terça-feira, agosto 30, 2011

ROHMER PARA SEMPRE: O seguinte texto da minha autoria esteve na base de um trabalho apresentado na exposição "Histórias do Cinema", organizado pelo clube de cinema 8 e meio, da Escola Secundária Eça de Queirós, Póvoa de Varzim.


Este conto moral é também um conto de fadas. Conduz-nos um fio nítido, através dos penhascos da moral até uma clareira de felicidade onde os dilemas se resolvem aparentemente por si só, onde as inclinações e a ética coincidem. Tanto melhor se esse lugar for luminoso e idílico como as margens do lago de Annecy no princípio do verão.


Jérôme a viver o acontecimento.


Jérôme fala num desejo puro, mas até mesmo os desejos puros são afligidos pela necessidade desgraciosa de um objecto, nem que esse objecto seja a parte mais neutra do corpo humano. O joelho de Claire reduz-se à condição de testemunho, superfície orgânica que sanciona o gesto – mau grado a demora e intensidade do afago, no abrigo solitário batido pela chuva.


Jérôme a contar o acontecimento.


As personagens de Rohmer confundem destino, vontade e acaso – quase sempre por ignorância ou inconsciência, quase nunca por malícia. Acreditam-se senhores da sua sorte, julgam produzir o seu próprio enredo e felicitam-se pelo seu engenho, ainda que o desfecho seja óbvio ou enfadonho. Preocupam-se com o efeito dos seus actos (inócuos) em terceiros. Preocupação vã... Todas as personagens desta história porfiam nas trajectórias que já eram as suas no começo. O gesto puro de Jérôme (a pele da mão contra a pele do joelho) consumiu-se a si próprio, vergado ao peso do significado que o seu autor lhe atribuiu. O antes e o depois do gesto assemelharam-se fielmente.

Este conto moral é também um conto de trevas. Jérôme apodera-se de um discurso alheio (as teorias e devaneios literários da sua cúmplice Aurora) e torna-o seu instrumento, projecção ficcional que ele concretiza ao mesmo tempo que a descreve, cobaia de si mesmo. O seu propósito não é menos condenável por ser inofensivo. Coloca-se na posição de quem se pode dar ao luxo de fazer o gesto que convém ao seu apetite, por ser o único gesto correcto. Côncavo da mão surpreendentemente ajustado ao convexo do joelho. A moral tornada redundante.



«O Joelho de Claire» («Le Genou de Claire»). Argumento e realização: Éric Rohmer. Interpretação: Jean-Claude Brialy, Aurora Cornu, Béatrice Romand, Laurence de Monaghan. França, 1970.


domingo, agosto 28, 2011

BARTHELMISMO: Em plena silly season, um excelente artigo de Rogério Casanova sobre Donald Barthelme. O que é de saudar, sobretudo nestes malfadados tempos em que a percentagem de artigos na imprensa portuguesa que não são sobre Donald Barthelme atinge níveis historicamente altos.
AS MINHAS FÉRIAS EM CAPAS:







quarta-feira, agosto 03, 2011

LONGA MARCHA: Esta é uma verdade que permanece convenientemente oculta: a longa odisseia que foi a criação da Internet, os esforços de Vint Cerf, Tim Berners-Lee e tantos outros, a Arpanet, o desenvolvimento de protocolos como o TCP/IP, a manutenção da vastíssima infraestrutura de servidores, tiveram como fim supremo a possibilidade de todo e qualquer cidadão poder escutar, quando bem entender, a interpretação que Magdalena Kožená faz de "Erbarme dich" (J.S. Bach, "Paixão segundo S. Mateus").

domingo, julho 31, 2011

JOGO DE REIS E DE LITERATOS (2): Na sequência disto: há também um "gabrielconroy" a assombrar as salas de chat sobre xadrez.
VOCÊ SABE QUE ESTÁ NUMA COMPANHIA AÉREA FRANCESA QUANDO...: ...quando é posta à disposição do passageiro a possibilidade de, em pleno voo, descarregar um podcast sobre Walter Benjamin e cinema.

(Autêntico. Na Air France.)
FAMA E PROVEITO: Leitor, se te assalta a tentação de experimentar um gelado na famigeradíssima Santini, mas hesitas devido ao receio de que sejam mais as vozes que as nozes, pois bem, segue o meu conselho: não hesites. Vai lá quanto antes. No passado fim-de-semana, os maravilhosos sabores "dulce de leche" e "framboesa com limão" aplicaram às minhas terminações gustativas um tratamento de VIP que irá perdurar na memória. Na minha vida, haverá um antes e um depois de comer gelado de "dulce de leche" na Santini.

terça-feira, julho 26, 2011

TÍTULO: O melhor título da história do cinema português? "Relação Fiel e Verdadeira" (Margarida Gil).
JOGO DE REIS E DE LITERATOS: Como tenho tempo livre para dar e vender, sucede-me frequentar chats de xadrez. Sou forçado a concluir que o adepto médio de xadrez possui uma cultura artística notável. Já li nesses chats referências ao mito de Édipo e a Ingmar Bergman, e não pude deixar de notar, com um trejeito apreciativo no rosto, nicks como "chichikov" e "ferdinand bardamu".

domingo, julho 24, 2011

MORANGOS COM AÇÚCAR: Os espectadores fiéis dos "Morangos" sabem que a suspensão de incredulidade é para usar sem parcimónia. Questionar a verosimilhança das peripécias ao sabor das quais navegam os alunos da Dom Sebastião não leva ninguém a lado nenhum. Faz parte do contrato; aceita-se de bom grado, não sem um prazer secreto. Mas isto não significa que não existam limites. Cada um traça os seus, e receio bem que os meus acabem de ser violentados com esta história do "dote" que o pai da Sandra obrigou o Ravi a esportular para poder ficar com ela. A feira de antiguidades que se perfila no horizonte, com o nobre propósito de angariar fundos para este casal desgraçado, funciona na perfeição como cereja no bolo.

quinta-feira, julho 14, 2011

14 DE JULHO: É este o dia do ano em que não preciso de desculpas para ser francófilo (não é que nos restantes dias me preocupe muito com desculpas, mas enfim).

Viva a França! Vivam o queijo camembert e a tarte Tatin, Platini e Zidane, Balzac, Proust, Perec, Valéry e Apollinaire, Juliette Binoche, Isabelle Huppert, Rivette e Rohmer, a torre Eiffel e as praias da Vendeia, Cézanne e Degas, Georges Brassens e France Gall!

Vivam a Liberdade a Igualdade e a Fraternidade, os valores que sempre estiveram associados a este dia e que têm resistido a gerações de cépticos, antagonistas e revisionistas.


Cézanne, "Le Viaduc à l'Estaque".

quarta-feira, julho 13, 2011

DO QUE ELES PRECISAM É DE AMOR:



"Moody's Mood for Love", um tema recentemente popularizado por Amy Winehouse, aqui na versão de Georgie Fame. Merece no mínimo rating AAAA++++.
MY MAN JAN!:

I like the classics of Russian literature, above all Dostoyevsky and Tolstoy. I also love South-American literature, especially Borges, and I also wrote an essay about him. Other favourite writers are Kafka and, among Italian writers, Italo Svevo: he didn’t write many books but those few books were really excellent, like Confessions of Zeno.

(Excerto de uma entrevista a Jan Timman, grande-mestre de xadrez de nacionalidade holandesa, várias vezes campeão nacional e candidato ao título de campeão do mundo. Negrito meu.)

segunda-feira, julho 11, 2011

O QUE NÃO NOS É DITO:

"Canos justapostos - o que não nos é dito." (Título de primeira página de uma revista sobre caça.)

Um dia, virá ao de cima toda a verdade sobre os canos justapostos, e não ficará pedra sobre pedra.
IMPRESSÕES DO QUÉBEC (2) E LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na estação rodoviária central de Montréal, uma leitora lia "Tristes Tropiques", de Claude Lévi-Strauss. Foi ela quem me informou de que a fila onde estava era para Sherbrooke, e não para o aeroporto. Não me perguntem porquê, mas acho reconfortante saber que se lê Claude Lévi-Strauss em Sherbrooke, Québec.

segunda-feira, julho 04, 2011

IMPRESSÕES DO QUÉBEC (1): A divisa da província do Québec é uma das mais belas que conheço: "JE ME SOUVIENS". Nada a acrescentar nem a retirar.


Q&A: O Eremita descobriu uma maneira de anunciar que não gosta de mim que de subtil não tem nada. Mas seja. Vamos, pois, responder a este inquérito.



1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Esse livro existe. "Adrian Mole and the Weapons of Mass Destruction", de Sue Townsend.

2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

Quando começo um livro é para ler até ao fim, altura em que paro de o ler. "Tentaste e tentaste" é giro.

3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?


O pai do Adrian Mole dizia que, depois de ter lido "Fernão Capelo Gaivota", toda a literatura se tornava redundante.

4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme...

5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?

Bem, há as linhas finais do "Daisy Miller", que contêm o eufemismo mais cínico e (bizarramente) mais comovente da história da literatura:

Winterbourne almost immediately left Rome; but the following summer he again met his aunt, Mrs. Costello at Vevey. Mrs. Costello was fond of Vevey. In the interval Winterbourne had often thought of Daisy Miller and her mystifying manners. One day he spoke of her to his aunt--said it was on his conscience that he had done her injustice.

"I am sure I don't know," said Mrs. Costello. "How did your injustice affect her?"


"She sent me a message before her death which I didn't understand at the time; but I have understood it since. She would have appreciated one's esteem."

(...)

Negrito meu.

6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

Foi há muito tempo, já não me lembro.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

"The Famished Road" de Ben Okri, "Le Troisième Bonheur" de Henri Troyat, "Rendez-vous au Colorado" de Philippe Labro e mais uns poucos. Ver pergunta 2.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Ah ah, que piadinha.

9. Que livro estás a ler neste momento?

William Hazlitt, "Liber Amoris". Crónica de um descalabro amoroso.

10. Indica dez amigos para o Meme Literário.

Isso é que não, meme que entra neste blog já dele não sai.

E assim se conclui a resposta a este inquérito.
«EU NÃO PROCURO, EU ENCONTRO» (PICASSO?): Um leitor chegou recentemente ao 1bsk ao fazer uma pesquisa com as palavras "conferência sanitária de veneza 1897". Um outro (ou talvez o mesmo) chegou até este garrido quiosque em busca de informação sobre "incompatibilidade de feitios nos morangos com açúcar". Sejam todos bem-vindos, sem excepção! Não há más razões para ler este blog. O Lourenço e a Marta andam outra vez de candeias às avessas, mas o verão será longo e ninguém de bom senso duvida que eles acabarão nos braços um do outro.

domingo, junho 19, 2011

ONDE ESTÃO ELES?: Onde estão os ficcionistas portugueses "obedientes à cartilha de Robbe-Grillet"? Onde estão esses que, a julgar por numerosas críticas e ensaios, representam a regra, contra a qual ousam erguer-se uns poucos contadores de hístórias, escorreitos, no-nonsense, cinematográficos, filo-anglo-saxónicos? Por mais que procure nos escaparates, nunca tive o prazer de os encontrar.

Quem me dera que o panorama da ficção portuguesa estivesse repleto de seguidores de Robbe-Grillet, quem me dera que "Pour Un Nouveau Roman" fosse a cartilha de toda uma geração. Quem me dera que o modernismo, o experimentalismo, a meta-ficção tivessem influenciado a narrativa escrita em Portugal em vez de se limitar a beliscadelas ocasionais.