sexta-feira, agosto 14, 2009

O LADO NEGRO DA FORÇA: O país, boquiaberto, ficou a saber que no blog 31 da Armada coexistem várias alas, entre as quais uma ala monárquica. E o que decidiram fazer os elementos desta ala, para sair do deprimente anonimato em que viviam? O que empreenderam para promover as suas ideias? Fundaram um partido ou um movimento? Distribuiram panfletos no metropolitano? Convocaram uma flash mob? Nada disso. O ar da sua graça assumiu a forma da substituição da bandeira hasteada na Câmara Municipal de Lisboa por uma bandeira da monarquia. Com esta garotice, ainda para mais perpetrada com uma máscara de Darth Vader(para desencorajar aqueles que ainda alimentassem a veleidade de os levar a sério), os irrequietos monárquicos trivializaram a sua causa e forneceram uma prova adicional de que hoje em dia, em Portugal, não existe uma questão de regime. Estando a defesa da monarquia entregue a folgazões inofensivos com vocação para homem-mosca, a um partido sem expressão (PPM) e a espécimes como os manos Câmara Pereira, a República pode dormir descansada. Claro está que alguma da nossa imprensa, ávida de irrelevâncias, não se ensaiou nada para ver neste pseudo-evento um trampolim para o relançamento do debate sobre a monarquia. Espanta ainda menos que o cidadão Bragança tenha sucumbido à tentação de apanhar a boleia desta frágil barcaça. Ainda falta muito para acabar a silly season?
SPEAKING IN TONGUES: José Mourinho já fala melhor italiano do que alguma vez falou inglês. Dá gosto ouvi-lo alardear o seu mau perder e a sua má fé com uma fluência que ele nunca demonstrou nos seus anos do Chelsea. O emprego da palavra "consapevole" impressionou-me particularmente.

MORANGOS COM AÇÚCAR - CELEBRAR A FESTA DA VIDA É SER RADICAL:

  • O Lucas é o vilão menos convincente da história dos "Morangos". Volta, Guga, estás perdoado.
  • O Vicente aplicou um gancho de direita ao Gonçalo, indignado por este nutrir sentimentos ternos pela sua (do Vicente) mãe, interpretada pela Sylvie Rocha. Sucede que o Gonçalo ficou com um lanho no sobrolho direito, o que me parece carecer cruelmente de verosimilhança.
  • Todas as personagens que estão a curtir as férias em Portimão mudam de roupa todos os dias, e raras vezes repetem uma peça de vestuário. Como é isto possível?.

segunda-feira, julho 27, 2009

CINEMA: No filme "Roma", de Fellini, também não há palavra "fim". Há uma longa e inquietante sequência final que mostra um enxame de motorizadas a percorrer as artérias romanas, e depois o filme acaba. A última bobina chega ao fim e o ecrã deixa de estar iluminado. As pessoas vão-se embora. E é tudo.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um jovem lia "The Picture of Dorian Gray", de Oscar Wilde, numa carruagem que fazia serviço na linha verde do metropolitano. Em Lisboa.
AH, E A SANDUÍCHE DE SUSHI FOI UMA CRUEL DECEPÇÃO: Serei eu o único a pensar que Joanna Newsom não é uma escolha feliz para fundo musical do programa "Entre Pratos", de Henrique Sá Pessoa?
LIDO NO "DESTAK" DE HOJE: A Igreja de S. Sebastião (Almada), que não funciona como espaço de culto desde o século XVIII, reabriu este fim de semana. Segundo o bispo de Setúbal, a igreja é «um desafio para a construção da cidade, de Setúbal e do mundo». Os próximos tempos dirão se o mundo está preparado para o desafio da igreja de São Sebastião.

quinta-feira, julho 23, 2009

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma jovem lia "Os Jogos e os Homens", de Roger Caillois, na linha amarela do metropolitano. Também na linha amarela, mas noutra carruagem, uma jovem lia "As Velas Ardem até ao Fim", de Sándor Márai.

terça-feira, julho 14, 2009

LIBERDADE IGUALDADE FRATERNIDADE: Um símbolo vale aquilo que vale. Um símbolo tem o potencial de aniquilar e trivializar a realidade que simboliza. Reduzir a Revolução Francesa à tomada da Bastilha implica ignorar a teia de episódios, pessoas e movimentações que, durante anos, nesse virar do século XVIII para o XIX, forjaram a natureza das sociedades modernas, e fizeram emergir valores nos quais ainda hoje nos reconhecemos. Que fazer, então de um símbolo? Que fazer do 14 de Julho? Celebrá-lo, digo eu, não como convite à simplificação da história, mas como penhor de tudo o que de complexo, rico, exaltante e fecundo se viveu durante esse período.

Le 14 Juillet au Havre (Albert Marquet)

PLANO: Este blog já tem um plano de contingência para a gripe A.

domingo, julho 12, 2009

IMPRESSÕES DE SAN FRANCISCO (1) - THIS PLACE HAS BROUGHT "DOING YOUR LAUNDRY" TO A WHOLE NEW LEVEL: Existe um bairro em San Francisco, chamado Russian Hill, onde existe (literalmente) uma lavandaria em cada esquina. Uma delas dá pelo delicioso nome de "The Missing Sock". Os comentários dos utentes dão vontade de ir viver para San Francisco, só para poder usufruir regularmente de uma tão rica experiência de lavagem de roupa.

quinta-feira, julho 09, 2009

RELIGIONS AND SCHOOL DON'T MIX: Quem diria que o ex-ABBA Björn Ulvaeus era um tão convicto opositor da promiscuidade entre escola e religião, a ponto de assinar um artigo no "The Guardian" sobre o assunto? Uma agradável surpresa. Os argumentos são sólidos e bem conduzidos, e é difícil encontrar um com que eu não concorde. Só à conta desta revelação, dá vontade de escutar alguns êxitos dos ABBA. Já agora, aqui fica uma muito short-list dos meus temas favoritos deste grupo sueco de sucesso internacional: "Does Your Mother Know", "Dancing Queen", "Fernando", "Take Your Chance On Me", "Voulez Vous", "S.O.S.". Não deixa de ser encorajador constatar que a grande maioria dos comentários a este artigo vão no sentido da aprovação. (Via "Esquerda Republicana".)
MORANGOS COM AÇÚCAR: A Beatriz, após vários episódios de cruéis hesitações, lá decidiu submeter-se à operação plástica. A cicatriz que lhe desfigurava o pescoço desapareceu por completo. Isto não deve constituir surpresa, uma vez que a cicatriz nunca existiu, tal como oportunamente denunciei neste espaço. Não se pode eliminar uma coisa que carece da virtude de existir. A TVI empurra a suspensão da incredulidade até limites indecorosos.

domingo, junho 28, 2009

É ASSIM MESMO: «O filme não apresenta a legenda "fim". Não se trata de corte. É assim mesmo a sua conclusão.» (aviso ao espectador na folha da cinemateca do filme "O Último Tango em Paris")

quarta-feira, junho 17, 2009

Il ne sait pas si c'est le monde qui est en train de devenir rêve ou le rêve, monde. (JLGodard)

(Henri Matisse, "A Cortina Amarela", 1914-15)

terça-feira, junho 16, 2009

MORANGOS COM AÇÚCAR: Nesta série da TVI, tão do agrado do público mais jovem, muito pranto e ranger de dentes se tem feito ouvir, por causa de um acidente da responsabilidade do António, alcoólico em vias de recuperação. A Beatriz, que ia com o António, sofreu ferimentos que deixaram sequelas, sob a forma de uma alegada cicatriz no pescoço. Digo "alegada" porque, não obstante todos os meus esforços nesse sentido, nunca consegui ver a cicatriz. A cicatriz deveria ser desfigurante, a ponto de justificar todas as recriminações que o António dirige a si mesmo, mas não se vê. Chego ao ponto de ver abaladas as minhas certezas quanto à existência da cicatriz, sendo obrigado a refugiar-me na fé. Chego ao ponto de comparar o estatuto ontológico da cicatriz com o da bola de ténis da sequência final de "Blow Up", de Michelangelo Antonioni.
AND NO MORE TURN ASIDE AND BROOD/UPON LOVE'S BITTER MYSTERY: O Bloomsday original foi há 105 anos. Hoje foi dia de andar com uma batata num dos bolsos, e com uma carta pseudónima noutro bolso, e de caminhar pela praia de olhos fechados, e de comer rim de porco ao pequeno-almoço e pão com queijo ao almoço e de beber cacau à ceia. E de olhar com secreto despeito para todos aqueles que, na convicção de ser este um dia igual aos outros, não se entregaram a estes rituais.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Nos degraus de entrada da Faculdade de Belas-Artes, uma jovem lia um volume de poemas de Robert Burns, no original, assim respondendo categoricamente, e na afirmativa, à pergunta que brota de todos os lábios: será que ainda alguém lê Burns nos dias de hoje?

domingo, junho 14, 2009

RECORDAÇÕES DE PARIS (7): A música tocada ao vivo nos transportes públicos era, regra geral, de fraca qualidade, repetitiva e interpretada sem paixão. Foram poucas as ocasiões em que dela retirei genuíno prazer. Uma dessas vezes ocorreu num dos muitos trajectos Paris-Orsay que efectuei. Um guitarrista solitário tocou e cantou "Don Juan", que é desde então uma das minhas canções preferidas de Brassens. Gloire à qui freine à mort, de peur d'ecrabouiller Le hérisson perdu, le crapaud fourvoyé Et gloire à don Juan, d'avoir un jour souri A celle à qui les autres n'attachaient aucun prix Cette fille est trop vilaine, il me la faut
RECORDAÇÕES DE PARIS (6): Dos 15 dias que passei na residência de estudantes dinamarqueses, na Cité Universitaire, recordo sobretudo duas coisas: a vaga de calor que Paris atravessava, por essa altura, e os dois únicos CDs que tinha comigo ("Impromptus", de Schubert, por Radu Lupu, e uma antologia de France Gall). Havia também umas uvas deliciosas, precioso auxiliar na luta contra o calor e a sede.