segunda-feira, abril 20, 2009

NÃO DIGAM QUE NÃO AVISEI: Certos admiradores incondicionais do Professor João César das Neves contam sofregamente os dias que os separam da segunda-feira seguinte, mal podendo aguardar pela sua dose semanal de analogias mancas, golpes de rins argumentativos, fogo-de-artíficio de non sequiturs, e no entanto ignoram que o mesmíssimo cronista ocupa uma coluna no "Destak" das quintas-feiras. Trata-se de uma imprudência grave. Com menos espaço do que o que lhe é concedido no "Diário de Notícias", JCN tem menos oportunidade para se espraiar nos seus fleumáticos rodopios retóricos, pelo que a indigência da sua prosa e do seu raciocínio vêm ao de cima com a naturalidade das coisas simples. Algumas destas crónicas não ultrapassam o nível de um banal desabafo; outras permitem-nos vaguear pelos tenebrosos compartimentos de uma mundividência desfasada de vários séculos deste mundo em que vivemos. No passado dia 19 de Março, a intervenção nevesiana foi subordinada ao tema da educação sexual nas escolas. Vale a pena ler o texto na íntegra: «O Parlamento discute o programa de educação sexual das escolas. O Ministério da Educação quer mostrar órgãos sexuais às crianças e explicar-lhes os detalhes de carícias, coito e métodos contraceptivos. Acha que a masturbação é natural, se deve promover o impulso sexual juvenil praticado com segurança e que todos os géneros e famílias são equivalentes. Até pode achar que a educação sexual é só informativa, não formativa. São opiniões legítimas e respeitáveis. Mas é bom lembrar dois pormenores. Primeiro, não são afirmações científicas e terapêuticas. São posições ideológicas, contingentes e discutíveis acerca do comportamento. Quem defende o oposto tem igual legitimidade e merece a mesma respeitabilidade O Ministério não pode impor ao País uma sua opinião como verdade comprovada e definitiva, para mais neste assunto. Segundo, as posições do Ministério não são maioritárias na sociedade portuguesa. Apesar do maciço bombardeamento cultural de televisões, revistas e discursos, Portugal acha que o pudor é uma atitude natural e civilizada, que o sexo deve ser praticado dentro de relação estável e duradoura, que o deboche e a pornografia são más. Em todo o mundo as juras de amor continuam a ser eternas. O espantoso é o Ministério não notar que neste tema está a ser tão tacanho e faccioso como era nos anos 1940. A orientação é oposta, mas a atitude é a mesma do livro único salazarista. Há aqui talvez um traço de carácter nacional. Não esqueçamos que os «Grandes Portugueses», eleitos por sufrágio televisivo em 2007, foram Salazar e Cunhal.» (O texto está também disponível aqui.) Quanto à forma, não há muito a dizer. JCN não foge ao seu método preferido, que consiste em caricaturar as posições dos adversários para mais comodamente argumentar contra elas. (E para quê abster-se de o fazer, se esse modus operandi lhe tem garantido influência e credibilidade, para além um nicho cativo num dos diários de referência do país?) No que ao conteúdo respeita, deixo ao critério do leitor a escolha do naco mais suculento:
  • a imagem de funcionários de ministério arquitectando estratégias para converter alunos das escolas 2+3 em debochados?
  • a alacridade com que o autor, depois de acusar o ministério de estar a impor ao país a sua ideologia, vem falar em nome de Portugal inteiro ("o pudor é uma atitude natural e civilizada")?
  • a singeleza com que proclama que "em todo o mundo as juras de amor continuam a ser eternas", enganando-se não só no século, como no planeta?
  • o gambito final, em que logra associar o puritano Salazar e o ascético Cunhal a uma diatribe contra a lascívia ensinada a petizes?

Perante isto, parece-me ocioso recomendar que não percam o "Destak" das quintas-feiras. Este jornal gratuito é distribuído em estações de metro, aglomerações, estabelecimentos comerciais e semáforos. É certo que as crónicas estão também disponíveis online, mas não é a mesma coisa, não, não é a mesma coisa.

MY OWN PRIVATE TWITTER: O que estás a fazer? Estou aqui ocupado com umas cenas minhas.

quarta-feira, abril 15, 2009

PTARMIGANS: "Ptarmigans". Nunca esta palavra me tinha chamado a atenção, e eis que ontem, no espaço de poucos minutos, a leio em dois sítios diferentes: num poema de Blaise Cendrars ("Lièvres arctiques perdrix de neige ptarmigans") e no almanaque "Schott's Original Miscellany", onde se fica a saber que o nome colectivo que designa um conjunto de "ptarmigans" é "covey". O "Concise Oxford" define assim "ptarmigan": Grouse of northern mountains and the Arctic, whose plumage is white in winter. A palavra deriva do gaélico tàrmachan. O nome científico é Lagopus mutus. É uma bonita palavra, e sinto-me feliz por tê-la aprendido.

terça-feira, abril 07, 2009

AUSÊNCIA: Vou estar sem acesso à Internet durante uns dias, mas nem assim deixarei de twittar, twittarei com alacridade todos os meus movimentos, inspirações, expirações, impressões, dilatações de pupila e pachorrentos meneares de cabeça. Offline twitter is the new black. Boa Páscoa.

domingo, abril 05, 2009

MY OWN PRIVATE TWITTER: O que estás a fazer? Estou a rodar em torno de uma estrela, a uma velocidade aproximada de 30 quilómetros por segundo.
SEM FALHAR: Não parece forçoso que toda a beleza deva ser inspiradora de espanto e trazer consigo um eco funesto. Essas manifestações não fazem parte da essência da beleza, e no entanto acompanham-na infalivelmente.

terça-feira, março 31, 2009

JE DIS BONJOUR À LA BOULANGÈRE, JE TIENS LA PORTE À LA VIEILLE DAME: A tentação de ser uma pessoa decente, fiável, canónica, traz consigo a promessa de um prazer tão intenso que pode parecer afim da perversidade. A decência é um dos maiores desafios para uma pessoa. Uma espécie de condição mínima necessária para a humanidade, que pode, singularmente, acabar por ser também o seu horizonte supremo. Há uma canção de Enzo Enzo que exprime admiravelmente esta tentação da normalidade, e da pequena e média rectidão moral quotidiana, embora se sirva dos tons de amargura que se adequam a uma vida falhada. (Ver a letra da canção aqui.)
LE LIEN SECRET: En outre, le lien secret qui relie le discours dissimulé dans les profondeurs d'un personnage avec le discours étalé à la surface d'un autre constitue un puissant facteur de composition. (Paul Ricœur, nota de rodapé em "Temps et Récit, 2".)
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma jovem lia um livro de Orhan Pamuk, "Istambul", na linha verde do metropolitano. Uma jovem lia "Lo Straniero" na linha vermelha. Camus em italiano, quem se atreve a pedir mais?

terça-feira, março 24, 2009

MY OWN PRIVATE TWITTER: O que estás a fazer? Estou a escrever isto.
BOA ONDA: A onda Poe continua a submergir o país. É já amanhã (quarta-feira) o lançamento da obra poética completa, com tradução de Margarida Vale de Gato. Às 18h30. Na Fnac do Chiado. A edição é da Tinta da China.

sexta-feira, março 20, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No cais da estação de metropolitano do Campo Grande, um cavalheiro lia, de pé, o último romance de Maria Velho da Costa, "Myra". Observação mais atenta revelou que o cavalheiro era um dos nomes mais destacados da poesia portuguesa contemporânea.
POE E CRIATIVIDADE GÓTICA: Por minha exclusiva e inalienável culpa, divulgo esta iniciativa tarde e a más horas. Talvez algum leitor mais afoito ainda vá a tempo de abanar o capacete ao som de «Quoth the raven, 'Nevermore'», na "Raven Rave Party".

terça-feira, março 17, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma jovem lia "A Gaivota", de Chekhov. Uma senhora lia "O Livro das Ilusões", de Paul Auster. Tudo isto no metropolitano.
OUTRA VEZ NADA DE NOVO: Segui esta polémica com alguma náusea, nenhuma surpresa. Ao contrário do que sucede com outras artes, são raros os que hesitam em opinar sobre cinema. Para o melhor e para o pior, o cinema transborda da cultura popular para o domínio artístico e vice-versa, e talvez seja este esbater de fronteiras que dá coragem a cada espectador para emitir sentenças com alacridade. Isso seria excelente, e muito democrático, se esse à-vontade não fosse acompanhado, tantas vezes, pelo impulso de zurzir na crítica especializada, acusados de elitismo e de irem sistematicamente contra o gosto do público (ou das "massas", para usar a terminologia deste inenarrável post). Essa acusação não é apenas injusta e descabida: quem a faz ignora olimpicamente a evolução das grandes tendências críticas do cinema contemporâneo (de que todos os críticos, ou pelo menos os que vale a pena ler, são devedores, em maior ou menor grau). Ignora que, longe de se fechar numa torre de marfim, a crítica de cinema tem-se desenvolvido muito ao sabor da apreciação e (re)avaliação das grandes tendências do cinema popular e de entretenimento (série B americana, westerns, polars, musicais, cinema asiático de artes marciais...). Ignora, acima de tudo, que um crítico é uma pessoa a quem, salvo evidências claras de má-fé, se deve atribuir o benefício da dúvida, e que não retira especial prazer de dizer mal daquilo de que a maioria gosta. Admiro a paciência com que João Lopes continua, ano após ano, polémica após polémica, a tentar argumentar contra a leviandade daqueles que incorrem neste (e noutros) lugares comuns. Receio, porém, que esforços como este sejam baldados. Existe uma tendência (que o crescimento do fenómeno dos blogs só veio agravar) para que certas ideias feitas ganhem aceitação devido ao número de vezes que são repetidas, apesar da falta de correspondência com a realidade. Essas ideias falaciosas tornam-se virtualmente impossíveis de falsificar, uma vez que quaisquer argumentos contra elas serão desacreditados pela simples intensidade da vozearia. Essas ideias ganham popularidade porque é cómodo e isento de risco aderir a elas. Uma dessas ideias é precisamente esta:
  • Os críticos dizem sempre mal dos filmes populares.

Existem muitas outras, como por exemplo (um autêntico campeão de vendas):

  • Os ateus também são crentes, porque crêem na não existência de Deus.

Tudo isto teria reduzida importância se não se desse o caso de estas guerras de alecrim e manjerona ocuparem o espaço e o tempo que poderia ser empregue a discutir questões, essas sim, essenciais. Por exemplo: quais as condições, na imprensa escrita portuguesa actual, para o desenvolvimento de um discurso crítico sério sobre cinema, continuado, não espartilhado pelas contingências do calendário de estreias?

quarta-feira, março 11, 2009

TATUAGENS E NEGRITUDE: Desde que a TVI teve a peregrina ideia de mudar o horário dos "Morangos com Açúcar", tornei-me espectador assíduo do programa "Nós Por Cá", na SIC, claramente preferível ao "Feitiço de Amor". No "Nós Por Cá", dois convidados, que mudam todos os dias, comentam situações vagamente burlescas, como por exemplo o caso de um cidadão a quem foi enviado um cheque das Finanças no valor de um cêntimo. Na emissão de ontem, o duo de comentadores por um dia era daqueles para quem uma cavadela sem minhoca seria um malogro vexante. Um tatuador afirmava, alto e bom som, que, "se mandasse", arranjaria maneira de tirar aos ricos para dar aos pobres. Mas não era bem tirar-tirar, antes fazer uma espécie de acordo, conversar. Lamentavelmente, faltou o tempo para aprofundar esta peculiar teoria da redistribuição. A outra convidada era Helena Sacadura Cabral. A propósito do salário do presidente da República, o seu monólogo derivou para o presidente José Eduardo dos Santos, e deste para Léopold Senghor e para a negritude. Segundo Helena Sacadura Cabral, os negros devem ter tanto orgulho na sua negritude como os brancos na sua brancura. Sendo o orgulho que sinto por ser branco (se é que sou "branco", não sei bem o que é isso) comensurável com o orgulho que sinto por ter polegares oponíveis ou uma vesícula biliar, ou seja, nulo, este ponto de vista escapa-me completamente, mas é sempre refrescante contactar com outras maneiras de ver as coisas. O tatuador também se queixou dos malandros que vão fazer tatuagens a casa, sem qualquer higiene, estragando o negócio aos profissionais cumpridores. Como não concordar?
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na estação de metropolitano do Campo Grande, uma senhora lia contos de Eça de Queiroz, em pé. Numa carruagem que percorria a linha verde, uma jovem lia "Intimacy", de Hanif Kureishi, em versão original.

segunda-feira, março 09, 2009

OS FILMES DE ANGELA SCHANELEC: De 12 a 15 de Março, na Culturgest. Com programação de André Dias. Mais pormenores aqui. A avaliar pelo exemplo do filme "Nachmittag" (uma das mais intensas descobertas de 2008), este será um dos grandes momentos cinéfilos deste ano.
TUIT TUIT: «Para que caralho serve o twitter?», pergunta-se no Paraíso do Gelado. Como o 1bsk se dirige a toda a família, e os seus seguidores se distribuem uniformemente por todas as faixas etárias e todas as gradações de depravação, vou evitar usar a palavra "caralho", e limitar-me a perguntar: Para que serve o twitter, afinal?

domingo, março 08, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia a "Ilíada", na estação de metropolitano do Campo Grande. Era bonito de se ver.

quinta-feira, março 05, 2009

UMA PEDRADA NO CHARCO: Foi publicado um conto meu na "Revista 365", conto esse que funcionará como uma autêntica pedrada no charco. Esta revista está à venda nos estabelecimentos de categoria. Compre antes que esgote, leia, divulgue, dobre os cantos para marcar a página, guarde para a posteridade, coma frutas e legumes, faça férias repartidas e separe o lixo doméstico. E não se esqueça de visitar o site da "365", que é um verdadeiro delírio.

quarta-feira, março 04, 2009

TÉDIO: O tédio faz mal a praticamente todos os órgãos do corpo humano, como o demonstram dois em cada três estudos publicados nas mais prestigiadas revistas. Para combater o tédio, tudo é legítimo, até mesmo procurar as calinadas nos catálogos de DVDs da Fnac. Aqui estão algumas, do catálogo "A Magia do Cinema":
  • "Awakenings" foi a rampa de lançamento de Robert De Niro.
  • "Oficial e Cavalheiro" é um filme que agarra realmente as audiências e levanta os espíritos de todos.
  • "Chinatown" é considerado por muitos o melhor roteiro [sic] da história do cinema.
  • Em "La Dolce Vita", Fellini critica a estrutura de classes.
  • Fellini realizou um filme intitulado "Dois Ursos de Prata".
  • Antonioni tirava o máximo partido da composição e da cor. (Esta afirmação não é, por si, disparatada, mas surge num texto descritivo a propósito de uma caixa de 4 filmes que são todos a preto e branco: "La Signora Senza Camelie", "I Vinti", "Le Amiche" e "Il Grido".)
  • F. Scott Fitzgerald (1896-1940) foi um dos escritores americanos mais célebres do século XIX.

Mas não quero ser demasiado severo: foi graças a este mesmo catálogo que fiquei a saber que Boris Kaufman (irmão de Dziga Vertov e autor da fotografia de todos os filmes de Jean Vigo) ganhou um óscar por "On the Waterfront", de Elia Kazan. Honestamente, não fazia ideia.

PEQUENO OBITUÁRIO: É muito improvável que o nome de Keith John Worsley (1951-2009) diga alguma coisa aos leitores deste blog. Worsley, cuja carreira científica se desenrolou quase integralmente na Universidade de McGill, em Montréal, foi um dos nomes mais importantes da fase pioneira (que, no fundo, ainda dura) da imagiologia funcional do cérebro. Estatístico de formação, deu abundantes mostras de abertura de espírito e versatilidade ao orientar-se para aplicações na área das neurociências. Foram de sua co-autoria alguns dos artigos mais relevantes desta área nos anos 90, em que forneceu bases estatísticas rigorosas para o trabalho que estava a ser realizado, por outros grupos, no âmbito do estudo funcional do cérebro por meio de tomografia de emissão de positrões e ressonância magnética funcional. Isto sem menosprezo pelo trabalho que continuou a desenvolver até pouco antes do seu recente falecimento, denotando uma permanente vontade de continuar a desbravar terrenos novos, quer na teoria da análise de imagens funcionais, quer no desenvolvimento de ferramentas informáticas para aplicar os métodos desenvolvidos pelo seu grupo. Numa nota pessoal, recordo com intensidade as horas que passei, durante o meu doutoramento, a anotar e tentar assimilar alguns dos artigos de Worsley. (Refiro-me aos seus artigos para leigos, uma vez que nunca reuni a coragem para tentar sequer aflorar os artigos de estatística pura e dura.) Representou para mim uma enorme satisfação ter sido capaz de aplicar algumas das suas ideias ao meu trabalho. Cruzei-me pessoalmente com Keith Worsley apenas um par de vezes, mas foi quanto bastou para poder confirmar as qualidades de simpatia, humanidade e modéstia que lhe apontavam. Nunca esquecerei o almoço mexicano que ele fez questão de pagar, a mim e a alguns colegas que, um pouco por acaso, convergiram para a sua mesa nesse dia de Junho de 2000, em San Antonio, Texas. A notícia do seu desaparecimento deixou-me muito triste.

terça-feira, março 03, 2009

LEITURAS: Uma das leituras que mais apreciei nos últimos tempos foi a de "L'Emploi du Temps", de Michel Butor. Este romance assume a forma de um diário que o narrador (um jovem francês a estagiar na cidade inglesa imaginária de Bleston) redige, com um atraso de alguns meses relativamente aos acontecimentos que relata. Entre a descoberta de uma cidade que o repele e deprime, alguns amores esparsos e amargos, a relação amistosa que enceta com um dos seus colegas de trabalho e uma intriga de contornos vagamente policiais, decorre a vida do narrador durante o período de um ano, dividido entre a necessidade de recordar e transcrever os eventos do passado próximo e as novas perspectivas e revelações que surgem ao sabor do que acontece no presente, no tempo da escrita do diário. O resultado é um subtil jogo entre diferentes planos temporais, uma tentativa de compelir o passado a fazer sentido, a tempo de iluminar o tempo presente, de trazer elementos que ainda possam mudar algo. Pejado de repetições e de revisitações obsessivas de certos episódios, "L'Emploi du Temps" é uma das mais ricas e engenhosas explorações das clivagens (mas também das alianças fugazes) entre o tempo mental e o tempo cronológico. Graças a este excelente blog, fiquei a saber que "Bleston"... ...esconde Manchester, onde Butor ensinou entre 1951 e 1953, e que W.G. Sebald descreveu em "Os Emigrantes". Diz o autor do blog: «I won’t belabor the many intriguing parallels between the two writer’s views on Manchester, but I encourage fans of Sebald to find a copy of Michel Butor’s Passing Time E eu tenho sincera pena que ele não elabore. Nunca li "Os Emigrantes", e pelo andar da carruagem não terei outro remédio a não ser fazer isso mesmo.

Oh Manchester, so much to answer for... (The Smiths)

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, um cavalheiro lia "Palmeiras Bravas", de William Faulkner. Como não estava de pé nem se tratava da versão original, não dá direito a pontos de bónus.

segunda-feira, março 02, 2009

MEIA DÚZIA: Este blog, umblogsobrekleist, conhecido por 1bsk pelos íntimos, amigos, conhecidos e indiferentes, cumpriu ontem 6 anos de existência. Só hoje me lembrei da efeméride. Celebremos, pois, a nossa sexta órbita solar, e que melhor maneira de celebrar do que escutar a Fiona Apple a cantar "I Want You", de Elvis Costello, acompanhada por um certo Declan MacManus? Raras vezes terei visto uma coisa assim. Isto não se finge. Há alguns dias, cheguei a convencer-me de que tinha chegado ao fim do dia sem ter feito nem visto nada de útil. Foi só no dia seguinte que me recordei de que tinha descoberto Fiona Apple a interpretar "I Want You", ao vivo, no YouTube. E isso é quanto basta para eu classificar como "conseguido" um meu dia que poderia não o ser. Nesta actuação há mais do que intensidade, há mais do que sinceridade, há algo que me parece escapar ao entendimento, talvez a cruel consciência de que a vergonha, a dor e a raiva não se sublimam, e que não há alternativa a vivê-las e exprimi-las durante os sete minutos de uma canção, ou uma parte da vida.

domingo, março 01, 2009

TRIUNFO DA LITERATURA: Na apresentação das canções finalistas do Festival da Canção, era pedido aos intérpretes que, entre outras informações imprescindíveis ("praia ou montanha?", "silêncio ou ruído?"), revelassem à Nação qual era o seu livro preferido. Este exercício dispensável produziu resultados tão previsíveis como deprimentes: muito Nicholas Sparks, Richard Bach, e uma misteriosa obra cujo título era qualquer coisa como "Estás na Terra para Cumprir uma Missão". Piedosamente, algumas das escolhas dos concorrentes nem eram divulgadas. Eis senão quando, na apresentação da banda Flor-de-Lis, são mencionados (e mostrados) os livros "Madame Bovary" e "Morte em Veneza". Flaubert e Mann depois de Nicholas Sparks! Logo ali, passei a ver nos Flor-de-Lis os meus favoritos pessoais. A sua vitória final (frente à execrável Luciana Abreu), foi também uma vitória da verdadeira literatura sobre a água choca que nem para seu sucedâneo serve. O facto de a canção dos Flor-de-Lis ser, de longe, a melhor a concurso também não me passou despercebido.
TUDO ESTÁ NA TUA MÃO: A mente humana é um território capcioso. Durante a transmissão do Festival da Canção, e sem nenhuma conexão aparente com este, lembrei-me que o título que Hitler queria dar originalmente a "Mein Kampf" era qualquer coisa como "Doze Anos de Luta Contra a Estupidez, as Mentiras e a Cobardia". Foi a meio da canção da Nucha.
EM BUSCA DO NEOLOGISMO PERFEITO: Acho a sugestão excelente, sem dúvida merecedora de entrar no uso comum. O Prof. Marcelo Rebelo de Sousa não quererá dar uma mãozinha?
MABECOS: Leitor atento, a quem agradeço de forma sincera, elucidou-me sobre o significado do termo "mabeco". Trata-se de uma espécie de cão selvagem, bem conhecido dos ex-combatentes das guerras coloniais, similar ao chacal, dingo, coiote ou hiena. Com leitores assim, quem precisa de dicionários? Mais vale gastar o dinheiro em bebidas espirituosas fortes. Se a minha ousadia o permitisse, lançava agora o apelo para que me explicassem o que é um "musseque".

terça-feira, fevereiro 17, 2009

UM HOMEM DE "PRINCÍPIOS ELEVADOS" E O SEU DEVOTO SIDEKICK: Num mundo que gosta de se anunciar sem preconceitos e repudia a censura, existe um bloqueio drástico sobre o Holocausto. Comentar o horror nazi não pode ser feito fora da versão oficial. São admitidas todas as opiniões, menos essa. Quem escreveu estas palavras? Se o leitor se atreveu a um palpite, e se esse palpite foi "Mahmoud Ahmadinejad", ninguém o pode censurar. A plausibilidade está do seu lado. Sucede, contudo, que estas frases saíram da pena, sempre fecunda, de João César das Neves, o nosso cronista preferido das segundas-feiras, e foram extraídas de um artigo onde ele arrasa todos aqueles que, cedendo ao flagelo do politicamente correcto, criticaram Joseph Ratzinger por ter levantado a excomunhão aos quatro bispos da Sociedade S. Pio X, ordenados por Marcel Lefebvre (incluindo o negacionista Richard Williamson). Na sua ingenuidade, ou na sua má-fé (o efeito é idêntico), JCN atribui ao negacionismo o estatuto de historiografia. O mundo que JCN habita está povoado por historiadores que, cheios de sinceridade e honestidade, contestam o extermínio dos judeus pela máquina nazi da mesma forma que, se o vento tivesse soprado para esse lado, poderiam contestar a existência da escola de Sagres ou a descoberta do Brasil por Álvares Cabral em 1500. Um tema como qualquer outro. Estaria na altura de alguma alma caridosa pagar um TriNaranjus a JCN num bar qualquer, e aproveitar a ocasião para lhe dizer que, neste nosso mundo, o mundo real em que vivemos todos, os negacionistas não são historiadores sérios. São anti-semitas, frequentemente conotados com organizações airosas e simpáticas como a Frente Nacional de Le Pen. Não estão a fazer investigação histórica, mas sim a debitar agit-prop, em doses sabiamente controladas, perfeitamente cientes da margem de manobra que possuem nas sociedades de hoje. E contando, claro está, com a candura de opinantes como João César das Neves. Se estes agentes provocadores se dedicassem a tentar provar que Napoleão morreu em Waterloo, e que a criatura que penou em Santa Helena foi um mero sósia, não recolheriam mais do que escárnio e indiferença. Ao defenderem que as câmaras de gás dos campos de concentração eram usadas apenas para desinfecção, ou outras inanidades do mesmo jaez, sabem que estão a tocar numa ferida ainda aberta. Muito pessoalmente, ignoro por completo as subtilezas da lei canónica, e o real significado de uma excomunhão. Mais do que a excomunhão em si, acho sintomática a intenção, expressa pelo Vaticano, de promover a reconciliação com uma sociedade que faz a apologia da Inquisição e do regime de Vichy, e exprime as opiniões mais retrógradas e tacanhas sobre um sem-número de assuntos, desde a apostasia e o concílio de Trento até considerações sobre se é ou não pecaminoso tocar música folk para ganhar a vida. (Ver aqui, aqui, e aqui, por exemplo.) Nada do que sai da Basílica de São Pedro é inocente, e esta foi mais uma achega para definir um pontificado cujas cores, ao fim de quase quatro anos, são nítidas para todos, para júbilo de alguns aficionados versão pós-Vaticano II.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

LEITOR PREGUIÇOSO, MEU SEMELHANTE, MEU IRMÃO: Após mais de 300 páginas de "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo", de António Lobo Antunes, ainda não descobri o que é um "mabeco", nem me dei ao trabalho de averiguar. Receio que isto me afaste irremediavelmente do modelo de leitor ideal.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

O QUE FAZ FALTA: A língua portuguesa não é suficientemente concisa. Faz-nos falta um verbo que signifique "estar frente à entrada dos Armazéns do Chiado, em grupo ou sozinho/a, parado, sem fazer nada, perturbando aqueles que tentam entrar para ir à Fnac ver as novidades na secção dos DVDs".
CANONIZAÇÃO?: Não sei se se pode falar em canonização, mas o que é certo (e basta folhear os "Cahiers" para disso nos certificarmos) é que não falta por aí malta rendida a "The Curious Case of Benjamin Button", e que não regateia o certificado de obra-prima. Seja. Opiniões alheias assinadas por mãos que eu respeito podem fazer-me repensar as minhas apreciações, mas o filme de Fincher contém tanto daquilo que eu mais detesto em cinema (complacência, falsa ousadia formal, cedência descarada a lugares-comuns) que rever o veredicto não está nos meus planos. Quanto à constatação de que a Academia nomeou para 13 óscares (TM, ©, e tudo o resto) este filme indigesto e insignificante, vergado pela própria pompa sentimental, pelos papagueios morais e pela saturação de efeitos visuais, e que ignorou o subtil e perturbador "Zodiac", isso transmite-me uma sensação reconfortante. Premiar a mediocridade e votar ao desdém a ousadia faz parte das boas tradições de Hollywood. Inquietante e ominoso seria que, subitamente, estes saudáveis hábitos fossem ameaçados por uma qualquer brisa de clarividência.

domingo, fevereiro 08, 2009

OUTRA PARA QUEM A APANHAR: Na quinta-feira tive o privilégio de viver uma autêntica soirée temática. A soirée começou na Fnac, com o lançamento do livro "Os Ventos e Outros Contos" de Eudora Welty (tradução de Diana Almeida, edição Antígona), a que não pude assistir até ao fim devido ao início iminente do evento seguinte, o filme "Antígona" (Sófocles/Hölderlin/Brecht, esse mesmo), da imbatível parelha Huillet/Straub, na Cinemateca. Só faltou mesmo assistir à "Antígona Gelada", mas quando se fala em mitos gregos transpostos para satélites de Plutão estamos a falar em territórios que não me sinto tentado a desbravar.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

ESCUTADO NA RUA:
  • "Eu não tenho vergonha! As salsichas tinham bolor!"
  • "Trabalhar com essa casa não resulta, nunca resultou e nunca resultará."
  • "Quando eu estou online o bacano também está online."

(Esta última frase dizia provavelmente respeito ao Prof. Cavaco Silva.)

sábado, janeiro 31, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Hoje temos uma estreia nesta rubrica, tão apreciada pelos nossos leitores: Heinrich Böll. Na linha verde do metropolitano, uma jovem lia "A Honra Perdida de Katharina Blum".

segunda-feira, janeiro 26, 2009

FADO, FÁTIMA E GODARD: A minha parte preferida do trailer de "Amália" é aquela em que um espectador, erguendo-se da plateia com um ímpeto que denuncia a mais genuína indignação, urra "FASCISTA!!!". Faz-me recordar uma outra cena, de um filme de Godard ("Masculin Féminin", se não me falha a memória cada vez mais falível). Jean-Pierre Léaud está sentado num cinema, na marmelada com uma jovem. Um espectador, sentado algumas filas mais atrás, pede-lhes silêncio. Léaud volta-se e sai-se com um "Cala-te, trotskista!".

domingo, janeiro 25, 2009

CUIDADO COM AS IMITAÇÕES: Há cerca de uma semana, fui assistir a uma peça pelo grupo norte-americano Elevator Repair Service. Poucos dias depois disso, vi-me na contingência de telefonar para o serviço de reparação de elevadores. Se isto é a vida a imitar a arte, não poderia a vida fazer um trabalhinho mais escorreito?

terça-feira, janeiro 20, 2009

SARILHOS GRANDES: O cidadão José Policarpo, a cujas perorações a comunicação social continua a atribuir relevo desproporcionado à importância e ao tino da personagem, tem arrobas de razão. Uma mulher católica arrisca-se a um sem fim de sarilhos se se casar com um muçulmano. A inversa não é menos verdadeira. O mesmo se aplica a uma católica que case com um xintoísta, a um amish que se case com um bahá'í ou a uma testemunha de Jeová que se case com um cristão ortodoxo. Todas as decisões importantes da vida acarretam o potencial para a desgraça ou para a felicidade. Não há antídoto contra o risco, mas há coisas que podem ajudar. Por exemplo: ter sempre em conta que o casamento é uma união entre duas pessoas livres, que se amam e querem construir uma vida em comum; dispensar a canga de preceitos, atavismos e prescrições que as religiões insistem em associar ao matrimónio; ignorar as cristalizações sectárias e mesquinhas com que a sociedade, os cleros e a tradição conspurcam a união entre dois seres. Se não estivesse tão ocupado a tactear, à socapa, os seus próprios telhados de vidro, o cidadão José Policarpo talvez libertasse uma parcela do seu discernimento e se recordasse de todas as mulheres catolica, apostolica, submissa e romanamente casadas que, século após século, se meteram em "sarilhos" inenarráveis por culpa de uma mentalidade misógina que a Igreja raramente hesitou em sancionar.
EXTREMOS, NÃO SEI SE SE TOCAM OU NÃO: Depois de acabar "Myra", de Maria Velho da Costa, cuja redacção foi concluída a 25 de Julho de 2008, li "Gliglois", romance arturiano de autor anónimo, escrito na primeira metade do século XIII. Não me move a ambição de bater recordes de separação epocal entre leituras consecutivas, mas registe-se. (Não sei se ainda está na moda a expressão "from Beowulf to Virginia Woolf" para descrever certos programas de literatura inglesa.)

domingo, janeiro 18, 2009

YOKNAPATAWPHA MEU AMOR: Local: Grande Auditório da Culturgest. A poucos minutos do início da peça "The Sound and the Fury (April Seventh, 1928)", pelo grupo norte-americano Elevator Repair Service, um espectador da primeira fila, talvez impaciente com a espera, decidiu levantar-se e passear-se pelo cenário. Este impulso de mergulhar no imaginário faulkneriano pareceu-me uma coisa nobre e espontânea, e certamente não merecedora do olhar horrorizado do arrumador, que se apressou a pôr na ordem o transgressor. Como tributo, foi pelo menos tão sincero, e certamente mais inócuo para o próprio, do que este.
RECTIFICAÇÃO: Da entrevista a V.S. Naipaul publicada na última edição da revista "Ler" consta, a páginas tantas, o seguinte: «Hardy parou de escrever romances em 1895, quando tinha 25 anos. Não morreu. Tornou-se um homem bastante velho. Escreveu poesia nos seus dias de idade mais avançada.» Algo não batia certo. Escrever "Far From the Madding Crowd", "The Return of the Native", "Tess of the D'Urbervilles" e "Jude the Obscure" antes dos 25 anos representaria um caso de precocidade inverosímil. Nem foi necessário, auxílio online, bastou o meu fiel "Concise Oxford Companion to English Literature". Foi aos 55 anos que Hardy abandonou a ficção e se dedicou à poesia. Resta saber se o lapso se deveu a erro de transcrição ou à falibilidade da memória de "Sir Vidia". Em todo o caso, um pouco mais de genica no fact-checking não teria ficado mal à "Ler".

terça-feira, janeiro 13, 2009

FILMES DO ANO (2): Siga o rol, agora com filmes vistos em festivais e nas formosas instalações da Barata Salgueiro. Ordem cronológica.
  • "L'Amour par Terre", de Jacques Rivette
  • "The Scarlet Empress", de Josef von Sternberg
  • "True Heart Susie", de D.W. Griffith
  • "Distant Voices, Still Lives", de Terence Davies
  • "The Wind", de Victor Sjöström
  • "Paris Vu Par...", de Douchet, Rouch, Pollet, Rohmer, Godard e Chabrol
  • "10 on Ten", de Abbas Kiarostami
  • "Muriel ou le Temps d'Un Retour", de Alain Resnais
  • "Le Genou d'Artemide"/"Itinéraire de Jean Bricard", de Straub e Huillet
  • "Un Baiser s'il vous Plaît", de Emmanuel Mouret
  • "L'Aimée", de Arnaud Desplechin

EM CÂMARA LENTA, COMO NA TV: Sem surpresa, de todas as resoluções de novo ano publicadas pelo jornal "Metro" no passado dia 11, as de Rui Reininho (53 anos, músico) são as únicas dignas de citação. «Agora que estou mais tempo em Leça, vou ver se retomo o tai-chi-chuan, a arte marcial em câmara lenta, que para o equilíbrio é muito boa.» A associação entre Leça e tai-chi-chuan, que na boca de qualquer outro seria um dislate lamentável, parece fazer sentido (e quiçá harmonizar-se com a ordem cósmica) quando o seu fautor é Rui Reininho.

domingo, janeiro 11, 2009

FILMES DO ANO: Não tenho pudor em, à minha modesta escala, produzir umas gotículas de história. As experiências que vivi terão, mais tarde ou mais cedo, de se transmutar em filamentos da história pessoal - ou então serem aniquiladas. Tanto faz ser agora, e sob esta forma consagrada pelos cânones, do que noutra altura e de outra maneira. Qualquer benefício colateral, para mim ou para o leitor, é bem-vindo, mas é de alimentar um cânone íntimo que se trata. Começo pelos filmes estreados em 2008 (ordem cronológica):
  • "Syndromes and a Century", de Apichatpong Weerasethakul (em Cambridge)
  • "No Country for Old Men", dos irmãos Coen
  • "Ne Touchez Pas la Hache", de Jacques Rivette (em Cambridge)
  • "Three Times", de Hou Hsiao-Hsien
  • "I'm Not There", de Todd Haynes
  • "Nightwatching", de Peter Greenaway
  • "Les Amours d'Astrée et de Céladon", de Éric Rohmer
  • "Aquele Querido Mês de Agosto", de Miguel Gomes
  • "Mal Nascida", de João Canijo
  • "La Frontière de l'Aube", de Philippe Garrel

Seguir-se-á a lista dos filmes vistos na Cinemateca ou em festivais.

MORANGOS COM AÇÚCAR: A mãe da Catarina (cujo nome me escapa) empregou, numa cena de há dias com o pai da Beatriz (cuja graça também não me acorre à lembrança, neste momento) uma expressão deliciosa: "Homem de Deus!". A par de "Homessa!" e "Criatura!", é uma das expressões que mais merece ser acarinhada, e encorajada pelos autores de ficção televisiva nacional. Entretanto, a Madalena e o Rodrigo, claramente um dos casais nucleares desta série, já caíram nos braços um do outro. Estamos em Janeiro. Até ao Verão, haverá tempo de sobra para uma zanga e uma reconciliação. Que os "Morangos" funcionam por ciclos e contraciclos românticos é algo que se tornou evidente desde os tempos fundadores do Catarré e da Benedita Pereira.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na linha verde do metropolitano, um cavalheiro lia "On Photography", de Susan Sontag.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

DE UM TEMPO AUSENTE: A livraria Lello, no Porto, é considerada por muitos uma das mais belas do mundo. Outro dia, descobri nas suas estantes um exemplar do meu romance "Benoni", esgotado há anos. Este desconcertante anacronismo não deixou de contribuir, aos meus olhos, para o encanto muito peculiar desta livraria. A capacidade de inverter a seta do tempo é virtude tão ou mais recomendável do que uma sumptuosa escadaria de madeira maciça.
LEITURAS DE NATAL:
  • "Americana", de Don DeLillo
  • "O Homem ou É Tonto ou É Mulher", de Gonçalo M. Tavares
  • "Paisagem Sem Barcos", de Maria Judite de Carvalho

E ainda "Antigos Mestres", o meu primeiro Thomas Bernhard. Um dos melhores livros que me passou ultimamente pelas mãos. Espero escrever alguma coisa sobre ele, em breve.

LAPSO SOBRE UM LAPSO: Durante algumas horas horrorosas, convenci-me de que tinha deslinkado por engano o "Dias Felizes". Afinal não passou de falso alarme, imputável ao frio polar e às arrelias da vida em geral. Mas custou-me deixar passar em claro uma oportunidade de dizer que o "Dias Felizes" continua a ser provavelmente o melhor blog português. E, se houvesse que retirar uma palavra à frase anterior, seria o "provavelmente". Cuidado com os espectros garrelianos lá para as bandas do Campo Alegre.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

PODIA REPETIR, FOR FAVOR?: Pode ter sido por falta de atenção da minha parte, mas não me passou pelos olhos uma única lista de melhores filmes de 2008 da qual constasse "Mal Nascida", de João Canijo. Talvez o principal motivo tenha sido, muito singelamente, um consenso crítico menos favorável do que o reservado a "Noite Escura". Quer-me parecer que uma outra razão possível terá sido a relativa semelhança de registos entre os dois filmes, que terá levado muitos a pensar estarem a assistir a uma mera recauchutagem do mesmo dispositivo formal por parte do realizador, que assim daria mostras de défice de criatividade. Se assim foi, não poderia estar mais em desacordo. "Mal Nascida" repete procedimentos de "Noite Escura" (o trabalho com o som, os movimentos de câmara aparentemente arbitrários mas sempre em profunda consonância com as tensões de cada cena), mas está longe de sugerir estagnação formal. Vezes sem conta tenho constatado uma tendência para certos realizadores serem acusados de se repetirem, ou de fazerem sempre o mesmo filme, apenas porque retomam certos detalhes de estilo de uma obra para outra. Um bom exemplo disto foi o modo como "Aprile", de Moretti, foi acolhido com uma indiferença digna de um parente pobre, depois do triunfo de "Caro Diario". Felizmente, cineastas como Rohmer, Kiarostami ou Wong Kar Wai não se deixam apoquentar por opiniões tacanhas e continuam a filmar como muito bem entendem, repetindo-se gloriosamente e gloriosamente reinventando por completo a sua arte a cada filme.
TABUS: Nos dias que correm, nenhum jornal, revista, filme ou série comete o deslize de ter tabus. Melhor ainda, apregoam o seu estatuto livre de tabus com ponderado orgulho. A tal ponto se tornou banal esta reivindicação que a única maneira de ser original hoje em dia, logo ousado, logo verdadeiramente escabroso, é reclamar o tabu e a inibição como virtudes. Pessoalmente, eu dificilmente resistiria a ver, digamos, um talk-show assumidamente condicionado por tabus. Os convidados e o anfitrião discutiriam livremente, instalados em confortáveis sofás, até ao momento em que alguém aflorasse um dos tabus (publicamente assumidos, como é natural, à laia de estatuto editorial). O sangue afluiria mansamente às faces, os olhares acanhados divergiriam uns dos outros, e haveria uma minúscula pausa prenhe de pudor. Após o que alguém mudaria de assunto, com todo o tacto. Usar de rodeios seria não só permitido, como encorajado. A arte da elipse, do eufemismo, da litote, só teria a ganhar com tudo isto.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

PUBLICIDADE ENGANOSA: Saiu finalmente (com semanas de atraso relativamente à data anunciada) a caixa "Contos Morais" de Rohmer, editada pela Atalanta e pela Fnac. No pequeno texto de introdução a "Ma Nuit Chez Maud", afirma-se que Rohmer recebeu o Óscar (TM, © e quejandos) de melhor argumento. A minha estupefacção foi, compreende-se, grande. Decidido a tirar tudo a limpo, fui verificar a veracidade da asserção. Enquanto se fazia ouvir aquele rumor muito meigo que acompanha o regresso das coisas à sua ordem natural, constatei que "Ma Nuit Chez Maud" foi meramente nomeado para o Óscar de melhor argumento original, relativo ao ano de 1970, tendo este sido atribuído a Francis Ford Coppola e Edmund H. North por "Patton". Teve o seu encanto nutrir a visão de uma estatueta dourada no escritório de Rohmer, servindo de aperta-livros para a edição Pléiade das obras completas de Pascal.
PARECE QUE FOI NATAL, E QUE JÁ PASSOU: A pausa natalícia interrompeu o caudaloso fluxo de posts que tem caracterizado este blog, e os leitores não foram avisados, o que é uma vergonha. Estimo que tenham passado uma agradável pausa natalícia e anonovícia. Para este ano de 2009 não faço promessas, nem declarações de intenção. Apenas um grito que me sai bem do fundo das entranhas: Quero ver o filme "Ashes of Time Redux", de Wong Kar Wai!!! Um portentoso ano novo para todos, e deixo-vos apenas com mais uma ideia: turrón de chocolate com licor Cointreau.

terça-feira, dezembro 16, 2008

UM APELO AO LEITOR: Leitor! O que estás a fazer aqui em vez de estares a ler aquilo que a Cristina escreveu sobre o Rivette? Assim não vamos a lado nenhum, ai não vamos não. (Muito ao longe, o tiquetaque dos relógios de Jerzy Radziwilowicz em "Histoire de Marie et Julien".)
ALGO VAI MAL: Depois de uma visita ao Reino Unido, é impossível entrar numa Fnac em Lisboa e consultar os preços dos DVDs sem sentir que algo vai mal.
Por exemplo, em Cambridge comprei uma caixa Polanski por 7 libras (ao câmbio actual, aliás muito propício a desvarios consumistas nesta moeda, são menos de 8 euros). A mesma caixa, na Fnac do Chiado, está à venda por trinta e tal euros.
Para juntar o insulto ao dano, a caixa que comprei inclui um DVD de curtas que não consta da versão vendida aqui.
Outros exemplos poderia dar. Só para citar mais um: uma caixa Herzog, à venda na loja Fopp em Cambridge (de visita obrigatória) por 12 libras, ao passo que uma caixa com (tanto quanto me apercebi) os mesmos filmes obrigará o herzogiano que há dentro de cada um de nós a uma despesa aproximadamente três vezes maior, na Fnac.
OLIVEIRA (1): Há coisas que me deixam perplexo. Manoel de Oliveira, um monumento? Não me consta que os monumentos cultivem o bom hábito de continuar a criar, a fazer obra, a ousar. E desde quando o usufruto de dinheiros públicos é incompatível com o exercício da liberdade artística? Que me mostrem um único momento de um único filme de Oliveira onde se detectem vestígios de subserviência, um único plano onde a reverência e o constrangimento pesem mais do que a mão soberana do realizador. "Raramente se discute" Oliveira? Muito pelo contrário: nunca houve em Portugal cineasta mais discutido, criticado, vilipendiado, fautor de causes célèbres. Raramente se discute com conhecimento de causa, isso sim. Raramente se discute sem que se caia na tentação do populismo ou do lugar-comum apalermado. Quem se recorda do inefável José Rodrigues dos Santos, com as pálpebras contraídas num ricto de indignação, denunciando essa aleivosia suprema que é o interminável plano inicial de "Non"? Estar à altura da fascinante singularidade de Oliveira é tarefa de monta. Àqueles que não se sintam à altura, seria de recomendar um silêncio decoroso. (Ler, a propósito, o que o Jorge escreveu.)

quarta-feira, novembro 26, 2008

CERTOS TÍTULOS:
Se certos escritores suspeitassem a importância de que certos quadros se revestem para certas pessoas, talvez evitassem dar certos títulos a certas das suas obras.
Estou seguro de que António Mega Ferreira não fez por maldade.
(As conotações cinéfilas apenas agravam a situação.)

terça-feira, novembro 18, 2008

MOTIVO PRINCIPAL DA MINHA NULA ASSIDUIDADE NOS ÚLTIMOS TEMPOS: Mais informações aqui.

domingo, novembro 02, 2008

XADREZ: Anand!!!

Foto Eugeny Atarov, retirada daqui.

Viswanathan Anand (Índia) manteve o título de campeão mundial de xadrez. Vladimir Kramnik (Rússia) precisava de vencer as duas últimas partidas para forçar os desempates, mas ficou-se por um empate na 11ª e penúltima. Anand mais uma vez surpreendeu o adversário na abertura, ao sair com peão de rei (o seu lance mais habitual, mas de que abdicara ao longo deste encontro em favor de 1.d4, peão de dama). Confrontado com a necessidade de vencer com negras, e sabendo que as suas respostas mais habituais ao peão de rei (como a defesa Russa) são quase inofensivas, Kramnik optou por uma Siciliana Najdorf. Porém, a sua falta de familiaridade com esta abertura levou a que Anand anulasse as tentativas negras de complicar o jogo, sem dificuldades de maior. Foi o próprio Kramnik quem propôs o empate, apesar de isso significar a sua derrota no encontro. Na posição final, havia até ligeira vantagem para Anand. Não li um único comentário em que o triunfo de Anand não fosse considerado amplamente merecido. O indiano dominou claramente a primeira metade do encontro, alcançando duas vitórias brilhantes, com negras, na mesma variante (Merano) do Gambito de Dama, pondo em evidência a superioridade da sua preparação teórica. Seguiu-se uma vitória com brancas, numa Nimzo-Índia. Na segunda metade do encontro, Kramnik conseguiu reequilibrar a balança, e obteve uma vitória (também com uma Nimzo-Índia) notável, bem ao seu estilo posicional e subtil. Mas era tarde demais. Pela primeira vez desde 1993 existe um campeão mundial de xadrez incontestado. Para mim, e para quase todos, não existiam já dúvidas de que Anand era o campeão, depois da sua vitória num torneio realizado no México, realizado pelo único organismo que reúne legitimidade para atribuir o título (Federação Internacional de Xadrez, FIDE). Com este triunfo em Bona, ele satisfez os irredutíveis (e ruidosos) adeptos que defendem o match (sequência de um número pré-definido de partidas entre dois jogadores) como o único meio aceitável para determinar o campeão do mundo. Aqueles que, durante anos, se digladiaram em blogs, fóruns, listas de difusão e (presumo eu) cafés, autocarros e jardins públicos para determinar quem era o verdadeiro campeão do mundo, entretêm-se agora a debater, em retrospectiva, quem foi o campeão do mundo durante o período do cisma (iniciado em 1993, e apenas agora definitivamente encerrado). Vale a pena espreitar estas trocas de mimos para se perceber a que extremos de rudeza e virulência podem chegar estas discussões sobre temas completamente ignorados por 99,99... % da população mundial.
OBAMA/BIDEN!: Este blog apoia Barack Obama, sem a mínima hesitação. Obama tem a seu favor um maior potencial de liderança, ideias mais claras sobre o que quer para o país e para o papel dos E.U.A. no mundo. John McCain, por seu lado, tem um historial de conivência com alguns dos maiores desvarios da nefanda administração Bush, e nunca mostrou especial vontade de se demarcar dos sectores mais retrógrados e tacanhos do partido republicano, em particular a sinistra direita religiosa. A escolha de uma nulidade como Sarah Palin para a vice-presidência foi um sinal ominoso de que, para chegar ao poder, ele está disposto a deixar fugir o pé para a chinela do populismo mais descarado e do anti-intelectualismo mais primário, ainda que por interposta pessoa. A escolha entre estes dois candidatos não deveria ser difícil. Vamos ver se, na terça-feira, triunfa a sensatez.

terça-feira, outubro 28, 2008

CAMPOS DE MORANGOS PARA SEMPRE: A Fred, personagem da nova série dos "Morangos com Açúcar", protagonizou um momento absolutamente genial. Confrontada com os remoques acintosos de um amigo, saiu-se com: «Vai ver se eu estou online!» Há quem não esconda a perplexidade face à atenção escrupulosa com que acompanho os "Morangos". Eu não preciso de puxar pela imaginação para encontrar argumentos, a própria série fornece-os por mim. (Já agora, o regresso do setôr Eugénio, agora com cabelo, representou uma pequena revolução que passou ao lado das forças vivas da nação. Foi quebrada a regra, não escrita, que impedia as personagens afastadas, quase sempre para lugares distantes como a Austrália ou a República Checa, de regressarem. Acho extraordinária a leviandade com que se abrem precedentes como este. O regresso do Eugénio teve a não pequena virtude de retirar algum destaque à detestável personagem do pai, o Zeca, ex-sem-abrigo reconvertido em professor paternalista, bonacheirão e falso como Judas.)
XADREZ: No campeonato do mundo, em Bona, Viswanathan Anand teve oportunidade, na segunda-feira, de alcançar o meio ponto que lhe falta para manter o título. Colocado entre a espada e a parede, Vladimir Kramnik reagiu da melhor maneira, dominando posicionalmente o adversário numa defesa nimzo-índia e vencendo a partida. A forma como Anand soçobrou em poucos lances poderá inquietar os seus fãs, e leva a pensar que a pressão começa a exercer os seus efeitos. Depois de um dia de descanso (hoje), a competição retomará amanhã. Anand necessita apenas de fazer meio ponto (um empate) nas duas partidas que faltam, para evitar a necessidade de recorrer aos desempates. Jogando com as brancas, é de esperar que o indiano se esforce por jogar linhas tranquilas e sem risco. Kramnik terá de forçar os acontecimentos, o que vai claramente contra o seu temperamento e o seu historial, sobretudo com as negras. Se Kramnik conseguir vencer as duas partidas que faltam, terá protagonizado uma das mais sensacionais reviravoltas da história do xadrez moderno. Anand, ao longo da sua carreira, não tem sido dado a colapsos psicológicos de grande monta, mas nunca se sabe como um jogador pode reagir em momentos de tão intensa pressão. Seja como for, este encontro irá ter um final bem mais emocionante do que se chegou a recear quando Anand conquistou uma vantagem de 3 vitórias ao fim de apenas 6 partidas.

sexta-feira, outubro 24, 2008

MESMO COMBATE: «I see this financial breakdown, moreover, as being not merely a moral crisis but the monetary expression of the broader degradation of our values - the erosion of duty and responsibility to others in favour of instant gratification, unlimited demands repackaged as 'rights' and the loss of self-discipline. And the root cause of that erosion is 'militant atheism' which, in junking religion, has destroyed our sense of anything beyond our material selves and the here and now and, through such hyper-individualism, paved the way for the onslaught on bedrock moral values expressed through such things as family breakdown and mass fatherlessness, educational collapse, widespread incivility, unprecedented levels of near psychopathic violent crime, epidemic drunkenness and drug abuse, the repudiation of all authority, the moral inversion of victim culture, the destruction of truth and objectivity and a corresponding rise in credulousness in the face of lies and propaganda -- and intimidation and bullying to drive this agenda into public policy.» «Desculpem, mas acho que não é necessário aulas nenhumas de educação sexual, antigamente não havia nada disso, nem TV, nem conversas com os pais acerca de tais assuntos e não apareciam miúdas de 12, 13 anos grávidas como aparecem agora... agora têm tudo e é o que se vê! Tenham juízo, que é o que lhes falta na juventude de hoje em dia!!» O que têm em comum estas duas citações? A tentativa de postular relações de causa e efeito sem sombra de fundamentação, levada a extremos, bastante refrescantes, de paranóia e ideia fixa; a insistência em atribuir a uma única causa (o "ateísmo militante", a educação sexual) um fenómeno complexo. O primeiro excerto é de um artigo de Melanie Phillips, colunista do "Spectator"; o segundo, de um comentário publicado em www.destak.pt. Mas o contraste entre a aparente sofisticação argumentativa do primeiro e a candura tosca do segundo não escondem o traço comum que os une. O combate é o mesmo. Em todos os estratos, nichos e territórios da vasta teia da informação global, o disparate e o delírio vicejam, sem fact-checking nem contraditório capaz de acudir a tantos fogos. Parece que José Manuel Fernandes também culpou a perda da dimensão moral religiosa pelo descalabro do capitalismo contemporâneo. Neste caso, tratando-se de um recidivista múltiplo, o efeito surpresa nos seus leitores é reduzido. (Quantas horas por dia perderão estes opinadores-étoile a lerem-se uns aos outros?)

quarta-feira, outubro 22, 2008

CAUTELAS, CALDOS DE GALINHA E GIGABYTES: Nesta era tão venturosa, em que se vendem pen-drives de 4 Gbytes na Worten ao preço da uva diurética (para não falar nos CDs, nos DVDs, nos discos rígidos USBs, ou na prosaica impressão em derivados de celulose 210x297...), ter um ano de trabalho num computador portátil e não fazer cópias de segurança é abaixo de irresponsável, abaixo de negligente, abaixo de néscio. Não vale a pena procurar adjectivos. O que aconteceu a Miguel Sousa Tavares não merece comiseração, nem um resquício que seja de condolências. Para alguns, a ideia que pode passar é a de um escritor tão ocupado a parlamentar com a musa que despreza as contingências da vida real, como assaltos, vírus, formatações inopinadas de disco e coisas assim. Para mim, trata-se de irresponsabilidade, pura e não adulterada por qualquer traço vestigial de bom-senso. Felizmente, é daquelas irresponsabilidades que apenas lesam o irresponsável, sem danos colaterais, se descontarmos os milhares de leitores que terão de aguardar mais alguns meses pelo novo Opus tavariano. Vale a pena esperar. Tarkovsky - assim reza a lenda - teve de refilmar "Stalker" na sua integralidade, porque o negativo da primeira versão se perdeu. O que não mata torna-nos pessoas melhores. Obra-prima à vista, pois.
MANTER AS DISTÂNCIAS: A chanceler Angela Merkel não gosta dos chochos e das mãos demasiado leves do presidente Sarkozy. O meu gato, Jasmim, gosta de festas, mas não aprecia colo, e debate-se, com ar furibundo (e um tanto psicopata) quando lhe pego. Manter as distâncias é o que está a dar. Manter as distâncias é a nova sensibilidade. Sejamos fiéis ao ar do tempo.
BALANÇO DA FESTA DO CINEMA FRANCÊS: O meu balanço pessoal da festa do cinema francês deste ano faz-se rapidamente, porque só vi dois filmes. (Houve três outros que eu gostaria de ter visto, mas que irão estrear ou já estrearam: "Paris", "Le Silence de Lorna" e "Entre les Murs".) Os filmes que eu vi foram os seguintes. "Ce Que Mes Yeux Ont Vu", de Laurent de Bartillat. Confirmaram-se os meus receios. Este filme pouco mais é do que um banal drama psicológico com caução artística. O argumento é débil, e abusa de situações e personagens estereotipadas (a estudante com dificuldade em pagar o aluguer da casa, mas obcecada por uma ideia fixa, e a quem o desenrolar da narrativa dará plena razão; o orientador, insensível, altivo e misterioso; e até um homem-estátua surdo-mudo e transbordante de sensibilidade). Sylvie Testud e Jean-Pierre Marielle, dois actores de quem gosto muito, fazem o que podem com as suas personagens. Salvam-se algumas ideias de realização, e duas ou três sequências (por exemplo o leilão na Bélgica em que Sylvie Testud licita repetidamente, mesmo sem noção das quantias envolvidas por não perceber o flamengo, tudo para se apoderar de um quadro que poderá trazer a chave para o enigma que a atormenta). Um mérito do filme, certamente não dos menores, é o de chamar a atenção para a excelência e subtileza da obra de Watteau. "Un Baiser S'Il Vous Plaît", de Emmanuel Mouret. Este sim, encheu-me as medidas. À primeira vista, pode confundir-se este filme com uma das dezenas de comédias românticas palavrosas que a França produz anualmente. Mas "Un Baiser S'Il Vous Plaît" distingue-se pela inteligência dos diálogos, pela simplicidade e rigor, por vezes quase ascéticos, da realização, e pela maneira notável como o realizador (que é também um dos protagonistas) insere momentos de elevadíssima intensidade emocional num registo de aparente ligeireza e comicidade. O filme encontra-se estruturado como uma narrativa dentro de uma narrativa: em Nantes, uma mulher nega um beijo a um homem que acabou de conhecer, e com quem acabou de jantar agradavelmente. Para fundamentar a recusa, conta-lhe a história de um casal seu amigo, cujos problemas começaram quando ela aceitou beijá-lo nos lábios, um gesto de pura amizade destinado a paliar as suas carências emocionais. As peripécias sucedem-se em registo de sitcom minimalista, mas o fio condutor é sempre o mesmo: as consequências de um acto isolado, e as suas ramificações éticas no seio de uma relação. As comparações com Woody Allen e Rohmer (mau grado o cepticismo que aqui exprimi) justificam-se plenamente, devido à persona cómica desajeitada e logorreica que Mouret criou, e devido à insistência nas ressonâncias morais de uma ideia fixa levada às suas últimas consequências (ou à recusa em ceder a essa ideia, na outra narrativa, aquela em que o beijo é negado por precaução, e apenas concedido no final, sob condições draconianas que são impotentes para suprimir a emoção). Foi também uma grata surpresa constatar a esplêndida forma em que se encontra Julie Gayet, uma dessas actrizes cuja inteligência e talento se alimentam mutuamente, e de que os franceses parecem deter a patente (recordo-me de Sandrine Kiberlain, Catherine Deneuve, Sandrine Bonnaire, Jeanne Balibar...).
XADREZ: Está a desenrolar-se o match para a atribuição do título de campeão do mundo de xadrez, em Bona, na Alemanha, entre Viswanathan Anand (Índia, campeão em título) e Vladimir Kramnik (Rússia, pretendente).

Anand está à esquerda, na figura, promovendo o seu peão "g" a Dama no final da 6ª partida.

A história recente do campeonato do mundo de xadrez tem sido tão complexa, tão convoluída, tão recheada de peripécias mirabolantes e cisões acrimoniosas, que é um alívio poder garantir a quem esteja menos dentro do assunto que, desta vez, irá sai deste encontro um campeão do mundo incontroverso e reconhecido universalmente. Para mim, e para 95 % dos aficionados, Anand já é campeão do mundo desde 2007, altura em que triunfou num torneio fechado, realizado na Cidade do México, destinado à atribuição do título, e reconhecido universalmente como tal. Porém, muitos apoiantes de Kramnik continuaram a ver neste o único herdeiro do título "clássico", último de uma linhagem cuja origem remonta a 1886, quando Wilhelm Steinitz bateu Johannes Zukertort (e o próprio Kramnik, em entrevistas, defendeu esta teoria com frequência). Chegou agora o momento do tira-teimas decisivo. Só uma obstinação patológica poderá levar alguém a negar que o vencedor do encontro de Bona é o campeão mundial de xadrez. (O leitor interessado encontrará aqui informação histórica bastante exaustiva sobre este assunto.)

Até agora, a contenda tem sido de sentido único. Anand levou a melhor em 3 das primeiras 6 partidas (de um total de 12), e lidera por 4,5-1,5. Anand tem-se superiorizado a Kramnik em todas as fases do jogo, em particular na preparação teórica ao nível das aberturas. A este nível, recuperar de uma desvantagem de 3 derrotas em 6 partidas é tarefa quase impossível. Pessoalmente, torço por Anand, por duas razões. Em primeiro lugar, o estilo do indiano, fluido e versátil (muitas vezes comparado ao do ex-campeão do mundo Boris Spassky), agrada-me mais do que o de Kramnik, mais posicional, pragmático e conservador. É certo que o meu jogador preferido de todos os tempos, Anatoly Karpov, possuía um estilo que também primava pelo pragmatismo e pelo sentido posicional, porém mais rico e menos unidimensional. Em segundo lugar, desagrada-me em Kramnik a sua atitude, nos limites do cinismo, e a forma calculista como tem gerido a sua carreira, desprezando os torneios e focalizando-se quase exclusivamente na manutenção de um título mundial cuja legitimidade nunca foi branca como a neve. O campeonato mundial de xadrez está a ser acompanhado pela vasta equipa de enviados especiais do 1bsk, que inclui numerosos grandes-mestres e mestres internacionais. (Mentira, sou só eu e estou em Telheiras.) Página oficial. Outros sites com cobertura do evento.

sábado, outubro 18, 2008

A HORA RIVETTE (13): «Voltando a "Histoire de Marie et Julien", o filme anterior àquele que é provavelmente o melhor filme desta década, "Ne touchez pas la hache", é incompreensível o tamanho dos disparates que foram escritos. Ninguém, repito, Ninguém, no cinema de hoje tem tal domínio, discernimento e compreensão daquilo a que se chama mise-en-scène, essa arte de respeitar e compreender/apreender o real e a matéria, esse embate fulcral com as texturas, saliências e ambiências de um mundo que está lá, que existe, antes de qualquer artilharia técnica e estilística pré-concebida. Antes de qualquer excitação e fantasia.» Retirado daqui. É pena não haver mais gente a escrever tão bem sobre cinema em blogs portugueses.
A FNAC DO VASCO DA GAMA: Não posso deixar de subscrever estas palavras. A esta lúgubre apreciação acrescento que a secção de livros de cinema está reduzida a duas miseráveis prateleiras (e uma parte considerável dos títulos são na linha "50 000 filmes que deve ver antes de esticar o pernil, se não quer que trocem de si nas festas"), e que a ficção estrangeira, em quantidade e variedade decepcionantes, se resume ao inglês e ao francês. (Philip Roth aparece em força.) Quanto aos DVDs, a secção do "cinema de autor" (e tanto haveria a dizer sobre a pertinência desta designação) está ordenada de forma peculiar: por ordem alfabética do título, mas abrindo excepções para realizadores mais generosamente representados (p.ex. Almodóvar). Este esquema híbrido arrisca-se a gerar confusão. Talvez os vendedores da Fnac sintam carência de contacto social, e estejam desejosos de interagir com os consumidores, desesperados por não conseguirem encontrar sozinhos o filme que pretendem. Para juntar o insulto ao dano, a Bertrand mudou-se do piso superior para o piso inferior, tendo perdido um ror de metros quadrados no caminho. A Bertrand do Vasco da Gama era uma das melhores de Lisboa, e agora não passa de um bocejo em forma de livraria. Aguardemos por dias melhores. (Estou curioso em conhecer a nova Buchholz, no antigo armazém da Sá da Costa, ao Chiado.) [Adenda (22/10): Quando mencionei a ficção estrangeira, referia-me a ficção estrangeira em língua original, não à traduzida. E reparei que, afinal, existem alguns livros em castelhano. Quanto aos DVDs, é de notar que os realizadores que têm direito a entrada individual aparecem ordenados pelo nome próprio (Pedro Almodóvar aparece no "P"), o que só agrava, parece-me, a situação.]

domingo, outubro 12, 2008

O MAL PELA RAIZ: As bolsas não podem cair mais enquanto estiverem fechadas. A solução é não abrir as bolsas. Eu sou a favor da abolição dos dias úteis.
O NOBEL: A importância desmedida que muitos atribuem ao Prémio Nobel da Literatura nunca cessa de me surpreender. Bastou que o premiado deste ano fosse um autor francês para que alguns defendessem tratar-se da prova evidente de que a cultura francesa não está moribunda. Dá vontade de sorrir. A cultura francesa, com as suas grandezas e limitações, tem sobrevivido muito bem, ao longo dos séculos, sem precisar da sanção periódica de um punhado de cavalheiros suecos que se reúnem numa sala para decidir quem vai receber a taluda. É apenas um prémio. "Mas não um prémio como outro qualquer", dirão alguns. De acordo. Mas qual a fracção desse prestígio, desse carácter único, dessa projecção, que corresponde a invenção mediática, e qual a que deriva do real discernimento crítico e clarividência daqueles que atribuem o galardão? A necessidade de relativizar a importância do Nobel não me retira a vontade de tecer algumas considerações sobre a decisão deste ano. Não me posso pronunciar sobre a justiça da atribuição do prémio a Jean-Marie Le Clézio, pois nunca li uma única linha deste autor. Desconsola-me verificar que, 23 anos depois do último escritor de língua francesa ter recebido o prémio, a Academia Sueca ignorou alguns dos nomes que, a meu ver, mereceriam amplamente a consagração do Nobel. Pascal Quignard é o nome que se destaca dos restantes, mas Jacques Roubaud e Michel Butor seriam candidatos legítimos. Nunca vi estes dois nomes citados como potenciais vencedores. No caso de Jacques Roubaud, o galardão reconheceria um dos escritores mais singulares do pós-guerra, autor de uma obra vastíssima e multiforme, onde a componente lúdica, a autobiografia, a experimentação e a matemática marcam presença. Seria também uma maneira de prestar tributo à importância e influência do movimento OuLiPo, agora que Georges Perec, Raymond Queneau e Italo Calvino, pela razão indesculpável de terem falecido, se encontram fora de concurso. Quanto a Butor, conheço poucos exemplos de autores que se movam com tanto à-vontade entre o romance, a poesia, o ensaio literário, a crítica e o livro de viagens, e o seu permanente rigor intelectual e liberdade criativa transformam a descoberta da sua obra num genuíno deleite. Olhando para trás, torna-se confrangedor constatar como têm sido numerosas as ocasiões que a Academia Sueca tem esbanjado para homenagear a singularidade da literatura de língua francesa. Depois da 2ª guerra mundial, após Gide e Mauriac, duas escolhas mais ou menos óbvias, seguiram-se Camus e Sartre (com o poeta Saint-John Perse de permeio), quais incontornáveis torres gémeas da paisagem literária/filosófica gaulesa. Sem pôr em causa os seus méritos literários, que não são poucos, quer-me parecer que os Nobel de Camus e Sartre premiaram mais a encarnação do intelectual, do pensador que escolheu a literatura como forma de expressão, do que os escritores. Depois de Sartre, houve Beckett (obviamente um caso à parte), Claude Simon (que assim representou o "nouveau roman" no palmarés), e agora Le Clézio. Francis Ponge, René Char, Marguerite Duras, Marguerite Yourcenar, Romain Gary, Henri Michaux, Jean Anouilh, Alain Robbe-Grillet, Henry de Montherlant, Julien Gracq (e fico-me por aqui) deixaram este mundo sem o reconhecimento do Nobel. É de lamentar, mas não é nenhuma catástrofe. Felizmente, ao contrário do que este pico de excitação outonal pode fazer crer aos mais distraídos, o Nobel não é o único prémio de literatura, e não é certamente o que distingue um escrevinhador de um imortal.

sexta-feira, outubro 10, 2008

INADMISSÍVEL: «É inadmissível que se façam branqueamentos dentários em cabeleireiros, esteticistas e Spas.» (Lido no "Meia-Hora" de ontem.) Eu próprio me tenho indignado amiúde com esta situação, e surpreende-me que ainda não tenha sido lançado um debate, alargado (bem-entendido) a toda a sociedade, sobre o assunto.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Aparentemente, existem suspeitas de uma fuga de informação durante o processo de atribuição do Nobel da Literatura deste ano. O elevado número de apostas no nome de Le Clézio registado nos últimos dias antes da divulgação do resultado, que terá mesmo levado a Ladbrokes a encerrar as apostas nesse nome, suscitou as suspeitas do secretário permanente da academia. Horace Engdahl reconhece que se encontrava em Paris no último fim-de-semana, e que estava a ler um livro de Le Clézio durante o trajecto para o aeroporto, mas garante que camuflou o livro para não permitir a sua identificação. Tamanha ingenuidade é aflitiva. O mundo está repleto de observadores ávidos das leituras em lugares públicos, fecundos em recursos, e obstinados como mulas. Camuflar um livro não chega. Um fragmento de frase lido por cima de um ombro incauto, um tipo de letra, mil e um detalhes, podem chegar para identificar um livro. Uma rede de conspiradores actua na sombra para não deixar por identificar um único livro que seja exposto num lugar público. O sr. Engdahl deveria saber que mostrar um livro de Le Clézio num aeroporto de Paris, por mais "camuflado" (muitas aspas aqui) que estivesse, seria equivalente a envergar uma sweat-shirt com uma fotografia do autor estampada, e os dizeres "É ele o próximo Nobel".

domingo, outubro 05, 2008

5 DE OUTUBRO: Desde o princípio que o 5 de Outubro é uma das datas de referência do 1bsk, juntamente com o 14 de Julho, o Bloomsday (16 de Junho), o aniversário do Doutor Sousa Martins (uma efeméride de tão graúda importância que nem me recordo em que data calha), e o próprio dia da fundação do Blog e das comunidades kleistianas no estrangeiro (1 de Março, curiosamente coincidente com o aniversário de Jacques Rivette). Estamos a 2 anos do centenário da implantação da República, e nota-se já por aí o engrossar do caudal de comentários anti-republicanos, quase sempre protagonizado por revisionistas de poltrona. Perante as falsidades, as distorções e as meias-verdades, perante a desfaçatez daqueles que acusam a 1ª República de todos as maleitas de que padeceu Portugal no século XX, a atitude mais sensata consiste em recordar duas ou três coisas muito elementares. A implantação da República foi o culminar de um processo que libertou o povo português de uma dinastia reinante ineficaz, conivente com um clero retrógrado e ultramontano, e condescendente para com veleidades ditatoriais como as de João Franco. A República trouxe benefícios imediatos e modernizadores para Portugal, como a regulamentação do divórcio e dos registos civis de nascimento, a laicização do ensino e a separação da Igreja e do Estado. Independentemente da instabilidade que a caracterizou, a 1ª República lançou as bases ideológicas que, após o 25 de Abril, vieram a facilitar uma transição relativamente rápida em direcção a um regime estável, democrático e progressista. Nos dias de hoje, 98 anos depois da revolução, Portugal faz parte da vasta maioria de nações cujo chefe máximo é eleito pelo seu povo ou por representantes seus, e em vez de ser o descendente de um longínquo antepassado cujo principal mérito foi o de ter sido mais forte na espadeirada ou em conspirações palacianas. As razões para celebrar esta data são abundantes. Para o constatar, basta ler os livros de História com objectividade e honestidade, e sem segundas ou terceiras intenções, mais ou menos transparentes, a espreitar pela algibeira. (Ou então, ler qualquer entrevista ao Sr. Duarte de Bragança, esse estadista visionário, exemplo vivo de quão arriscado é confiar aos azares da hereditariedade o futuro de um país.)

sexta-feira, outubro 03, 2008

FESTA DO CINEMA FRANCÊS: Ano após ano, repete-se a expectativa nos dias que precedem a divulgação do programa da Festa do Cinema Francês, e repete-se, outrossim, o amargo de boca. Parece-me confirmada a tendência para que esta Festa funcione, acima de tudo, como montra da produção cinematográfica francesa. Nada a dizer contra isso: é um propósito compreensível e louvável. Mas é decepcionante constatar que as escolhas parecem obedecer mais a uma lógica de grande público do que a uma preocupação de diversidade. Adivinha-se uma política de quotas de género implícita (nunca faltam uns quantos policiais, umas quantas comédias românticas, duas ou três animações...), e escasseiam as obras artisticamente mais ousadas. Estarei a sucumbir a uma nostalgia desprovida de fundamento, ou terei razão quando penso que as primeiras edições desta Festa eram mais interessantes, e mais susceptíveis de conter surpresas? Os meus destaques da edição deste ano:
  • "Ce que Mes Yeux Ont Vu", de Laurent de Bartillat. O tema (uma estudante obcecada com os quadros de Watteau) tenta-me, e a presença de Sylvie Testud e de Jean-Pierre Marielle (o inesquecível Sainte-Colombe de "Tous les Matins du Monde") são argumentos a favor.
  • "Paris", de Cédric Klapisch. Klapisch está longe de ser um realizador de peso, mas o título do filme e o elenco (Juliette Binoche, Romain Duris, Fabrice Luchini) pesam do lado certo da balança.
  • "Le Silence de Lorna", de Jean-Pierre e Luc Dardenne. "Rosetta" não me convenceu completamente, mas sinto vontade de dar nova oportunidade aos dois irmãos belgas.
  • "Un Baiser s'il Vous Plaît" e "Vénus et Fleur", de Emmanuel Mouret. De Mouret, conheço "Laissons Lucie Faire", filme cujo humor, na fronteira entre a ingenuidade e a palermice minimalista, funcionava contra todas as expectativas. A propósito deste último filme, no programa da Festa, fala-se na herança de Guitry, Rohmer e Woody Allen. Eu não iria tão longe, mas Mouret merece sem dúvida alguma atenção. Para além do próprio realizador, Virginie Ledoyen e Julie Gayet fazem parte do elenco de "Un Baiser...".
  • "Bord de Mer", de Julie Lopes-Curval. Gostei do resumo. Entra Bulle Ogier.
  • "Tout Est Pardonné", de Mia Hansen-Løve. A realizadora é uma ex-crítica dos "Cahiers", um dos melhores predicados que se pode apresentar (a linhagem vem de Rohmer, Godard, Truffaut e Rivette, e passa por Téchiné, Biette, Bonitzer...).
  • "Le Voyage aux Pyrénées", de Jean-Marie e Arnaud Larrieu. Os irmãos Larrieu têm construído uma obra singular e digna de atenção. Gostei de "Fin d'Été", pequeno filme quase amador, mas que já evidenciava arrojo e desenvoltura. Quanto a "Peindre ou Faire l'Amour", embora não isento de aspectos discutíveis (e mau grado o irritante Sergi Lopez), agradou-me muito mais do que à generalidade da crítica. Quanto a este filme, o resumo não me entusiasma, mas está claro que perder uma oportunidade de ver a sempre excelente Sabine Azéma é acto equiparável a contra-ordenação grave.
  • "Entr'acte", de René Clair. Curta-metragem histórica, de 1924, onde se assiste a uma partida de xadrez entre Marcel Duchamp e Man Ray.
  • "La Traversée de Paris", de Claude Autant-Lara. Clássico (1956) de um cineasta, relegado ao esquecimento pela Nouvelle Vague, que, nos últimos anos da sua longa vida, derivou para as paragens mal frequentadas da extrema-direita francesa.
  • "Monsieur Klein", de Joseph Losey. Há dias, em conversa, exprimi-me de forma muito negativa sobre o talento de Alain Delon, esquecendo-me de "Le Samouraï" de Melville, esquecendo-me de "Nouvelle Vague" de Godard. Ver este filme seria, espero, uma maneira de confirmar a injustiça dessa minha opinião leviana.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: No metropolitano, já não sei se na linha Caravela, Gaivota, Oriente ou Girassol, uma jovem lia "Mendigos e Altivos", de Albert Cossery.
INCREDULOUS STARES: Há muito que o Pedro vem deixando as suas marcas na blogosfera, infelizmente demasiado dispersas e esporádicas. Este blog recente tem tudo para fazer parte da lista de favoritos daqueles que se interessam pelo realismo modal, em geral, e pela vida, em particular. Também há gatos.

segunda-feira, setembro 29, 2008

PAUL NEWMAN (1925-2008): Não faltará, a propósito da morte de Paul Newman, quem fale no "último dos clássicos", ou no "último dos grandes", ou no "último dos monstros sagrados". Estas expressões são frequentemente usadas em alusão a uma suposta idade de ouro do cinema, irremediavelmente pretérita, e que não admite comparações com os tempos de hoje. Mas a grandeza não pode ser refém de nostalgias preguiçosas. Paul Newman foi um dos maiores porque teve o talento e a coragem para, durante a sua longa carreira, impor a sua personalidade aos papéis que encarnou, estendendo um longo fio, indelevelmente humano, que atravessa a sua filmografia. Tal como outros seus parceiros na excelência (James Stewart, Cary Grant, e mais uns quantos), Paul Newman legou à posteridade a sua presença, uma resiliência que tem tanto de moral como de artístico, o hábito do tom justo, um virtuosismo discreto mas subtilmente enérgico, e tantas mais coisas que hão-de ser recordadas com saudade muito tempo depois de as tonitruantes acrobacias de um Daniel Day-Lewis terem caído no esquecimento.
A HORA RIVETTE (12): A 20ª longa-metragem de Jacques Rivette (ou 21ª, se contarmos as duas partes de "Jeanne la Pucelle" como dois filmes diferentes) já se encontra em fase de rodagem. O título será "36 Vues du Pic Saint-Loup". O acidente montanhoso em questão situa-se na região do Hérault, no sul de França, muito perto do local onde foi filmado "La Belle Noiseuse". Do elenco fazem parte Jane Birkin ("L'Amour par Terre", "La Belle Noiseuse"), Sergio Castellitto ("Va Savoir") e Julie-Marie Parmentier. Esta última é uma jovem actriz de que gosto bastante. Foi descoberta por Noémie Lvovsky (actriz, realizadora e argumentista, revelada nos anos 90, colaboradora de Arnaud Desplechin nas primeiras obras deste) em "Petites", filme para a televisão de 1997. Os outros cúmplices do filme de Rivette são os do costume: Martine Marignac na produção, Christine Laurent e Pascal Bonitzer no argumento, Willy Lubtchansky na fotografia.

sábado, setembro 27, 2008

A TÉCNICA DA FORÇA E A FORÇA DA TÉCNICA: Num programa humorístico português recentemente emitido pela RTP, um "sketch" explorava a possibilidade de modalidades desportivas híbridas, como por exemplo boxe e corrida de 100 metros em simultâneo, ou luta greco-romana intercalada com ballet clássico. Uma modalidade híbrida talvez ainda mais inverosímil do que esta seria o "chessboxing", um improvável casamento de pugilismo e xadrez. O potencial humorístico desta modalidade estará talvez um pouco diminuído pelo facto de se tratar de uma modalidade autêntica. Com efeito, o "chessboxing" tem vindo a ganhar adeptos, e o número considerável de combates que se vão disputando reflecte esta popularidade crescente. O princípio é simples: os dois adversários alternam assaltos de boxe com lances de xadrez, e o vencedor é o primeiro a pôr "knock-out" o oponente ou a dar xeque-mate. O leitor pode deliciar-se aqui com uma descrição suculenta de um combate recente realizado em Londres, e seguir os enlaces no fim do artigo se quiser saber mais sobre os pontos de contacto entre a nobre arte e o jogo dos reis. Uma das minhas partes preferidas do artigo: 6.Be2 Bg7. “TAKE HIS ROOK!!” barked a heavily tattooed 20 stone man with whom I wouldn’t want to argue the legality of such a suggestion.
A HORA RIVETTE (11): (Continuação disto.) Na esmagadora maioria dos casos, um filme de ficção passa pela transmissão de uma ideia, de uma sucessão de peripécias, de um retrato psicológico, de uma situação social que se pretende denunciar, ou de uma combinação destes. A concretização desta intenção artística recorre a um arsenal de técnicas, consagrado pelo tempo e pelo senso comum, do qual fazem parte convenções narrativas e elementos formais de variadíssimos tipos. Em maior ou menor grau, um filme recorre à elisão, ao subentendido, a pressupostos sobre o contexto cultural em que o espectador se insere, à alusão, à ironia, a uma multiplicidade de códigos que traduzem a dimensão da existência fictícia numa narrativa cinematográfica. Mas como construir uma narrativa quando a existência fictícia das personagens, assim como a relevância que justificaria o acto de filmar, não são um dado adquirido? Por outras palavras: como filmar personagens forçadas a construir o próprio estatuto, a justificarem-se perante o processo que as traz do nada para a ficção? São poucos os que se atrevem a meter ombros a esta tarefa, que equivale a sondar as próprias raízes do mecanismo ficcional. Em "Out 1", as personagens vivem em dúvida permanente sobre os vínculos que as unem. O cabimento de cada gesto e de cada palavra só podem ser compreendidos no contexto de um esforço permanente, um esforço de construção do próprio estatuto e de posicionamento face aos demais. As personagens não podem ser socorridas por um conjunto de convenções que, ao inscrevê-las no plano da ficção, traduzissem a sua essência ou a sua importância para o enredo. Essa essência não existe. À falta desse recurso, resta-lhes ocuparem o tempo da ficção e definirem-se por compreensão, e para isso só podem contar com o seu corpo, com a sua voz, com os seus gestos inscritos na temporalidade do filme. Aqui reside a singular e exaltante beleza deste filme. O que de raro sucede aqui é isto: diante dos nossos olhos, personagens conscientes da fragilidade da história que os une, da condição precária em que se encontram, lutam pela sobrevivência enquanto entidades fictícias. Essa luta passa, no fundo, pela mais simples das coisas, e simultaneamente a mais subtil: existir. Pouco importa se tal passa por um passo dado numa rua de Paris, por uma tentativa de extorquir dinheiro, pela procura do tom justo no coro de uma peça de Ésquilo. Roça-se em algo de muito misterioso e muito secreto, neste filme, e custa admitir que as tensões que o atravessam não encontram um equivalente quase perfeito nas vividas por homens e mulheres, em busca do seu quinhão de humanidade, nesse mundo paralelo ao dos filmes que é o mundo real.

domingo, setembro 21, 2008

O MEU DEFUNTO MERECE MAIS PESAR DO QUE O TEU: Percorrendo a lista de votos levados a votação no Parlamento, parece-me difícil de contestar que, se há alguns que são imperativos humanos (votos de pesar por ocasião de catástrofes como o sismo da China ocorrido neste ano), muitos relevam da mais pura irrelevância (votos de congratulação pelo 90º aniversário de Nelson Mandela e por um título mundial de kickboxing, votos de protesto pelo encerramento da maternidade de Elvas, pela ilegalização de uma organização de jovens comunistas na República Checa e, o meu favorito, pela "situação criada no sector profissional do andebol"). Mais irritante é a tendência, julgo que crescente, de usar os votos de pesar como arma política. Só nos últimos meses, assistiu-se a picardias relacionadas com os votos de pesar pelo centenário do regicídio e dos falecimentos do cónego Melo e do escritor Aleksandr Solzhenitsyn, para citar apenas os casos mais notórios. Em todos estes casos, as personalidades evocadas foram convertidas em armas de arremesso político por deputados que sabiam estar a envolver os seus adversários políticos num jogo de cara-ganho-eu-coroa-perdes-tu. Negar-se a aprovar um voto de pesar fica sempre mal na fotografia, disso estão plenamente cientes aqueles que os apresentam. Deveria haver limites para a instrumentalização do respeito pela morte prevalecente na sociedade ocidental, mas não vejo como impor esses limites a não ser por um apelo ao bom senso. A argumentação política não deveria depender do número de mártires que cada lado da barricada é capaz de trazer à berlinda, solicitando aos oponentes que escolham entre inclinar-se perante a sua memória ou passar por impiedosos. No meio de tudo isto, são engolidas pelo ruído as homenagens justíssimas a pessoas como Fiama Hasse Pais Brandão, Eduardo Prado Coelho e Maria Gabriela Llansol.
A ARTE DA CONVERSAÇÃO: Em qualquer conversa mais séria, seja qual for o seu teor, é sempre oportuno fazer uma asserção com esta forma: "De qualquer maneira, neste país nunca houve uma política coerente de... "(inserir o assunto em questão, por exemplo Educação, Obras Públicas, Ordenamento do Território, Promoção da Língua...). Em vez de "coerente", pode usar-se "integrada" ou "consistente". Para além de o fazer passar por uma pessoa bem informada, uma frase como esta poderá ainda ter, à laia de bónus, a virtude de encerrar a conversa de forma lapidar, e propiciar a deriva para outros temas mais agradáveis, mexericos, ou um silêncio plácido e morno que permita a cada um empregar a sua mente como lhe aprouver.
A PENSAR EM SI (2): Quem se dava ao trabalho de enlaçar um dos posts deste blog via-se, até agora, confrontado com uma tarefa pouco menos do que impossível. O "permanent link" incluído no fim de cada post estava, sabe-se lá por que artes luciferinas, incorrecto. Também este problema foi resolvido. Desapareceu uma das poucas desculpas que ainda poderia ser invocada para não enlaçar artigos deste blog. Restam as outras, mais frágeis e absurdas, como por exemplo: não gostar de blogs, não gostar deste blog, não ler este blog, não saber o que é um blog.
A PENSAR EM SI (1): Durante muito tempo, este blog não permitiu "feeds". O caudal de mails de leitores que manifestaram consternação pelo facto foi tão intenso que criei inimizades na Yahoo! O caso, espero, está resolvido. Os leitores podem, a partir de agora, acrescentar o 1bsk ao seu agregador de "feeds" favorito, sem arrelias, mediante um simples clique. Em caso de dúvidas ou problemas técnicos, estejam à vontade para me escrever, e aproveitem para revelar o vosso recheio de bombom favorito.

quinta-feira, setembro 18, 2008

DO CONTRA: Matilde Sousa Franco está tão habituada a votar em sentido contrário aos seus colegas da bancada do PS que, se não estiver atenta, corre o risco de votar a favor da proposta de alargamento do casamento a pessoas do mesmo sexo. São estas ironias do destino que dão algum sabor ao desenxabido cozinhado da existência humana, e a sua improbabilidade só aumenta a sua suculência.

domingo, setembro 14, 2008

JUKEBOX INTRACRANIANA: Ofereceram-me há poucos dias os 2 CDs de Amy Winehouse, e há certas canções que não me saem do ouvido, em especial "F**k Me Pumps" e "In My Bed".

sábado, setembro 13, 2008

O PAPA EM FRANÇA (2): «Il n'y a pas de laïcité positive ou négative, ouverte ou fermée, tolérante ou intolérante. Il y a la laïcité. C'est un principe républicain.» (François Hollande, secretário-geral do PS) «En tant que personne, il a le droit d'avoir ses convictions, mais en tant que président de la République, il doit être le garant de quelque chose qui est fondamental aussi pour la cohésion de ce pays et la capacité de vivre tous ensemble dans de bonnes conditions.» (Cécile Duflot, secretária nacional do partido "Les Verts") «Je suis contre le mélange des genres entre l'Etat et la religion.» (François Bayrou, presidente do "Mouvement Démocrate") «Nicolas Sarkozy met toujours un adjectif à côté de la laïcité et ça m'inquiète. Je préférerais qu'on en reste au concept lui-même.» (Marie-George Buffet, secretária nacional do Partido Comunista Francês) (Citações retiradas daqui.)
O PAPA EM FRANÇA: Este papa, como todos os papas, é um inimigo da laicidade. Como parece mal dizê-lo frontalmente, o artista anteriormente conhecido como Ratzinger entrega-se periodicamente a exercícios de contorcionismo retórico em que, fingindo elogiá-la, critica com aspereza a laicidade, a verdadeira laicidade, aquela que impõe uma separação estrita entre Estado e Igreja e recusa qualquer contaminação entre religião e esfera pública. Não me surpreende que Bento XVI exalte a "laicidade positiva" preconizada por Nicolas Sarkozy, porque esta é uma pseudo-laicidade conivente, que procura relativizar a lei da separação de 1905, e que cai como sopa no mel do Vaticano que nunca perdoou à França ter-se escapado do redil cristão. Mais de 100 anos depois, palavras como estas, da encíclica de Pio X "Vehementer Nos", continuam a encontrar na Santa Sé uma caixa de ressonância muito favorável: «Qu'il faille séparer l'Etat de l'Eglise, c'est une thèse absolument fausse, une très pernicieuse erreur. Basée, en effet, sur ce principe que l'Etat ne doit reconnaître aucun culte religieux, elle est tout d'abord très gravement injurieuse pour Dieu, car le créateur de l'homme est aussi le fondateur des sociétés humaines et il les conserve dans l'existence comme il nous soutient.» Quanto à recepção oficial com que Bento XVI foi honrado, nenhum dos dois argumentos que a poderia justificar possui consistência. Se as honrarias se devem à sua condição de chefe de estado, então torna-se necessário relembrar que o Vaticano é um estado de duvidosíssima legitimidade, uma herança dos estados papais que ajudaram a desestabilizar a política europeia durante séculos, e cujo estatuto de soberania resulta de negociações com Mussolini que culminaram no habilidoso tratado de Latrão. Trata-se, bem entendido, de uma monarquia teocrática absoluta, sem uma amostra de democracia a não ser o folclórico conclave (ao qual, que me conste, não costumam ter acesso observadores internacionais), e sem separação de poderes. É preciso acrescentar mais? Se os rapapés oficiais são uma forma de reconhecimento do poder espiritual do papa, e da sua condição de mentor de milhões de católicos, então o que há a dizer é que os cidadãos Sarkozy e Bruni têm todo o direito de acolher e honrar todos os cardeais, imãs, rabinos, arquimandritas, monges e gurus que lhes apetecer - mas apenas fora das horas de expediente, e não em nome de quem elegeu o presidente e de quem ele representa.
NÃO TÃO ESQUECIDOS QUANTO ISSO: No número de Setembro da revista "Ler", João Pereira Coutinho menciona um livro ("The Rest Is Noise: Listening to the Twentieth Century", de Alex Ross, Farrar, Straus and Giroux) "que faz justiça a certos nomes injustamente ignorados, ou até ridicularizados, como Sibelius ou Samuel Britten". Não me consta que Sibelius seja um compositor ignorado, muito menos ridicularizado. Julgava-o reconhecido como um dos sinfonistas mais brilhantes do século XX. A edição de 2002 do "Penguin Guide to Compact Discs" dedica-lhe 20 páginas, contra apenas 11 para Debussy e 10 para Bruckner. Mas as modas, como todos sabemos, são voláteis, e pode ser que ele tenha deslizado para um ponto tragicamente baixo de popularidade sem que eu tenha dado por isso. Quanto a Samuel Britten, há uma excelente razão para ser ignorado: nunca existiu. Suponho que João Pereira Coutinho se queria referir a Benjamin Britten, ou talvez a uma quimera conceptual composta pela cabeça de Britten e pelo corpo de Samuel Barber. Em todo o caso, estes compositores estão longe de ser ignorados, parece-me, mas os mesmos caveats do parágrafo anterior aplicam-se aqui.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na estação de metropolitano do Campo Grande, um cavalheiro lia, de pé, uma tradução inglesa dos contos de Andersen.

domingo, setembro 07, 2008

TODOS LOUCOS PELA POLÓNIA: Há quem critique o Prof. Cavaco Silva por se alhear da condição profunda das gentes do país a cujos destinos preside. Estas vozes críticas foram obrigadas a calar-se (esperemos que de forma duradoura) quando, com o desassombro que dele é apanágio, o Prof. Cavaco declarou, numa sua recente visita de Estado, que a Polónia "está na moda" em Portugal. É preciso que um presidente esteja sintonizado com a sociedade civil, e com os seus cidadãos, para ousar fazer asserções com este alcance de forma tão tranquila; um presidente que conheça a realidade de um Portugal onde a Polónia, inegavelmente, faz furor em todos os sectores. Ele é cidadãos anónimos a recitar versos de Adam Mickiewicz nos transportes públicos, ele é cursos de polaco a debaterem-se com excesso de lotação (ao passo que idiomas obsoletos, como o inglês e o francês, perdem popularidade com uma rapidez arrepiante), ele é ementas de restaurante repletas de alternativas apetitosas como sopa de beterraba, sopa de pepino, costeletas de porco panadas, pato assado com maçãs, panquecas de batata com natas, folhas de couve recheadas com carne picada, salsicha de sangue com papas de cereais, bolo de queijo fresco e bolo recheado de sementes de papoila, ele é ciclos de cinema dedicados a Andrzej Wajda e Krzysztof Kieslowski, com filas tão grandes que dão a volta ao quarteirão, ele é agências de viagens a lançar pacotes para satisfazer a crescente procura de destinos turísticos na Polónia, em detrimento de Londres, Roma e Varadero... Deixando agora a ironia aconchegada no seu cantinho: há que traçar a fronteira entre a diplomacia e o puro delírio hiperbólico, e o presidente da República, com esta declaração, prestou um estimável contributo para esta tarefa topográfica.

sábado, setembro 06, 2008

JURISPRUDÊNCIA NOBRE GUEDES: Na verdade, este blog acabou há mais de um ano. Eu é que não o tinha revelado a ninguém. Se o Paulo Portas tem este direito, porque não eu?
CINEMA: Enquanto não chega a altura de escrever, em termos elogiosos, sobre "Aquele Querido Mês de Agosto", deixo apenas um apontamento. Este apontamento, para usar uma expressão útil e consagrada pelos cânones, "vale o que vale". Algumas filas atrás de nós, antes de começar a sessão, uma senhora falava ao telemóvel, e explicava ao seu interlocutor que ia ver um filme português "que teve cinco estrelas no Expresso". Um ponto a favor daqueles que acham que a crítica tem uma influência palpável nos comportamentos dos frequentadores das salas de cinema.