domingo, junho 28, 2009
quarta-feira, junho 17, 2009
terça-feira, junho 16, 2009
MORANGOS COM AÇÚCAR: Nesta série da TVI, tão do agrado do público mais jovem, muito pranto e ranger de dentes se tem feito ouvir, por causa de um acidente da responsabilidade do António, alcoólico em vias de recuperação. A Beatriz, que ia com o António, sofreu ferimentos que deixaram sequelas, sob a forma de uma alegada cicatriz no pescoço. Digo "alegada" porque, não obstante todos os meus esforços nesse sentido, nunca consegui ver a cicatriz. A cicatriz deveria ser desfigurante, a ponto de justificar todas as recriminações que o António dirige a si mesmo, mas não se vê. Chego ao ponto de ver abaladas as minhas certezas quanto à existência da cicatriz, sendo obrigado a refugiar-me na fé. Chego ao ponto de comparar o estatuto ontológico da cicatriz com o da bola de ténis da sequência final de "Blow Up", de Michelangelo Antonioni.
AND NO MORE TURN ASIDE AND BROOD/UPON LOVE'S BITTER MYSTERY: O Bloomsday original foi há 105 anos. Hoje foi dia de andar com uma batata num dos bolsos, e com uma carta pseudónima noutro bolso, e de caminhar pela praia de olhos fechados, e de comer rim de porco ao pequeno-almoço e pão com queijo ao almoço e de beber cacau à ceia. E de olhar com secreto despeito para todos aqueles que, na convicção de ser este um dia igual aos outros, não se entregaram a estes rituais.
domingo, junho 14, 2009
RECORDAÇÕES DE PARIS (7): A música tocada ao vivo nos transportes públicos era, regra geral, de fraca qualidade, repetitiva e interpretada sem paixão. Foram poucas as ocasiões em que dela retirei genuíno prazer. Uma dessas vezes ocorreu num dos muitos trajectos Paris-Orsay que efectuei. Um guitarrista solitário tocou e cantou "Don Juan", que é desde então uma das minhas canções preferidas de Brassens.
Gloire à qui freine à mort, de peur d'ecrabouiller
Le hérisson perdu, le crapaud fourvoyé
Et gloire à don Juan, d'avoir un jour souri
A celle à qui les autres n'attachaient aucun prix
Cette fille est trop vilaine, il me la faut
RECORDAÇÕES DE PARIS (6): Dos 15 dias que passei na residência de estudantes dinamarqueses, na Cité Universitaire, recordo sobretudo duas coisas: a vaga de calor que Paris atravessava, por essa altura, e os dois únicos CDs que tinha comigo ("Impromptus", de Schubert, por Radu Lupu, e uma antologia de France Gall).
Havia também umas uvas deliciosas, precioso auxiliar na luta contra o calor e a sede.
quinta-feira, junho 11, 2009
WHAT'S NOT TO LIKE ABOUT THESE GUYS?:
Não era precisa (mas lá que ajuda ajuda) a expressão destas afinidades electivas, com destaque para a número 3, para eu gostar dos Nature Theater of Oklahoma. Bastava ter visto "Romeo and Juliet" a produção que trouxeram recentemente ao Teatro Maria Matos. "Romeo and Juliet" baseia-se em conversas em que era pedido aos interlocutores que contassem, de memória, o enredo da peça de Shakespeare. Num autêntico golpe de génio, os actores (magníficos Anne Gridley e Robert M. Johanson) dão voz a essas conversas, às hesitações, tropeços e fantasias típicas de quem se tenta recordar de uma história (aprendida outrora, na juventude, no liceu...) com a ênfase e a dicção de actores Shakespeareanos, um tudo-nada cabotinos. O efeito de distanciamento é desconcertante. Em vez do amor entre Romeu e Julieta, em vez da Verona dos Capuletos e dos Montecchios, o que é trazido à cena é a tragédia processada pela falível memória humana, pela invenção, pelo esforço inglório de reconstrução de um enredo de que apenas restam algumas balizas, uma ou outra personagem, um punhado de citações, alguma cena mais forte (a varanda, sempre a varanda). A aposta é claramente ganha: recordo-me de poucas peças em que um efeito cómico imediato (muito se riu na plateia completamente cheia, nessa noite) seja conjugado de forma tão feliz com a inteligência formal.
(Sentir-me-ia mal com a minha consciência caso não deixasse uma palavra de apreço para a terceira personagem da peça: um ponto vestido de ave que parecia saída da Rua Sésamo. A sua dança silenciosa arrancou algumas das mais sonoras gargalhadas da noite.)
segunda-feira, junho 01, 2009
terça-feira, maio 26, 2009
«ESSES PRINCÍPIOS SÃO AQUELES A QUE A SOCIEDADE ATÉ HÁ POUCO CHAMAVA "PORCALHÕES"»: Depois desta primeira investida, não percam "João César das Neves contra os pedagogos do coito e do deboche", em versão redux.
Quando João César das Neves finalmente se imolar em público, em jeito de protesto final contra este século libertino, as segundas-feiras perderão o seu único motivo de encanto.
YLANG YLANG: Naquilo que julgo ser uma jogada de marketing inédita, o detergente Surf monopolizou os espaços publicitários de todo o metropolitano de Lisboa (ou pelo menos da linha verde, que é a que eu mais frequento). A concorrência que se cuide. Este golpe de publicidade é obviamente eficaz, pois eu próprio sinto agora vontade de comprar detergente Surf ("pequeno & poderoso"), hesitando apenas entre os aromas Ylang Ylang com Flores Tropicais e Limão com Flores do Campo. Ariel, Skip, Omo e demais perderam a sua aura, e aparecem-me completamente ultrapassados.
TRÁGICA COINCIDÊNCIA: No espaço de poucas semanas, desapareceram o maior divulgador de cinema de animação em Portugal das últimas décadas (Vasco Granja) e o maior divulgador de cinema tout court (João Bénard da Costa). Esperemos que a hecatombe se fique por aqui.
Não juntei a minha ao coro de vozes que prestaram homenagem a Vasco Granja, mas devia tê-lo feito. A minha infância (como a de 99,99 % dos meus coevos) ficou marcada pelas emissões que ele protagonizava, como discreto e amigável mestre de cerimónias, ao mesmo tempo cúmplice e didáctico.
A cinefilia de Vasco Granja não se confinava aos bonecos animados. Possuo (e li com gosto) um livro de sua autoria, sobre o realizador Dziga Vertov.
(Vertov foi responsável por um dos mais maravilhosos títulos da história do cinema: "Lenin habita no coração do campesinato".)
domingo, maio 24, 2009
JOÃO BÉNARD DA COSTA (1935-2009): Num divulgador, num homem vocacionado para formar gostos e hábitos culturais, o carisma e uma certa dimensão maior do que a vida são virtudes de peso. João Bénard da Costa possuía estas duas características e sabia fazer uso delas. Felizmente para todos nós, ao impacto único da sua presença (voz, silhueta, postura) vinham juntar-se a visão, a tenacidade que fez da Cinemateca aquilo que hoje ela é e o talento de falar sobre filmes com uma mistura única de paixão e erudição.
Concordei com algumas das críticas que iam sendo feitas ao seu modo de dirigir a instituição a que presidia, achei escusadas e pouco abonatórias algumas das atitudes que assumiu em polémicas recentes, em particular a que rodeou a sua recondução mau grado o limite de idade. Nada disso importa agora. A obra que deixou não é comensurável com eventuais deslizes, excessos ou despropósitos. Aquilo com que não posso concordar é que, na hora do desaparecimento de um homem com a estatura de João Bénard da Costa, alguns (decerto com as melhores intenções do mundo) julguem que a melhor maneira de lhe prestar homenagem é através de enormidades como "Morreu o cinema" , "O cinema português deve-lhe tudo" e outras do mesmo jaez. A partir de uma dada fasquia de absurdo, a hipérbole, em vez de engrandecer, ofusca o verdadeiro valor do homenageado.
Restam os filmes. Resta vê-los e revê-los, sempre.
"A Lenda da Fortaleza de Suram", de Sergei Paradzhanov, um dos primeiros filmes que vi na Cinemateca.
quarta-feira, maio 20, 2009
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um dia em cheio na estação de metro de Telheiras. Uma dama lia "Life on the Mississippi", de Mark Twain. Um cavalheiro lia "La Vieille Dame de Bayeux", de Georges Simenon, integrado numa antologia "Tout Maigret".
Telheiras: menospreze-a se quiser, mas faça-o por sua conta e risco!
domingo, maio 17, 2009
RECORDAÇÕES DE PARIS (2): Comprar uma televisão com vídeo incorporado, num centro comercial da Place d'Italie. Transportá-la para casa, subestimando idiotamente o esforço necessário para tal, no dia de abertura do Mundial de futebol 1998. Chegar a casa com os braços tão doridos que mal fui capaz de compor o código de acesso ao edifício, mas a tempo de assistir à segunda parte do Brasil-Escócia (vitória do Brasil por 2 a 1).
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