quarta-feira, novembro 26, 2008
terça-feira, novembro 18, 2008
domingo, novembro 02, 2008
Foto Eugeny Atarov, retirada daqui.
Viswanathan Anand (Índia) manteve o título de campeão mundial de xadrez. Vladimir Kramnik (Rússia) precisava de vencer as duas últimas partidas para forçar os desempates, mas ficou-se por um empate na 11ª e penúltima. Anand mais uma vez surpreendeu o adversário na abertura, ao sair com peão de rei (o seu lance mais habitual, mas de que abdicara ao longo deste encontro em favor de 1.d4, peão de dama). Confrontado com a necessidade de vencer com negras, e sabendo que as suas respostas mais habituais ao peão de rei (como a defesa Russa) são quase inofensivas, Kramnik optou por uma Siciliana Najdorf. Porém, a sua falta de familiaridade com esta abertura levou a que Anand anulasse as tentativas negras de complicar o jogo, sem dificuldades de maior. Foi o próprio Kramnik quem propôs o empate, apesar de isso significar a sua derrota no encontro. Na posição final, havia até ligeira vantagem para Anand.
Não li um único comentário em que o triunfo de Anand não fosse considerado amplamente merecido. O indiano dominou claramente a primeira metade do encontro, alcançando duas vitórias brilhantes, com negras, na mesma variante (Merano) do Gambito de Dama, pondo em evidência a superioridade da sua preparação teórica. Seguiu-se uma vitória com brancas, numa Nimzo-Índia. Na segunda metade do encontro, Kramnik conseguiu reequilibrar a balança, e obteve uma vitória (também com uma Nimzo-Índia) notável, bem ao seu estilo posicional e subtil. Mas era tarde demais.
Pela primeira vez desde 1993 existe um campeão mundial de xadrez incontestado. Para mim, e para quase todos, não existiam já dúvidas de que Anand era o campeão, depois da sua vitória num torneio realizado no México, realizado pelo único organismo que reúne legitimidade para atribuir o título (Federação Internacional de Xadrez, FIDE). Com este triunfo em Bona, ele satisfez os irredutíveis (e ruidosos) adeptos que defendem o match (sequência de um número pré-definido de partidas entre dois jogadores) como o único meio aceitável para determinar o campeão do mundo.
Aqueles que, durante anos, se digladiaram em blogs, fóruns, listas de difusão e (presumo eu) cafés, autocarros e jardins públicos para determinar quem era o verdadeiro campeão do mundo, entretêm-se agora a debater, em retrospectiva, quem foi o campeão do mundo durante o período do cisma (iniciado em 1993, e apenas agora definitivamente encerrado). Vale a pena espreitar estas trocas de mimos para se perceber a que extremos de rudeza e virulência podem chegar estas discussões sobre temas completamente ignorados por 99,99... % da população mundial.
terça-feira, outubro 28, 2008
sexta-feira, outubro 24, 2008
quarta-feira, outubro 22, 2008
Anand está à esquerda, na figura, promovendo o seu peão "g" a Dama no final da 6ª partida.
A história recente do campeonato do mundo de xadrez tem sido tão complexa, tão convoluída, tão recheada de peripécias mirabolantes e cisões acrimoniosas, que é um alívio poder garantir a quem esteja menos dentro do assunto que, desta vez, irá sai deste encontro um campeão do mundo incontroverso e reconhecido universalmente. Para mim, e para 95 % dos aficionados, Anand já é campeão do mundo desde 2007, altura em que triunfou num torneio fechado, realizado na Cidade do México, destinado à atribuição do título, e reconhecido universalmente como tal. Porém, muitos apoiantes de Kramnik continuaram a ver neste o único herdeiro do título "clássico", último de uma linhagem cuja origem remonta a 1886, quando Wilhelm Steinitz bateu Johannes Zukertort (e o próprio Kramnik, em entrevistas, defendeu esta teoria com frequência). Chegou agora o momento do tira-teimas decisivo. Só uma obstinação patológica poderá levar alguém a negar que o vencedor do encontro de Bona é o campeão mundial de xadrez. (O leitor interessado encontrará aqui informação histórica bastante exaustiva sobre este assunto.)
Até agora, a contenda tem sido de sentido único. Anand levou a melhor em 3 das primeiras 6 partidas (de um total de 12), e lidera por 4,5-1,5. Anand tem-se superiorizado a Kramnik em todas as fases do jogo, em particular na preparação teórica ao nível das aberturas. A este nível, recuperar de uma desvantagem de 3 derrotas em 6 partidas é tarefa quase impossível. Pessoalmente, torço por Anand, por duas razões. Em primeiro lugar, o estilo do indiano, fluido e versátil (muitas vezes comparado ao do ex-campeão do mundo Boris Spassky), agrada-me mais do que o de Kramnik, mais posicional, pragmático e conservador. É certo que o meu jogador preferido de todos os tempos, Anatoly Karpov, possuía um estilo que também primava pelo pragmatismo e pelo sentido posicional, porém mais rico e menos unidimensional. Em segundo lugar, desagrada-me em Kramnik a sua atitude, nos limites do cinismo, e a forma calculista como tem gerido a sua carreira, desprezando os torneios e focalizando-se quase exclusivamente na manutenção de um título mundial cuja legitimidade nunca foi branca como a neve. O campeonato mundial de xadrez está a ser acompanhado pela vasta equipa de enviados especiais do 1bsk, que inclui numerosos grandes-mestres e mestres internacionais. (Mentira, sou só eu e estou em Telheiras.) Página oficial. Outros sites com cobertura do evento.sábado, outubro 18, 2008
domingo, outubro 12, 2008
sexta-feira, outubro 10, 2008
domingo, outubro 05, 2008
sexta-feira, outubro 03, 2008
- "Ce que Mes Yeux Ont Vu", de Laurent de Bartillat. O tema (uma estudante obcecada com os quadros de Watteau) tenta-me, e a presença de Sylvie Testud e de Jean-Pierre Marielle (o inesquecível Sainte-Colombe de "Tous les Matins du Monde") são argumentos a favor.
- "Paris", de Cédric Klapisch. Klapisch está longe de ser um realizador de peso, mas o título do filme e o elenco (Juliette Binoche, Romain Duris, Fabrice Luchini) pesam do lado certo da balança.
- "Le Silence de Lorna", de Jean-Pierre e Luc Dardenne. "Rosetta" não me convenceu completamente, mas sinto vontade de dar nova oportunidade aos dois irmãos belgas.
- "Un Baiser s'il Vous Plaît" e "Vénus et Fleur", de Emmanuel Mouret. De Mouret, conheço "Laissons Lucie Faire", filme cujo humor, na fronteira entre a ingenuidade e a palermice minimalista, funcionava contra todas as expectativas. A propósito deste último filme, no programa da Festa, fala-se na herança de Guitry, Rohmer e Woody Allen. Eu não iria tão longe, mas Mouret merece sem dúvida alguma atenção. Para além do próprio realizador, Virginie Ledoyen e Julie Gayet fazem parte do elenco de "Un Baiser...".
- "Bord de Mer", de Julie Lopes-Curval. Gostei do resumo. Entra Bulle Ogier.
- "Tout Est Pardonné", de Mia Hansen-Løve. A realizadora é uma ex-crítica dos "Cahiers", um dos melhores predicados que se pode apresentar (a linhagem vem de Rohmer, Godard, Truffaut e Rivette, e passa por Téchiné, Biette, Bonitzer...).
- "Le Voyage aux Pyrénées", de Jean-Marie e Arnaud Larrieu. Os irmãos Larrieu têm construído uma obra singular e digna de atenção. Gostei de "Fin d'Été", pequeno filme quase amador, mas que já evidenciava arrojo e desenvoltura. Quanto a "Peindre ou Faire l'Amour", embora não isento de aspectos discutíveis (e mau grado o irritante Sergi Lopez), agradou-me muito mais do que à generalidade da crítica. Quanto a este filme, o resumo não me entusiasma, mas está claro que perder uma oportunidade de ver a sempre excelente Sabine Azéma é acto equiparável a contra-ordenação grave.
- "Entr'acte", de René Clair. Curta-metragem histórica, de 1924, onde se assiste a uma partida de xadrez entre Marcel Duchamp e Man Ray.
- "La Traversée de Paris", de Claude Autant-Lara. Clássico (1956) de um cineasta, relegado ao esquecimento pela Nouvelle Vague, que, nos últimos anos da sua longa vida, derivou para as paragens mal frequentadas da extrema-direita francesa.
- "Monsieur Klein", de Joseph Losey. Há dias, em conversa, exprimi-me de forma muito negativa sobre o talento de Alain Delon, esquecendo-me de "Le Samouraï" de Melville, esquecendo-me de "Nouvelle Vague" de Godard. Ver este filme seria, espero, uma maneira de confirmar a injustiça dessa minha opinião leviana.


