MONDAY, MONDAY: Os anos passam, tudo muda, as gentes mudam, os jornais mudam, os directores de jornais vão e vêm. No meio deste implacável devir, certas coisas permanecem intocadas e imunes ao passar do tempo, e uma dessas coisas é a crónica de João César das Neves no "Diário de Notícias", sem a qual as minhas segundas-feiras seriam muito mais áridas e difíceis de encarar.
Desta vez, JCN debruça-se sobre uma das suas obsessões de longa data: o ateísmo.
«A vida pública é hoje ateia ou agnóstica. Ouve-se muito criticar a tolice e o delírio das religiões, mas raramente se refere a fragilidade intelectual da própria atitude ateísta que, com todo o respeito, é muito inconsistente.»
"Como todo o respeito", ou seja, sem ele (cf. "Yes, Minister").
A razão pela qual raramente se refere a fragilidade intelectual da atitude ateísta tem, possivelmente, a ver com o facto de que essa putativa fragilidade é infinitamente menos gritante do que a da atitude religiosa. Não é tarefa simples apontar inconsistências ao ateísmo sem se cair em falácias pouco bonitas de se ver, e JCN demonstra isso mesmo de forma magistral nas linhas que se seguem.
«Recusar Deus é uma crença como as outras. No fundo trata-se de ter fé na ausência divina.»
JCN arranca a todo o vapor, com a argolada do costume. Importa talvez relembrar (mas de que serve insistir no óbvio, perante alguém que cultiva a obstinação dogmática, e que prefere uma boa citação das escrituras a um silogismo?) que o ateísmo não é uma fé. Quem crê assume um estatuto lógico verdadeiro para um certo estado de coisas. Se essas coisas desafiam a verosimilhança (digamos, a encarnação, os milagres, a trans-substanciação, a ressurreição), existe uma ruptura com as evidências que qualquer crente deve, parece-me, ser capaz de assumir. As atitudes ateístas e agnósticas, pelo contrário, não implicam essa ruptura, mas sim a recusa em acreditar em coisas inverosímeis apenas porque são comummente aceites pela tradição cultural e religiosa onde o indivíduo se encontra inserido. Muito longe de ser uma fé, trata-se de uma postura racional e crítica.
«A Antropologia e Sociologia sérias mostram o oposto: a religiosidade é o normal em todas as culturas e épocas.»
A religiosidade é o normal em todas as culturas e épocas? De acordo, assim como não menos normal tem sido a tenacidade com que os cleros de todos os matizes e variedades têm batalhado para garantir essa normalidade, muito à força de astúcia, de chantagem e de entendimentos oportunos com o poder secular. Mas desde quando é que essa asserção, de índole sociológica e antropológica, tem relevância para a questão fulcral que é a de saber se o ateísmo e o agnosticismo são atitudes válidas?
«O ateísmo é uma construção tardia e artificial de elites, sobretudo desde o Iluminismo.»
Obra de elites artificial e tardia... Tal como a democracia, os direitos humanos, a emancipação da mulher (ups!,
péssimo exemplo), o pacifismo, o fim da escravatura, a escolaridade obrigatória...
(Sobre o emprego de "elites" no plural, ver
aqui.)
«Mantido em ínfima minoria, agora está em clara decadência. Vendo-lhe a lógica interna, percebe-se porquê.»
Em que ficamos? A vida pública é hoje ateia ou agnóstica, ou o ateísmo é mantido em ínfima minoria? Parece-me que a "clara decadência" é da capacidade argumentativa do próprio JCN. Noutros tempos, podia ainda gabar-se, à falta de ter razão, de conseguir manter um vislumbre de coerência interna nas suas crónicas.
E que estudos menciona JCN para sustentar essa "clara decadência"? Nenhuns.
«O agnosticismo, hoje variante dominante, justificar-se-ia se a existência de Deus fosse inconsequente e negligenciável. Mas ignorar a possibilidade de Deus é como desinteressar-se da existência do pai, benfeitor ou patrão, senhorio ou polícia. E se Ele aparece?»
Comparar Deus a um senhorio, eis aquilo que poucos ousariam sem pestanejar. Mas JCN ousa e não pestaneja, e talvez seja por isso que a sua crónica das segundas-feiras sobrevive a todos os ventos e marés.
Este argumento não é mais do que uma versão rasca e pusilânime da aposta de Pascal. E se ele aparece? Pois é... À falta de certezas, mandam as cautelas e os caldos de galinha que se tenha fé, não se vá dar o caso de... Ou, pelo menos, que se pense no senhorio/patrão/papão de quando em vez. A vida não está fácil. Haverá algo de mais deprimente e degradante do que acreditar "just in case"?
«A dificuldade mais visível vem da existência da realidade. Porque há algo em vez de nada? Porque existe ordem, não caos?»
«Porque há algo em vez de nada» é mais uma frase de
t-shirt do que uma questão filosófica séria. Em todo o caso, a existência (por oposição à não existência, hipótese inútil porque incompatível com um ser pensante que a concebesse) não pressuporia automaticamente um criador (ver mais abaixo). Quanto à existência de ordem em vez de caos, recomendo a leitura de alguns bons livros de Física, Química, Bioquímica e Astronomia. Por mais numerosas que sejam as questões por resolver, a compreensão de como a ordem pode surgir graças à acção de um punhado de partículas subatómicas e de algumas forças está ao alcance de qualquer leitor com um mínimo de formação científica.
«A resposta ateia era recusar a questão, porque o universo sempre existira assim, mas a teoria do Big Bang explodiu essa certeza e deu solidez científica ao facto da Criação.»
Afirmar que a teoria do Big Bang deu solidez científica à Criação é um daqueles disparates que dá vontade de perdoar porque faz sorrir. Igualmente patético, mas um pouco mais original, seria defender que a constante de Planck é Deus, ou que os três quarks que compõem os neutrões e os protões são a santíssima trindade. As possibilidades são inúmeras.
«Eu e o mundo, as coisas, pessoas e outros seres não existiam e passaram a existir.»
Mas não imediatamente após o Big Bang, meu caro JCN, as coisas ainda levaram o seu tempo.
«Seria supina tolice supor um relógio surgindo perfeito das forças fortuitas da geologia e erosão.»
Sem dúvida, mas o relógio é um artefacto humano. Nunca existiu pressão evolucionista que favorecesse o aparecimento de uma criatura dotada de um sistema de engrenagens que gerassem um movimento circular de um ponteiro com um período que fosse um submúltiplo do da rotação terrestre. O exemplo é tendencioso.
«Um cérebro, muito mais complexo, quem o fez?»
Não certamente o acaso, como JCN parece querer insinuar neste seu frouxo exercício de
reductio ad absurdum, mas sim (e isto é crucial) mutações aleatórias, ao longo de muitos milhares de geração,
conjugadas com a pressão evolucionista que favoreceu, em certos períodos, sistemas nervosos cada vez mais complexos e cada vez mais capazes de interagir criativa e eficazmente com o meio ambiente e com espécies rivais.
O conceito não é dos mais intuitivos e fáceis de tragar, mas convenha-se que o esforço de imaginação requerido para interiorizar quão poderosa pode ser esta conjunção não é sobre-humano.
«A resposta ateia tem de ser que o acaso de milhões de anos conduziu de uma explosão ao sorriso da minha filha. Ou o acaso é Deus, e o ateísmo nega-se (...)»
Se se trata meramente de uma questão de nomes, então não existe desacordo. JCN é livre de chamar "Deus" ao acaso, à evolução, ao Big Bang, aos buracos negros e ao bosão de Higgs (aliás, não seria o primeiro a fazê-lo). Mas essa recuperação de conceitos científicos, longe de negar o ateísmo, reforça-o, pois constitui uma fuga para a frente por parte da religião, na direcção de uma posição cada vez mais vaga e inverificável: Deus é tudo, Deus é o cosmos, qualquer coisa que a ciência venha a descobrir é ainda Deus. Dir-se-ia um tratado de Tordesilhas unilateral em que quem parte e reparte insiste em ficar com a melhor parte, ou seja, tudo.
«A violação da lei moral apenas confirma a sua existência. Muitos conseguem suprimir em si esta busca da justiça (embora a sintam quando vítimas), mas o trabalho que dá apagá-la revela a inscrição na própria identidade da raça. Uma lei implica um legislador. Como podem meros atómos de carbono, aglomerados em aminoácidos e evoluindo pela selecção natural, gritar que salário digno é valor universal?»
Estas imagens, de esplendoroso fôlego surrealista, já se tornaram a imagem de marca de JCN. Têm a vantagem de poupar o comentador, pois ninguém, no seu perfeito juízo, se atreverá a argumentar contra átomos de carbono que fazem reivindicações salariais. Como desopilante, há muito pior.
«O terceiro e pior obstáculo do ateísmo é a ausência de finalidade. Para o ateu este universo, sem origem nem orientação, também não tem propósito. Bons e maus têm o mesmo destino vazio. Saber que vivemos num mundo que se dirige à morte e ao nada faz de nós os mais infelizes dos seres. Se Deus não existe não existem o bem, a moral, a própria razão. Esta crueldade ontológica é tão avassaladora que poucos que a afirmam a enfrentam com honestidade.»
Deus como condição necessária para a moral e para o bem é um lugar comum tão usado e abusado que mais vale deixá-lo entregue ao seu definhamento, que nem as recauchutagens sucessivas disfarçam. É mais digno de uma contracapa de edição barata de Dostoyevsky do que do discurso de uma pessoa educada. Quanto ao argumento subjacente (deve-se acreditar em Deus porque, sem Deus, o mundo seria cinzento, sombrio e desprovido de sentido), só são sensíveis a ele aqueles que preferem iludir-se a enfrentar a realidade munidos das armas de que dispõem: a lucidez, a objectividade, o cepticismo e o espírito crítico, mas também a compaixão, o bom humor, a coragem, a generosidade.
(Vale a pena ler a
crónica na sua totalidade, uma vez que os excertos nunca lhe farão inteira justiça.)