar a respiração. Bem entendido, o nível de jogo faria inveja a 99,99 % dos jogadores de todo o mundo. (Nada disto é muito importante, mas o ritmo de actualização do "Pastoral Portuguesa" tem vindo a rivalizar com o deste blog, e há que espicaçar o seu autor, tarefa para a qual urge convocar todas as forças vivas da nação, e que justificaria mesmo uma presidência aberta.)
XADREZ: O fim-de-semana offline recordou-me os tempos em que dependia da página de xadrez de Luís Santos, n'"A Capital" das terças, e da revista "Europe Échecs" (adquirida devotamente na Barata da Avenida de Roma), para me inteirar do que se passava na actualidade xadrezística. Passado o tormento que foi a impossibilidade de acompanhar as últimas duas rondas do torneio M-Tel, restou-me a profunda satisfação de constatar que "Chucky", o boneco diabólico, não vacilou. Depois da estrondosa primeira volta (5 vitórias em 5 jogos), Vassily Ivanchuk geriu o seu avanço com uma serenidade que deve ter enchido de alívio os seus fãs, habituados aos colapsos espectaculares do génio ucraniano. Após 4 empates (e alguns calafrios, especialmente face ao búlgaro Topalov e ao chinês Bu), Ivanchuk ainda triunfou, de negras, na última ronda, frente ao búlgaro Cheparinov, terminando o torneio com 1,5 pontos de avanço sobre o segundo classificado, e uma performance fenomenal de 2977 pontos Elo.
PAUSA FORÇADA: Fim-de-semana sem internet, por culpa de um problema de origem indeterminada. Segundo o técnico do Clix, a interrupção ocorrera "na rua", o que obrigou à intervenção da PT, dona e senhora de tudo o que se encontra a montante do domicílio do cliente da operadora rival. A sensação de ir de Herodes para Pilatos não durou mais do que uns dias, frustrantes mas não isentos de sensações fortes e revigorantes. Tudo novamente nos conformes. A queixa para a Anacom ficará para outra ocasião. E o que faz a polícia no meio disto? É esta a questão que atormenta a gente de bem, grupo no qual tentativamente me incluo.

terça-feira, maio 13, 2008

RARIDADE: «Um dia» dizia amargamente William Golding «alguém há-de descobrir um exemplar de um dos meus romances sem dedicatória, e valerá uma fortuna.» (Fonte: Gérard Genette, "Bardadrac", Éditions du Seuil.)
O DEDO NA FERIDA: A Linha dos Nodos põe o dedo na ferida. O que pensarão as bases do PSD do Matthew Barney? E qual a posição da concelhia de Famalicão sobre a teoria das supercordas? O que leva a Dra. Manuela Ferreira Leite a ocultar a sua opinião sobre a escola de Frankfurt (em geral) e Theodor Adorno (em particular)?
XADREZ:




Algo de extraordinário se está a passar em Sófia, Bulgária, no torneio "M-Tel Masters". O grande-mestre ucraniano Vassily Ivanchuk ganhou os seus primeiros 5 jogos (de um total de 10) contra os nºs 4, 6, 8, 22 e 27 do mundo. Atendendo à elevada percentagem de empates (tipicamente entre 50 e 70%) que normalmente se verifica a este nível, 5 vitórias seguidas constituem uma façanha assombrosa, que já evoca comparações com outras performances míticas na história da modalidade. Vêm à ideia, por exemplo, os triunfos de Bobby Fischer, só com vitórias, nos campeonatos dos E.U.A. ou no torneio dos candidatos, os sucessos esmagadores de Kasparov em torneios do mais alto nível, ou o triunfo de Karpov em Linares, 1994, com 11 pontos em 13.

Desde há muito tempo que Ivanchuk é o meu grande ídolo do xadrez. (Isto, claro, se não pensarmos em Karpov. O melhor é pôr Karpov à parte. O melhor é nem falar de Karpov... *) O seu estilo, combinação inimitável de heterodoxia e limpidez clássica, a sua ubiquidade nas grandes competições internacionais (que contrasta com a parcimónia de muitos dos seus pares, que se contentam com raras aparições em torneios seleccionados, quase a medo, como que mais preocupados em preservar a sua aura e o seu ranking do que em jogar xadrez), assim como (há que dizê-lo) as suas excentricidades atraíram uma leal base de fãs, que nunca deixa de se manifestar ruidosamente sempre que "Chucky" mostra o seu brilhantismo. Infelizmente, os nervos frágeis deste génio custaram-lhe muitos dissabores ao longo da sua carreira, e provavelmente a possibilidade de se tornar campeão mundial. Durante anos, escassearam os convites, e Ivanchuk só conseguiu manter-se entre os melhores do mundo trucidando adversários muito inferiores em competições de magnitude inferior. Aos 39 anos, ei-lo que aparece numa das suas melhores formas de sempre. Aos seus admiradores, resta fazer figas para que Ivanchuk não sofra um dos seus lendários colapsos na segunda metade do torneio.

Site oficial do torneio "M-Tel Masters".
Cobertura no site Chessbase.
Cobertura no site Chessdom.
Cobertura no site Europe Échecs.


* copyright Linha dos Nodos

quarta-feira, maio 07, 2008

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na estação de metro do Campo Grande, no espaço de poucos segundos: "Lord of the Flies", de William Golding, em versão original, e "A Arte de Amar", de Ovídio. O escrúpulo obriga-me a frisar que este último não estava a ser lido, mas tinha acabado de ser fechado pelo seu possuidor, pelo que a presunção de leitura não é descabida.

domingo, maio 04, 2008

ATENUANTES: Em defesa do autor e do(s) revisor(es) de "Rosa Vermelha em Quarto Escuro":
  • O nome original da equipa de basquetebol "New York Knicks" era "New York Knickerbockers". "Knickerbockers" é um apelido holandês, um tipo de calções muito em voga no início do século XX e o nome de uma personagem fictícia (de um conto de Washington Irving) que funcionou como símbolo da cidade. O substantivo "knickers", bem mais conhecido hoje em dia, derivou deste epónimo. Portanto, se é certo que os Knicks nunca foram conhecidos (que eu saiba) por "New York Knickers", essa designação não é completamente destituída de sentido etimológico. (Uma nota final: os Knicks são a equipa favorita do Joey Tribbiani da série "Friends".)
  • O número de volumes de "Em Busca do Tempo Perdido" pode ser diferente de sete, dependendo das edições. A minha, da Garnier-Flammarion, tem dez. Claro que isto depende de considerarmos, por exemplo, que "Sodoma e Gomorra" consiste em dois volumes ou num único volume dividido em dois tomos por conveniências de edição.

Quanto à mensagem principal do post, estou inteiramente de acordo. A revisão é o calcanhar de Aquiles da edição portuguesa. Infelizmente, o desleixo no campo ortográfico não é mais do que o reflexo da falta de exigência que, a este respeito, se cultiva em Portugal.

QUÍMICA: A acreditar na teoria de Joey Tribbiani (personagem da série "Friends"), quanto menor a empatia (a famosa "química") entre dois actores em palco, melhor eles se entendem fora dele. Se esta teoria possuir algum fundo de verdade, e se for transponível para a televisão, os bastidores das telenovelas portuguesas estarão repletos de romances tórridos entre os seus protagonistas. (E nem vou falar dos "Morangos", onde não é difícil adivinhar amor juvenil às mancheias eclodindo entre os actores, com intensidade directamente proporcional ao absurdo dos mismatches que abundam neste série. A Vera com o Bruno?! Estão a fazer pouco da gente honesta.)

sexta-feira, maio 02, 2008

A CARAVANA PASSA:




Dia 3 (amanhã), na Fnac Chiado, lançamento do livro "Caravana", de Rui Manuel Amaral. Com Fernando Alvim.

Clique aqui e veja o trailer desta apresentação na Fnac do Chiado:http://www.youtube.com/watch?v=MTJXUU6iVeU"

Mais informações sobre o livro e o autor aqui:http://www.angelus-novus.com/livros/detalhe.php?id=157

Conheça todas as datas e locais de apresentação de "Caravana" aqui:http://farm3.static.flickr.com/2279/2381814381_2c7444dd5e_o.jpg

quinta-feira, maio 01, 2008

ALGUMAS HORAS: Em "La Peau de Chagrin", a páginas tantas, a personagem principal (Raphaël) e a sua futura mulher (Pauline), que se reencontraram após uma série de peripécias, trocam declarações apaixonadas. O seu enlevo dá origem a um dos mais elegantes eufemismos a que Balzac se permitiu em toda a "Comédia Humana": Heureux qui devinera leurs joies, il les aura connues ! -Oh ! mon Raphaël, dit Pauline après quelques heures de silence, je voudrais qu'à l'avenir personne n'entrât dans cette chère mansarde. Após várias páginas de eloquência amorosa, a menção a "quelques heures de silence" não pode deixar lugar a dúvidas de interpretação. Uma das edições anteriores do romance ia mais longe, ao falar em "quelques heures de silence bien employées". Edições póstumas, pelo contrário, acharam bem reduzir as "quelques heures" a "deux heures", no nobre intuito, presume-se, de diluir o conteúdo escabroso sem atentar declaradamente contra a liberdade do artista.
A HORA RIVETTE (8), UM BANDO DE LOUCOS: "Um Bando de Loucos". A expressão empregue pelo Excelentíssimo Presidente Do Governo Regional Da Madeira (que, apresso-me a dizer, não é um palhaço, nem um arruaceiro, nem um grosseirão, e ao qual não é meu desejo associar qualquer qualificativo susceptível de desencadear acção judicial por difamação) não podia ter sido mais acertada. Enganou-se apenas nos destinatários. Em vez da assembleia regional da Madeira, a expressão assenta que nem uma luva àqueles que devotaram mais de uma dúzia de horas da sua vida à projecção integral de "Out 1", na cinemateca, dividida por dois fins de tarde e dois princípios de noite. Um bando de loucos na sala, outro bando de loucos no ecrã. Torna-se difícil dizer se a experiência foi mais demolidora e exaltante para quem assistiu ao filme ou para quem participou na sua rodagem, há quase 40 anos. Uma chávena de chocolate, uma malga de caldo verde e umas línguas de veado teriam sido recompensa bem merecida para todos os que, de entre este bando de loucos, saíram da sala Luís de Pina à 1 da manhã, algo titubeantes (pelo menos no meu caso). Em vez disso, apenas o olhar, misto de compaixão e de impaciência, do segurança que esperava pela debandada do cortejo de doentes mentais.
ARTE CORPORAL: Graças à revista "Ler", fiquei a saber que o escritor José Luís Peixoto tem o nome do condado imaginário dos romances de Faulkner ("Yoknapatawpha") tatuado no braço. Isto decidiu-me a tatuar "11, rue Simon-Crubellier" na minha omoplata direita. É a minha resolução de primavera.

quarta-feira, abril 23, 2008

A HORA RIVETTE (7): Por vezes, tentam fazer-nos crer que tal acontecimento será "único", ou que a oportunidade de o viver dificilmente se repetirá. Estamos todos saturados de hipérboles deste jaez. Travestir o corriqueiro em qualquer coisa de excepcional e irrepetível é algo que desespera a gente de bem.

Mas há que admitir que, de longe em longe, surgem oportunidades genuinamente irrepetíveis, e assinalam-se eventos cuja reprodução no lapso de tempo correspondente à vida média de um cidadão está longe de ser garantida.

Nos próximos dias 28 e 29, na Cinemateca, será exibida a versão integral de "Out 1", de Jacques Rivette. Esta versão, também chamada "Noli Me Tangere" (para a distinguir da versão abreviada, "Spectre"), com uma duração de mais de 12 horas, nunca foi vista em Portugal. Não me admiraria que os dedos das mãos chegassem para contar o número de exibições que este filme conheceu em todo o mundo.

Instrumentos persas de percussão, Ésquilo, Paris, Jean-Pierre Léaud, Michael Lonsdale, Bernadette Lafont, Bulle Ogier, Rohmer discursando sobre Balzac, conspirações tenebrosas, Lewis Carroll, tudo isto desfilará perante o olhar pasmado de quem aceitar o desafio e se dirigir às simpáticas instalações da Barata Salgueiro, de preferência munido de farnel.



(Atenção, o filme é colorido, mas na Internet só encontrei fotogramas a preto e branco.)

domingo, abril 20, 2008

A HORA RIVETTE (6): Citando de memória algumas das ideias/devaneios/argumentos trocados entre Serge Daney e Jacques Rivette ("Jacques Rivette, le Veilleur", de Claire Denis, Cinemateca, no passado dia 11):



  • Rivette pouco dado a close-ups por atribuir prioridade à interacção entre as personagens, à presença física dos corpos influenciando-se mutuamente. Os close-ups de Godard seriam válidos porque se continua a sentir o resto do corpo fora de campo, o prolongamento orgânico dos rostos.


    Eddie Constantine e Anna Karina em "Alphaville" (1965)


  • A chegada a Paris do jovem Rivette. Um encontro numa livraria de Saint-Sulpice, e a ida, nessa mesma noite, a uma sessão onde um certo Maurice Schérer (que ainda não era Éric Rohmer) apresentava "Les Dames du Bois de Boulogne", de Bresson.

  • Já não é possível começar uma história sabendo de antemão como essa história se irá terminar. "Não existem mais desenlaces." ("La Bande des Quatre" e "Haut Bas Fragile" são excelentes exemplos de filmes que parecem conduzir a desenlaces, mas que acabam por recusá-los, de forma discreta mas categórica.)

  • Um encontro com Fritz Lang em que este falou apenas e só de moral.

  • Rivette manifesta contentamento por sentir que os seus filmes são vistos e amados em paragens remotas. Uma vez, uma rapariga da Califórnia escreveu-lhe uma carta. A impressão vermelha da palma de uma mão, no exterior do envelope, revelava que a carta tinha a ver com o filme "Céline et Julie Vont en Bateau".

  • As filmagens de "La Bande des Quatre", marcadas pela recordação da filha de Bulle Ogier.

sábado, abril 19, 2008

EM TORNO DE "A NOITE": Antonioni possui um apelo sobre as massas nitidamente superior ao de Jacques Rivette. Ao passo que, nos filmes deste realizador recentemente mostrados na Cinemateca, raras vezes contei mais de uma dúzia de espectadores, a sala Dr. Félix Ribeiro registou bem mais de meia casa para a exibição de "A Noite". Um dos espectadores era um comentador desportivo sobejamente conhecido, cujo nome não revelo por uma questão de discrição. Posso apenas dizer que se trata de um household name de todos aqueles que, no último par de décadas, assistiram com regularidade a transmissões de futebol na televisão. Na bilheteira, um cavalheiro limitou-se a dizer "Antonioni", enquanto depositava o dinheiro sobre o balcão, com o ar mais solene deste mundo. Como se fosse uma espécie de senha. Nos lavabos dos homens da Cinemateca podem ler-se numerosas referências a realizadores famosos, da autoria (presumo) de frequentadores para quem a escatologia é indissociável da cinefilia. Exemplos: Antonioni, Pasolini, Jarman, Wilder, Bresson, Lynch. É ver para crer. Ou, no caso das senhoras, é pedir a um acompanhante masculino para ir lá ver para crer, e depois contar-lhe o que viu.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, uma senhora lia "A Enfermaria nº 6 e outros contos", de Chekhov, numa edição de bolso da colecção "livros RTP". Por falar em leituras: no filme "A Noite", de Antonioni, Monica Vitti está a ler "Os Sonâmbulos", de Broch, coisa que parece deixar Marcello Mastroianni deveras impressionado.

«A atitude de que a natureza é caótica e de que o artista lhe traz ordem é um ponto de vista muito absurdo, julgo eu. A única coisa que podemos pretender é trazer alguma ordem a nós mesmos.» (Willem de Kooning)




Willem de Kooning, "Untitled XX"

domingo, abril 13, 2008

DEDICATÓRIAS: Thea von Harbou dedicou o argumento de "Metropolis" a Fritz Lang, nos seguintes termos: "Para Ti, e para a Alemanha". Philip Larkin dedicou "The Less Deceived" à sua companheira Monica Jones. Foi a única recolha de poemas que ele dedicou a alguém. (*) (*) Fonte: Andrew Motion, in "Lives For Sale - Biographers' Tales", edited by Mark Bostridge, Continuum, 2004.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde (?) do metropolitano, uma senhora sentada à minha frente lia "Une Mort Très Douce", de Simone de Beauvoir. Trata-se de um curto relato, de natureza autobiográfica, onde a autora conta os momentos passados à cabeceira da sua mãe moribunda. Ao meu lado, uma senhora lia um livro da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Eu lia o meu Balzac ("La Peau de Chagrin").

domingo, abril 06, 2008

INTO MY ARMS, O LORD, INTO MY ARMS, O LORD: Nessa noite, o pianista do centro comercial Atrium Saldanha tocava versões muito suas de temas de Nick Cave, intercalados com melodias vivaças de Jerry Lee Lewis. Não escutava uma música ambiente tão despropositada desde que, em escala no aeroporto de Barajas (Madrid), reconheci, com compreensível surpresa, duas canções de Leonard Cohen: "Bird On a Wire" e "Last Year's Man".
FILMES QUE EU GOSTARIA DE VER EM SALAS PORTUGUESAS:
Em pelo menos um destes casos, o filme ainda nem sequer teve estreia mundial. Noutros, a sua estreia em Portugal já está anunciada. Há até um (Rivette) que já pude ver. O que une estes filmes é o meu desejo de os ver, um dia, num ecrã perto de mim. Nos dias que correm, isso pode ser pedir demais. Hoje em dia, a divisa do Maio de 68 confunde-se com a aspiração do cinéfilo médio: ser realista e pedir o impossível.



"Voici Venu le Temps", de Alain Guiraudie










"Ne Touchez Pas la Hache", de Jacques Rivette








"Un Conte de Noël", de Arnaud Desplechin








"Aleksandra", de Aleksandr Sokurov






"Yella", de Christian Petzold






"Nightwatching", de Peter Greenaway







"Takeshis'", de Takeshi Kitano
O MEU PAI ESTÁ PRESO: Na opinião de Q., a música do "Filho do Recluso" é muito parecida com a de uma canção da Lhasa. Eu ainda tenho as minhas dúvidas.

quinta-feira, abril 03, 2008

O QUE DIRÁ DE TUDO ISTO O MARCANTONIO DEL CARLO?: Num momento de elevada intensidade dramática do episódio de hoje dos "Morangos com Açúcar", o Pulga revelou ao irmão que gosta de rapazes. Pergunto-me se o argumentista se terá inspirado nestes versos dos Belle and Sebastian: My brother had confessed that he was gay It took the heat off me for a while Se assim foi, a continuação da canção fornece excelentes ideias para os próximos desenvolvimentos da situação: He stood up with a sailor friend Made it known upon my sister's wedding day Todos os dias úteis, na TVI, entre as 18h e as 20h.

quarta-feira, abril 02, 2008

A HORA RIVETTE(5): Às vezes, a leitura das folhas da Cinemateca torna-se uma experiência penosa. Por exemplo, a folha dedicada a "L'Amour par Terre", de Rivette, da autoria de Antonio Rodrigues, repleta de afirmações no mínimo contestáveis. Pascal Bonitzer será um "bom crítico"? O extraordinário livro que Bonitzer dedicou a Éric Rohmer parece-me demonstrar à saciedade que o adjectivo "bom" é, neste caso, um brutal eufemismo. Trata-se de uma questão de opinião, bem entendido. Qualquer um é livre de chamar a Bonitzer um "bom crítico", assim como qualquer um é livre de chamar a Sven Nykvist um "técnico competente". Bonitzer será "um daqueles franceses pedantes, mas com estofo, que sabe do que está a falar"? Eu diria, isso sim, que Bonitzer é um daqueles franceses (como se a nacionalidade fosse aqui relevante) suficientemente inteligente, erudito, agudo e articulado para ser apodado de "pedante" por aqueles a quem a inteligência, a erudição, a agudeza e a articulação excessivas causam escândalo. Bonitzer é "péssimo realizador"? Dos seis filmes por ele realizados, apenas vi "Rien sur Robert" e "Petites Coupures". O primeiro é uma comédia vagamente existencial, que funciona também como engenhosa sátira do meio intello parisiense, valorizada por esses actores geniais que são Sandrine Kiberlain e Fabrice Luchini. O segundo é uma exploração, densa e sombria, da fugacidade das relações humanas. Mais uma vez, trata-se de uma questão de gosto, mas diabos me carreguem se consigo conceber como é que alguém, de entre todas as combinações de adjectivo e grau que a riqueza da língua portuguesa coloca ao seu dispor, se lembra de "péssimo" para qualificar a obra de realizador de Pascal Bonitzer. Bonitzer "tornou[-se] uma espécie de superego de Rivette"? Em psicanálise não me meto, mas caramba... Rivette só utiliza, neste filme, actores que nunca tinham trabalhado com ele, à excepção de Jean-Pierre Kalfon? É falso. Já trabalhara com Geraldine Chaplin em "Noroît". O cinema de Rivette fora, até então, "terrivelmente sério, desprovido da menor gota de humor"? É caso para perguntar se o autor desta folha viu mais algum filme de Rivette. "Le Coup du Berger", "Paris Nous Appartient", "L'Amour Fou" (recorde-se a cena das matrioskas), "Out 1" (recorde-se o inenarrável monólogo de Rohmer sobre Balzac, dirigido a um Jean-Pierre Léaud pretensamente mudo) e "Noroît" são filmes onde o humor se encontra presente, e não certamente em doses homeopáticas. Quanto a "Céline et Julie Vont en Bateau", qualificá-lo de outra forma que não de "comédia" é atentar ao seu espírito de forma flagrantíssima. Felizmente, revi ontem "Haut Bas Fragile", filme que possui a virtude de atenuar todas as frustrações, contrariedades e arrelias.
HAIKKUS POLÍTICOS (3-5): Os sulcos da neve. Patinha Antão e colegas de bancada. A tarde. Os seus rumores envolvendo o sábio. Sufrágio universal. Maçãs verdes sobre a cal. Distrital de Coimbra do CDS-P.Popular.
VIVA KARL POPPER!: Recentemente, recebi uma mensagem de um indivíduo que reivindicava ter descoberto que a teoria da Relatividade de Einstein estava errada, e que solicitava uma contribuição monetária para adquirir uma peça de equipamento que lhe permitiria demonstrar a sua falsidade. Essa peça de equipamento custaria 650 euros. Parece-me uma quantia irrisória para revolucionar a Física. Seria irrealista pedir uma melhor relação preço/qualidade. Foi, enfim, uma variante refrescante, à modesta escala portuguesa, e (quem sabe?) talvez isenta de propósitos maliciosos, dessas mensagens de homens de negócios nigerianos ou de viúvas de guerra ruandesas que conquistaram o seu lugar no dia-a-dia do internauta médio. (A propósito de nigerian scams, isto merece sem dúvida os mais de 500 000 visionamentos que já registou: trapaceiros persuadidos a reproduzir um dos mais famosos momentos humorísticos do século XX, o "Parrot Sketch" dos Monty Python, por um scambaiter. É quase demasiado suculento para ser verdade.)

domingo, março 30, 2008

WIDMARK, BATTER YOUR CONK: Sobre o recentemente falecido Richard Widmark, duvido que algum obituário tenha sido mais eloquente do que este discurso saído da boca de uma personagem de Donald Barthelme (do conto "Visitors", in "40 Stories"): Richard Widmark was one of his favorite actors in the whole world, he told her, because of the way in which Richard Widmark was able to convey, what was the word, resilience. You could knock Richard Widmark down, he said, you could even knock Richard Widmark down repeatedly, but you had better bear in mind while knocking Richard Widmark down that Richard Widmark was pretty damn sure going to bounce back up and batter your conk-
A HORA RIVETTE (4): "O Segredo por Trás do Segredo" é o nome do ciclo que a Cinemateca está a dedicar a Jacques Rivette. Só um qualquer segredo obscuro, a estultice ou um capricho levariam alguém a escolher este lance como o primeiro de um jogo de xadrez. A base de dados ChessGames só regista 11 partidas (de um total de mais de 400 000) cujo primeiro lance foi f3 (peão do bispo de rei avança uma casa). Nunca fiz um levantamento sistemático de cenas com xadrez nos filmes de Rivette, mas ocorre-me uma cena de "Out 1" em que Juliet Berto entra na casa de Jacques Doniol-Valcroze quando este está a estudar uma posição num tabuleiro. Se bem me recordo, Doniol-Valcroze convida-a a regressar noutro dia, e oferece-se para lhe ensinar os rudimentos do jogo. Também há xadrez em "L'Amour par Terre".
FAVORITISMOS: Para quem tenha acabado de chegar ao nosso planeta, proveniente do planeta Zog, queria informar que os blogs Bibliotecário de Babel e 5 Dias são excelentes e dignos de visitas muito regulares.
LLANSOL: Raras foram as reacções ao falecimento da escritora Maria Gabriela Llansol que não afloraram questões como o "hermetismo", a "inacessibilidade" ou até um suposto carácter "místico" da prosa desta autora. A obra de Llansol presta-se, certamente, ao debate relativo às exigências, de cariz mais ou menos explicitamente contratual, que um texto deve ou pode estabelecer com o seu leitor, e sem dúvida que dicotomias como "fácil"/"difícil", ou "acessível"/"hermético" podem servir como pontos de partida, ainda que a um nível muito superficial, para uma discussão séria sobre um dado autor. Mas onde existirá, na imprensa de hoje, espaço para o aprofundamento destas discussões? Não existe, por maior que seja a boa vontade ou a preparação do crítico. Autores como Llansol, pouco mediáticos mas não obscuros, vêem as análises à sua obra confinadas a revistas da especialidade e colóquios, sendo que os fugazes episódios de exposição ao grande público (por ocasião de prémios ou do seu desaparecimento) de pouco servem senão para ajudar a cristalizar noções devidamente moldadas em chavões prontos a usar. Quase seria mais desejável um simples obituário, o mais lacónico possível, num canto de página. (Pelo menos, desta vez, não ouvi ninguém falar em "feminismo" ou em "experiência feminina".) De certa forma, acho desconcertante que se fale de uma escrita "difícil" a propósito de Maria Gabriela Llansol. É redutor encarar-se uma obra literária como um mero desafio proposto ao leitor, dotado de um prémio final, qual pote de ouro por detrás do arco-íris, chame-se ele "sentido", "moral" ou "desenlace", mais ou menos fácil de alcançar consoante os caprichos do leitor ou o seu apetite pelas armadilhas. Em Llansol, a própria construção do texto, esse labor cuja extrema complexidade e morosidade poucos autores terão compreendido e aceite tão bem como ela, é o desafio permanente, um desafio para o qual o leitor é convocado ao mesmo tempo que o autor o vive. Longe de ser rebarbativa, a prosa de Llansol é atravessada por uma vontade de acolher e envolver. A agudíssima penetração da sua inteligência não é usada para alienar um leitor incapaz de tamanhos voos; serve, isso sim, para mostrar facetas insuspeitadas em noções e entidades, num espaço que é o do quotidiano mas também o da especulação. O sentido da prosa de Llansol é um sentido aparentemente precário e transiente, até mesmo arbitrário, mas ele alicerça-se numa meticulosa exploração das associações entre seres, conceitos, sensações, e as múltiplas manifestações da História e da vivência humana. Os seus livros são um permanente convite ao leitor. A leitura atenta de um livro de Maria Gabriela Llansol é uma das experiências mais gratificantes que a literatura portuguesa dos últimos 100 anos tem para oferecer. (Não é de hoje, este conflito que eu sinto: por um lado, a certeza de que uma maior cobertura mediática de certos autores não faria mais do que acentuar o ruído de fundo de futilidades que disfarça o essencial da sua obra; por outro, o desejo de que, em Portugal, se soubesse reconhecer aquilo que aqui existe de único e irrepetível em termos de criação artística.)

domingo, março 23, 2008

PUTAIN!: O acordeonista entrou numa carruagem da linha vermelha. Desabafo oriundo de um grupo de jovens francesas: "Putain! Même à Lisbonne!". É verdade: em vez dos maravilhosos jardins, das livrarias de sonho ou das padarias repletas de éclairs, pains au chocolat e tartelettes de framboesa, importamos de Paris a desoladora cacofonia acordeónica de trazer pelo metropolitano. Não existem aqui motivos de contentamento.

quarta-feira, março 19, 2008

INVESTIMENTOS NO FUTURO: Duas aquisições recentes para a DVDteca.



"Signs & Wonders", de Jonathan Nossiter. Uma das mais esplendorosas descobertas cinéfilas que tive a sorte de fazer durante a minha estadia em Paris. Um cruel conto urbano sobre as armadilhas do significado, extremamente rico do ponto de vista visual, e superiormente interpretado.


"Blissfully Yours", de Apichatpong Weerasethakul. Fiquei deveras impressionado com "Syndromes and a Century", e achei que valia a pena arriscar neste filme, de um realizador tailandês que tarda em estrear em salas portuguesas.
HAIKKUS POLÍTICOS (0-2): Na cerejeira a sombra. Amargo, o horizonte. Ribau Esteves. Gotas. Na cidade Cintilam insectos. E o comité central? Vitalino Canas. O som da maré enche Todas as janelas.
A HORA RIVETTE (3): Essa história dos títulos e das regras fez-me pensar que Rivette é o exemplo supremo do criador que não deixa as suas convicções teóricas cristalizarem-se em regras que se transformem em espartilhos. Rivette é um dos realizadores mais livres que existem, não porque careça de princípios e de ideias claras sobre o cinema, mas porque é suficientemente inteligente e subtil para, em vez de forçar os materiais com que trabalha para que se adaptem às suas maneiras de ver, criar as condições para que o cinema, tal como o entende, aconteça. Estou a falar da colaboração com argumentistas e actores, em particular, mas, de uma maneira geral, refiro-me a todas as atitudes e procedimentos que contribuem para o equilíbrio entre espontaneidade e premeditação que perpassa por toda a obra de Rivette. (Claro que eu nunca me atreveria a dizer que realizadores interventivos e manipuladores como Hitchcock ou Lynch não são "livres". Não pretendo enredar-me em excepções ou contra-exemplos, não viso uma qualquer lei. Estou apenas a falar de Rivette.)
SUGESTÕES PARA A PÁSCOA: Duas fatias de prosa da minha autoria estão agora disponíveis em todos os bons estabelecimentos. Uma delas é um conto, que se chama "Sonhos e Responsabilidade em Tondela", e que foi dado à estampa no âmbito do nº 16 da revista "Ficções". É um conto um bocado estranho, sobre um indivíduo que chega a uma cidade do interior do país para ser encenador de um grupo de teatro escolar, e que acaba por exercer também as funções de treinador de basquetebol. Acontecem muitas coisas neste conto, que se passa em Tondela (daí o título). A outra é um texto integrado no catálogo sobre Jacques Rivette editado pela Cinemateca. É um texto que se lê num instante, e que fala de vários filmes desse realizador.

domingo, março 16, 2008

A HORA RIVETTE (2): Não é essa a única excepção à regra de não pronunciar, nos diálogos, o título dos filmes de Rivette. No próprio "La Belle Noiseuse", o título (que é também o do quadro que constitui a obsessão de Frenhofer/Michel Piccoli) aparece nas falas de várias personagens. O mais curioso é que, no filme anterior ("La Bande des Quatre"), o quadro é também mencionado, pela misteriosa personagem de Benoît Régent, referindo-se a uma obscura história de tráfico de arte que (como tantas vezes sucede em Rivette) nunca saberemos se é verdade ou invenção.
OLHARES: Em Inglaterra, uma argentina revelou-me que, no seu país de origem, é comum perfeitos estranhos estabelecerem contacto visual na via pública, e que, quando isso sucede, a etiqueta obriga a que se saúdem. Manifestei-lhe a minha surpresa, mas não fiz questão de lhe explicar como, em Portugal, evitar o olhar alheio constitui actividade das mais disseminadas, e daquelas que são exercidas com maior empenho. Nos transportes públicos, por exemplo, mas não apenas aí.
BRESSON, MODO ESTÁDIO DO DRAGÃO: Segundo Q., Jesualdo Ferreira respeita as regras enunciadas nas "Notas Sobre o Cinematógrafo".

sexta-feira, março 14, 2008

A HORA RIVETTE: Para quê escondê-lo? (Sim, para quê?) A retrospectiva Rivette na Barata Salgueiro é uma das principais razões da minha indisponibilidade destes últimos dias. Fui ver, até agora, os seguintes filmes:
  • "L'Amour Fou" (terminou depois das 2 da manhã).
  • "Noroît"
  • "Céline et Julie Vont en Bateau"
  • "L'Amour par Terre"
  • "Merry-Go-Round"
  • "La Bande des Quatre"

No caso de "Noroît", "L'Amour par Terre" e "Merry-Go-Round", trata-se de filmes que eu não conhecia. O primeiro é uma obra extremamente bizarra, por vezes exasperante, mas de que gostei muito. O segundo é um grande filme, com um dos argumentos mais ricos de todos os filmes de Rivette. O terceiro é, de longe, o pior filme deste realizador, com muito pouca coisa que o resgate ao estatuto de falhanço colossal.

O momento mais sublime das últimas noites cinematequianas ocorreu quando, duas horas e meia depois do início de "Merry-Go-Round", um rapaz louro entrou na sala e se instalou calmamente a dois lugares do meu. Tudo na sua linguagem corporal indicava a predisposição para desfrutar de um filme na sua integralidade, com essa mistura de tensão e volúpia que distingue o cinéfilo do simples turista das salas de cinema. O filme terminou cinco minutos depois.

CÂNONE: Sucede que eu sou a favor da existência de um cânone da literatura ocidental. Mas eu também sou a favor de muitas coisas de popularidade duvidosa, como sejam a abolição da calçada à portuguesa e a elevação do bolo de arroz a património universal.
AGRADECIDO: Os meus agradecimentos vão todos, inteirinhos, sem passar pela casa Partida nem receber 2000 escudos, para o Irmaolucia e para o Pastoral Portuguesa pela menção ao primeiro lustro deste blog. Quanto ao preço da maionese, o que dizer que não tenha ainda sido dito? A especulação é, deveras, o mal do século.
TEMPO: Uma coisa é não ter tempo para escrever baboseiras sobre a vida em geral. Uma outra coisa, muito diferente. é não ter tempo para escrever algo, por pouco e inútil que seja, sobre o falecimento de Maria Gabriela Llansol.

sábado, março 01, 2008

VENHAM MAIS CINCO: O 1bsk faz hoje 5 anos. Foi inaugurado no dia do 75º aniversário do realizador Jacques Rivette, o seu patrono não oficial. Não foi deliberado, mas é o tipo de gesto que um indivíduo com queda para as efemérides, como eu, seria bem capaz de perpetrar. O segredo da longevidade do 1bsk é muito simples. Este blog não é um projecto que corra o risco de se esgotar, nem é uma empreitada susceptível de ser cumprida. A sua razão de ser nunca se desagregará porque não possui nenhuma. O seu "sentido" (palavra de que urge desconfiar) dura o tempo que duram as suas micro-erupções. O trabalho de o aniquilar implicaria atribuir-lhe uma importância manifestamente excessiva. O seu destino é o de, placidamente, perdurar. Este blog nunca mudou de template, excepção feita a modificações estéticas de pouca monta. Este blog nunca mudou de nome, nem de linha editorial, nem de tipo de letra. A mudança de plataforma foi o único evento que violou a sua natureza essencialmente conservadora. Esse conservadorismo não representa uma mentalidade nem uma convicção, mas apenas um fruto do apego à lei do menor esforço e da sensação de que neste mundo, que é o nosso, as coisas (ah, as coisas!) mudam demasiado depressa. Talvez para oferecer um contraponto ao pequeno núcleo de fel e ressentimento que o acompanha, intacto, desde o início, este blog prefere virar-se para assuntos simpáticos e aprazíveis em vez das medonhas desgraças e das ignóbeis golpadas que nunca deixam de merecer destaque na nossa imprensa de referência. Incomodámos interesses estabelecidos por colocar em plano de igualdade a literatura, o cinema, a doçaria portuguesa, o xadrez, a toponímia parisiense, a ética republicana, gatos perdidos, Demis Roussos e a estátua do Dr. Sousa Martins. Os interesses estabelecidos também nos incomodaram a nós. Os concertos ao ar livre no Jardim dos Ulmeiros (em Telheiras) incomodaram-nos a nós, aos interesses estabelecidos e a toda a vizinhança. Este é um blog ecléctico, o que quer dizer que estendemos a nossa mediocridade a vários domínios, em vez de a confinarmos a um só, como é norma. Leitores, este blog continuaria a existir sem vós, mas de forma infinitamente mais deprimente e macambúzia. Como gostaria eu de, em jeito de recompensa pela vossa fidelidade, vos oferecer um daqueles prefácios à maneira de Kierkegaard, ou, à falta disso, um magnífico chá dançante!

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

ANÚNCIO POR CAUSA DA MORAL:

Grande venda de obras de arte.
Todas as peças a €20.

Fotografias, pinturas, ilustrações, pautas musicais originais, manuscritos, etc., etc.

Só autores famosos.

Inauguração no dia 1 de Março, pelas 16h00, na Galeria do JUP (Rua Miguel Bombarda, 187, R/C, no Porto).

O produto das vendas será aplicado na produção da revista "aguasfurtadas" 11.


DE VOLTA: Regressei a Portugal e deixei de escrever no blog. Não tenho paciência para escrever.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

FRUTOS VERMELHOS COM SACAROSE: Sempre ambicionei começar um post com uma frase deste tipo: "Um leitor manifestou o seu espanto por eu não falar de... (inserir tema de actualidade, daqueles em que urge malhar enquanto o ferro está quente)". Eis que soou a minha hora. Um leitor manifestou o seu espanto por eu não falar dos "Morangos com Açúcar". Como sublinha, e bem, uma ausência do país não constitui justificação aceitável. A essência dos "Morangos" é algo de imaterial, que transcende a realidade quotidiana dos episódios que a TVI transmite. Os motivos são outros. Os "Morangos" transformaram-se numa máquina de produzir universais. As personagens são meras instâncias de ideias de personagem, essas formas puras, entre o realista e o folhetinesco, que presidem aos seus movimentos como severos anjos da guarda. Quando acompanhávamos as desventuras da simpática Matilde, a sua espessura humana e o seu papel na economia narrativa global do projecto "Morangos" equilibravam-se com graciosidade, nutriam-se mutuamente. Agora, as personagens parecem paralisadas pela necessidade de significarem algo, de estarem à altura das poderosas linhas de argumento que os ultrapassam, sufocantes na sua ominipresença. Torna-se também consternante para o espectador ter de se conformar com a arbitrariedade com que certas personagens são dispensadas, ao passo que outras, sem que nada justifique o tratamento diferenciado, são retidas. Exemplo: os irmãos João e Pulga sobreviveram à última hecatombe, mas o que é feito do progenitor, superiormente interpretado por Marcantonio Del Carlo? Finalmente, abandonar a zona de Cascais foi um trágico passo em falso. Só alguém completamente desfasado do espírito dos "Morangos" pode admitir que abdicar dos salpicos de água salgada e da pele bronzeada do João Catarré e da Diana Chaves e mergulhar numa weltschmerz urbana e macilenta pode representar um upgrade. Enfim, não me parece, como dizer?, bem.
OS ANTAGONISTAS DA GUERRA DAS CIVILIZAÇÕES NÃO SÃO QUEM SE PENSA: As declarações do arcebispo da Cantuária sobre a eventualidade (e conveniência) da introdução da sharia em Inglaterra demonstram aquilo que entra pelos olhos dentro de qualquer pessoa minimamente atenta ao que se passa no mundo. As quezílias locais e transientes entre religiões diferentes não passam de batalhas de flores quando comparadas com a guerra permanente entre as religiões organizadas e os estados seculares. Esta guerra só ocasionalmente surge sob as luzes da ribalta, mas não conhece tréguas, e os seus intervenientes estão cientes da sua importância vital. Líderes de religiões que supostamente se antagonizam assumem opiniões que parecem cópias conformes umas das outras. Alianças tácitas são estabelecidas com surpreendente facilidade, quando o objectivo é o de lançar areia para a engrenagem dos estados de direito e o de promover mundividências de cariz confessional sobre as leis e instituições democraticamente eleitas. Ainda mais reveladora do que a sua admissão de que a adopção de certas partes da sharia, no seio do sistema legal inglês, é "inevitável", é esta frase de Rowan Williams: «[an approach to law which simply says] there's one law for everybody and that's all there is to be said, and anything else that commands your loyalty or allegiance is completely irrelevant in the processes of the courts - I think that's a bit of a danger» É difícil ser mais transparente no repúdio do princípio basilar do estado de direito.

domingo, fevereiro 10, 2008

TUBÉRCULOS COMESTÍVEIS - TODA A VERDADE: O programa editorial do 1bsk reza assim: «Blog sobre a vida e obra de Heinrich von Kleist, bolos de arroz, a arte pela arte, o Dr. Sousa Martins, e outras coisas começadas por "k". » Que coisas começadas por "k", pergunta-se legitimamente o leitor, provavelmente com um esgar de perplexidade estampado no rosto. Um excelente exemplo é o "East Anglia Potato Day". Intercâmbio de sementes, utensílios para o cultivo deste popular tubérculo, prova de batatas fritas, livros e aconselhamento. Os nomes das variedades de batatas fazem sonhar: Mimi, Riviera, Ulster Chieftain, Cosmos, Magic Red, Vivaldi, Yukon Gold, Bambino, Harlequin, International Kidney, Picasso, Druid, Golden Wonder, Pink Fir Apple, Sarpo Axona... Imaginem-se as longas discussões que se podem manter acerca dos méritos relativos destes tipos de batatas. Cabe-me informar com lástima (e um pedido de desculpas pela minha inépcia) que o "Potato Day" deste ano decorreu neste sábado, pelo que é tarde demais para se dirigirem a Stonham Aspal, North Stowmarket, Suffolk com o propósito honesto de degustar uma Vivaldi frita. "East Anglia Potato Day" não começa por "k", evidência que me parece difícil de negar. Mas seria mesquinho excluir este evento de uma lista de coisas começadas por "k" apenas com base nesse argumento.
ESVAZIAMENTO: Ricardo Bexiga diz que houve estratégia de «esvaziamento». Este blog, por norma, é hostil a trocadilhos envolvendo funções orgânicas. A excepção justifica-se, neste caso, porque a reverência perante o génio é mais forte do que os princípios. E se este título não é genial, não sei o que é o génio. Se o jogo de palavras foi propositado, revela, por parte do seu autor, uma auto-ironia que é apanágio de poucos. Caso contrário, há que prestar tributo à capacidade do ser humano para alcançar a grandeza de forma não premeditada.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

COMO DIZER MAL SEM DIZER MAL: «While Lessing has certainly earned her right to be considered an elder stateswoman of contemporary letters, this portentous and, irritatingly vague tale does not really show her at her best.» (Christina Koning, crítica a "The Cleft", de Doris Lessing, "The Times", 26/1/2008.) Há muitas maneiras de travestir uma falta de consideração em elogio. Neste caso, o disfarce é dos mais diáfanos. Partindo do princípio de que a sinceridade é um dos atributos do bom crítico (admito que este é um ponto não consensual), teria sido mais apropriado que a autora desta crítica exprimisse o seu desprezo sem se julgar obrigada a derivas eufemísticas. "Elder stateswoman" remete para o estatuto, ignorando o talento. É o tipo de qualificativo que nenhum autor sério ambiciona. Deixar subentender que os esforços de um escritor se orientaram para a obtenção desse estatuto é, no caso de alguém como Doris Lessing, tão falso como mesquinho. À falta de sinceridade, outro dos predicados do bom crítico deve ser um conhecimento, pelo menos sofrível, das regras da pontuação. O excerto acima reproduzido nada indicia de lisonjeiro a esse respeito.

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

LEI 37/2007: Também já tinha notado que o tema da legislação contra o tabaco nos lugares públicos é dos poucos (talvez o único) capaz de levar os mais cordatos e assisados a inauditos extremos de inanidade. À falta de comedimento e coerência, seria ao menos de esperar que estes diligentes artesãos da opinião dessem mostras de alguma criatividade. Mas o despeito tem como efeito secundário restringir o campo visual aos chavões mais à mão. Não me lembro de ter lido um único artigo contrário à nova lei que não empregasse uma ou mais das palavras "fascismo", "nazismo", "fundamentalismo", "taliban", "apartheid", "ghetto" ou seus derivados. A história continua a ocupar, destacada, o primeiro lugar entre os fornecedores de termos de comparação prontos-a-usar. O último a juntar-se a esta iracunda galeria foi Vasco Graça Moura que, na sua crónica do "DN" nos brinda com um texto muitíssimo engraçado. Entre fazer notar ("a quem possa interessar") que «o conceito de "tabagismo passivo" foi formulado pela primeira vez na Alemanha hitleriana» e alegar, em tom de trágica vitimização, que «[os fumadores] de há muito que se disciplinaram, habituando-se a não fumar nos transportes, em serviços de atendimento ao público, em restaurantes fora das zonas reservadas, etc., etc.» (por "disciplinaram" entenda-se, presumo, "passaram a cumprir a lei, como é obrigação de qualquer um"), VGM, com a verve pletórica que todos lhe reconhecem, encadeia grande parte das keywords que a tradição já exige: estrela amarela, fundamentalismo, ghetto, repressão, politicamente correcto, lei seca, novamente fundamentalismo, novamente ghetto, novamente repressão (VGM não teria à mão um dicionário de sinónimos?) e, qual cereja em cima do bolo, a jihad. O sentido das proporções é um dos nossos bens mais preciosos. Vê-lo soçobrar tão espectacularmente em pessoas inteligentes é deveras embaraçoso, um pouco como observar alguém a falar sozinho em público.

domingo, fevereiro 03, 2008

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha de autocarro Citi1, um cavalheiro lia descontraidamente "The Emigrants", de W.G. Sebald. A colheita de leitores em lugares públicos cantabrigianos tem sido de uma parcimónia que contrasta cruelmente com as minhas esperanças iniciais. Pode dar-se o caso de estar demasiado ocupado com as minhas próprias leituras. Descobri, com efeito, que consigo ler no autocarro sem efeitos adversos para a minha disposição física, apesar da tortuosidade do trajecto.
MEIA DESFEITA: Comparar o template deste blog a meias enfeitadas com raquetes é um dos mais calorosos elogios que eu poderia esperar. As meias enfeitadas com raquetes representam uma maneira de estar na vida na qual me revejo, e o que seria de estranhar era que o template não reflectisse isso mesmo. Este template, com alterações meramente circunstanciais e de pormenor, acompanha-me há quase 5 anos. Muitas peúgas que andam por aí não chegam a durar metade disso, por muito que prometam no início. Dispersei-me um poucochinho, mas penso ter feito passar a essência daquilo que queria fazer passar.

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

NO FILM FOR YOUNG MEN: O filme "No Country for Old Men" recebeu, no Reino Unido, uma classificação etária de maiores de 15 anos, ao passo que "Lust, Caution" ficou reservado a maiores de 18 anos. Partindo do princípio de que a classificação atribuída ao filme de Ang Lee se deveu ao seu conteúdo sexual (existe uma cena bastante violenta, mas quase corriqueira quando comparada com os padrões de tolerância actuais), esta discrepância leva a concluir que, para o British Board of Film Censors (BBFC, venerável instituição e pilar da sociedade que não é meu desejo pôr em causa), um adolescente de 16 anos pode ficar mais traumatizado com a ginástica erótica de Tony Leung e Wei Tang do que com a sangrenta chacina em série protagonizada por Javier Bardem. O leitor pode obter aqui e aqui (ver "Certification" em "Additional Details") indícios de que esta fobia relativamente às liberdades artísticas do foro carnal, associada a uma certa tolerância para com a violência no ecrã, parece ser uma especificidade anglo-saxónica. Se a função de um organismo que regula as classificações etárias dos espectáculos é a de reflectir os preconceitos e os pontos sensíveis de uma sociedade, o BBFC está a realizar um trabalho exemplar. De todas as sociedades de que tenho um conhecimento razoável, a inglesa é sem dúvida aquela em que mais se nota o embaraço no tratamento de tudo o que tenha a ver com sexo: a chalaça, a ironia, a esquiva, a brejeirice peso-pluma, tudo é válido quando o objectivo é evitar tratar com frontalidade e naturalidade assuntos de natureza sexual. O site do British Board of Film Censors confirma que a classificação atribuída a "Lust, Caution" se deveu a "strong sex", e a de "No Country for Old Men" a "bloody violence".
OS MILAGRES EXISTEM: Caída, a bem dizer, de pára-quedas, foi publicada na Chessbase uma reportagem sobre um torneio de xadrez realizado na Marinha Grande.
REGICÍDIO: A data que eu celebro é o 5 de Outubro, não certamente o 1 de Fevereiro. A primeiríssima razão é a convicção de que o homicídio é o pior dos crimes. Deixo para outros, com mais conhecimentos sobre o assunto e mais vagar, as considerações sobre a importância deste acto para o processo que levou à implantação de República. O ponto fulcral e inamovível é este: salvo em casos extremos e excepcionais, não me sinto capaz de exaltar a memória de alguém que matou voluntariamente outro ser humano.

Não celebrar não significa renegar. Sou contrário à ideia de que, de alguma forma, o regicídio macula moralmente a fundação da República. A discussão sobre a legitimidade moral do acto de Manuel Buíça e Alfredo Costa é, julgo, inconsequente. Faz tanto sentido como discutir se a aniquilação do Conde Andeiro foi um gesto reprovável. A História não se compadece com julgamentos de valor copiados e colados do nosso dia-a-dia.

Gosto de viver numa República. Gosto de viver num país cujo líder máximo usufrui da legitimidade do voto. Por mais contestável que esta possa ser, é infinitamente preferível à legitimidade do parentesco, essa ficção iníqua que, aqui e ali, continua a perdurar neste século XXI, como um sonho mau. Os avanços, recuos e arabescos laterais da História que transformaram Portugal naquilo que hoje é merecem, obviamente, estudo aprofundado, mas importam-me menos do que esta constatação: vivo num país cuja figura suprema, ao ser eleita pelos seus cidadãos, tem plena autoridade para os representar e actuar como garante das liberdades constitucionais, essa autoridade de que carece um monarca, bafejado apenas pelos arbítrios da hereditariedade e por uma sugestão, mais ou menos explícita, de Graça divina (o ingrediente mágico das monarquias).