OUTRA VEZ NADA DE NOVO: Segui
esta polémica com alguma náusea, nenhuma surpresa. Ao contrário do que sucede com outras artes, são raros os que hesitam em opinar sobre cinema. Para o melhor e para o pior, o cinema transborda da cultura popular para o domínio artístico e vice-versa, e talvez seja este esbater de fronteiras que dá coragem a cada espectador para emitir sentenças com alacridade. Isso seria excelente, e muito democrático, se esse à-vontade não fosse acompanhado, tantas vezes, pelo impulso de zurzir na crítica especializada, acusados de elitismo e de irem sistematicamente contra o gosto do público (ou das "massas", para usar a terminologia
deste inenarrável post). Essa acusação não é apenas injusta e descabida: quem a faz ignora olimpicamente a evolução das grandes tendências críticas do cinema contemporâneo (de que todos os críticos, ou pelo menos os que vale a pena ler, são devedores, em maior ou menor grau). Ignora que, longe de se fechar numa torre de marfim, a crítica de cinema tem-se desenvolvido muito ao sabor da apreciação e (re)avaliação das grandes tendências do cinema popular e de entretenimento (série B americana,
westerns,
polars, musicais, cinema asiático de artes marciais...). Ignora, acima de tudo, que um crítico é uma pessoa a quem, salvo evidências claras de má-fé, se deve atribuir o benefício da dúvida, e que não retira especial prazer de dizer mal daquilo de que a maioria gosta.
Admiro a paciência com que João Lopes continua, ano após ano, polémica após polémica, a tentar argumentar contra a leviandade daqueles que incorrem neste (e noutros) lugares comuns. Receio, porém, que esforços como este sejam baldados. Existe uma tendência (que o crescimento do fenómeno dos blogs só veio agravar) para que certas ideias feitas ganhem aceitação devido ao número de vezes que são repetidas, apesar da falta de correspondência com a realidade. Essas ideias falaciosas tornam-se virtualmente impossíveis de falsificar, uma vez que quaisquer argumentos contra elas serão desacreditados pela simples intensidade da vozearia. Essas ideias ganham popularidade porque é cómodo e isento de risco aderir a elas. Uma dessas ideias é precisamente esta:
- Os críticos dizem sempre mal dos filmes populares.
Existem muitas outras, como por exemplo (um autêntico campeão de vendas):
- Os ateus também são crentes, porque crêem na não existência de Deus.
Tudo isto teria reduzida importância se não se desse o caso de estas guerras de alecrim e manjerona ocuparem o espaço e o tempo que poderia ser empregue a discutir questões, essas sim, essenciais. Por exemplo: quais as condições, na imprensa escrita portuguesa actual, para o desenvolvimento de um discurso crítico sério sobre cinema, continuado, não espartilhado pelas contingências do calendário de estreias?