terça-feira, janeiro 31, 2012

THINKING OUTSIDE THE BOX: Dizem-nos para sairmos da nossa zona de conforto, pedem-nos ideias brilhantes para melhorar Portugal. Pois bem, o que eu proponho é muito simples: não só manter o 5 de Outubro como feriado, mas adicionar à lista de feriados o 31 de Janeiro, data da revolta republicana na cidade do Porto.

Chama-se a isto pensamento lateral, chama-se a isto agir em contra-ciclo. Não sei se merece uma petição online.

PS - Ainda não chegou o momento de dizer tudo aquilo que penso sobre a tragicomédia da eliminação de feriados, mas isso não tardará.
NUVENS PASSAGEIRAS: Independentemente dos seus contornos legais, o caso do encerramento do site Megaupload só veio alimentar as minhas dúvidas sobre as virtudes do armazenamento de dados em nuvem, pelo menos quando aplicado aos particulares. Neste momento, muitos utilizadores vêem-se impossibilitados de aceder a ficheiros perfeitamente legais que julgavam estar em segurança. Ceder aos cantos imateriais da etérea nuvem, trocar segurança por mobilidade e acessibilidade, tem riscos associados, e sempre os terá (digo eu, na minha ignorância de leigo). Ainda está por inventar um substituto à altura para o bom e velho disco externo USB. Cabe no bolso, resiste aos choques e vai connosco para onde quisermos.
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS:
  1. Na linha verde do metropolitano de Lisboa, uma leitora lia o "Diário de um Pároco de Aldeia", de Bernanos, na edição antiguinha da Verbo (livros RTP).
  2. Mesmíssima cidade, mesmíssimo meio de transporte, mesmíssima linha: um leitor lia "Húmus", de Raul Brandão.
Os preços dos transportes sobem a galope, mas dir-se-ia que os leitores dos transportes públicos aumentam o seu frenesim bibliófilo em sintonia com esse galopar!

quarta-feira, janeiro 25, 2012

TANTAS PÁGINAS: Este é um blog sobre livros & demais coisas úteis. Recomendado, obviamente.

terça-feira, janeiro 17, 2012

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Um dia em cheio! Na linha verde do metropolitano, uma leitora lia "Os Anões", de Harold Pinter. Junto à Escola Básica 2+3 Prof. Delfim Santos, ao Alto dos Moinhos, um leitor lia "Na Minha Morte", de William Faulkner, e fazia-o enquanto, lesto, caminhava.

Se a leitura ambulatória de Faulkner em plena via pública não merece 50 pontos de bónus, pergunto-me: o que é que merece 50 pontos de bónus?

Estas observações ofuscam sem apelo nem agravo a de há uns dias atrás ("Midnight's Children", de Salman Rushdie, na linha verde.)

sábado, janeiro 14, 2012

THE UNBELIEVABLE TRUTH (*): Esta é uma das mais desconcertantes ilusões de óptica que já vi. Qual dos quadrados é mais escuro, A ou B? Por incrível que pareça, ambos têm a mesma intensidade. O olho humano é, deveras, um sistema de uma subtileza assombrosa.


Ver explicações aqui e aqui.

(*Pequena homenagem a Hal Hartley.)

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Uma leitora lia "O Crime de Lord Arthur Savile", de Oscar Wilde, no metropolitano. Eu nunca li.

quarta-feira, janeiro 11, 2012

PARENTAL GUIDANCE: O DVD com os filmes "7th Heaven" e "Street Angel", de Frank Borzage, contém "moderate violence and references to prostitution". Encarregados de educação deste país, protejam os vossos rebentos dos malefícios do cinema mudo!


sábado, janeiro 07, 2012

DA FIDELIDADE AOS CEREAIS: Ninguém segura Henrique Raposo, que agora parece apostado em reinventar a literatura universal. De "À Espera no Centeio", de Salinger, faz "À Espera do Centeio", deixando-nos ansiosos pelo momento em que nos revelará as suas opiniões sobre "Aguardando a Cevada", "Nostalgia pela Aveia", "Uma Devastadora Saudade do Milho-Painço" e outras obra-primas de quilate comparável.

terça-feira, janeiro 03, 2012

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS - ERRATA: Um leitor atento, para quem vão os meus agradecimentos, assinalou que Thomas More escreveu "Utopia" em latim. Assim, esta leitura não foi em versão original, mas sim na tradução inglesa. Mais uma má notícia para juntar às que jorram sem cessar sobre este país desgraçado.
OS VOTOS DO COLECTIVO (com um C bem presente, bem firme e bem hirto - abaixo o acordo ortográfico!!!): Este blog deseja a todos os seus leitores, amigos, afilhados, relações distantes, advogados, credores, admiradores, caluniadores, et caetera, um ano de 2012 mesmo muito bom. (Inserir aqui mensagem de esperança e confiança na tendência secular de o povo português se ultrapassar em momentos de crise.)

domingo, dezembro 18, 2011

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na plataforma da estação de metro do Campo Grande, uma leitora peripatética lia "A Peste", de Camus. Parecia estar no início da leitura. Os cidadãos de Orão ainda têm muitas provações pela frente.
O TRIGO DO JOIO: Numa recente venda de livros em segunda mão no Institut Franco-Portugais, após alguns pacientes minutos dedicados a esgravatar entre camadas de romances populares, manuais de línguas antigos e obscuros opúsculos de ciências sociais, lá consegui desencantar dois livros que me fizeram abrir os cordões à bolsa: "L'Église Verte", de Hervé Bazin, e o 2º volume de "Nouvelles en Trois Lignes", de Félix Fénéon, a dois euros cada. O rapaz que me atendeu examinou os livros e, sorridente, proferiu a sentença: «Vous avez trouvé les bons bouquins». (Ou será "trouvés"? As concordâncias da língua francesa são o inferno.)

sexta-feira, dezembro 16, 2011

REGRA DE OURO: Inscrever um limite para o défice na constituição? Que ideia de génio. É já a seguir. E porque não um limite para a inflação, para as importações, para o consumo de lápis de mina preta na administração pública e para o preço do papo-seco?

E onde estão todos aqueles, outrora tão ruidosos, que defendiam uma constituição minimalista composta por meia-dúzia de artigos e um punhado de emendas, à boa maneira americana? Que é feito do seu vigor argumentativo, do seu viço e do seu ímpeto?
LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: O dia de ontem foi um bom dia. Na estação de metropolitano do Campo Grande, uma leitora lia "A Harpa de Ervas", de Truman Capote. Na carruagem, a caminho de Telheiras, um leitor lia "Utopia", de Thomas More, em versão original.

Leitores em lugares públicos, o mundo pertence-vos!

domingo, dezembro 04, 2011

FERIADOS: Estou à espera que o meu índice de indignação pessoal baixe para níveis compatíveis com a produção de uma prosa livre de grosserias, antes de escrever o que penso sobre o projecto de eliminação dos feriados. Enquanto isso, limito-me a transcrever opiniões alheias que subscrevo:

A 1 de Dezembro de 1640 o Secretário de Estado, Miguel de Vasconcelos, representante da coroa espanhola em Portugal, era defenestrado pelos revoltosos. Com esta revolta, começava a mais longa época da nossa História (a 4ª dinastia), e Portugal voltava a ser um Estado totalmente independente. O rumo do país voltou a ser decidido em Lisboa, em detrimento de Madrid.


A 8 de Dezembro de 1854, Giovanni Maria Mastai-Ferrett decreta em Roma, que de acordo com a sua interpretação dos evangelhos canónicos (escritos 17 ou 18 séculos antes) tem a certeza, que a concepção de Maria foi feita sem pecado original.

 Em 2012, o Estado Português e os Portugueses celebrarão o segundo acontecimento. O primeiro não.
(Miguel Carvalho)


(Na realidade, a Imaculada Conceição já era celebrada em Portugal, e noutros países, muito antes de o papa Pio IX a ter elevado ao estatuto de dogma, mas isso não belisca o argumento central.)

E POR FALAR NO EURO...: Se o euro acabar, o que acontecerá às moedas de chocolate? As multinacionais do chocolate já terão um plano de contingência? Tudo isto são perguntas que ninguém coloca - pelo menos em público (mas imagine-se o burburinho nos corredores do poder).

ESTA NOITE VATICINA-SE: O presidente da República afirma-se seguro de que, dentro de 20 anos, o euro continuará a existir e a ser uma moeda credível.

Regra geral, evito arriscar prognósticos a tão longo prazo. Mas há excepções. Por exemplo, não duvido de que, a 4 de Dezembro de 2031, haverá ainda alguém a defender a reabertura do inquérito ao acidente de Camarate.

segunda-feira, novembro 21, 2011

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Num bar da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, um leitor e uma leitora passavam-se mutuamente um exemplar de "Wuthering Heights", apontavam páginas e frases, riam a bom rir.

Ergueu-se há uns dias um burburinho maçador por causa de uma reportagem que, supostamente, provava a colossal ignorância dos frequentadores do ensino superior nacional. (A talhe de foice: leiam aquilo que o Vasco escreve e não percam mais tempo com o assunto.) Pelo que me toca, preocupo-me mais por a nossa juventude encontrar motivo para galhofa em Emily Brontë do que por não saber quem pintou o tecto da Capela Sistina.
UM BLOG SOBRE ELE...: Cumprem-se hoje 200 anos sobre o dia em que Heinrich von Kleist, escritor, editor, ex-funcionário público e ex-militar, desiludido com a vida a ponto de entrar num pacto suicida, matou a tiro Henriette Vogel antes de atirar fatalmente sobre si mesmo. Foi nas margens do pequeno lago de Wannsee, perto de Berlim; Kleist tinha 34 anos. Escolhi Kleist para dar nome a este blog um pouco por acaso, um pouco por convicção, muito por causa de um feixe de circunstâncias da minha vida que o tempo (mais de 8 anos e meio) trabalhou mas não apagou. Agora, agradeço essa inspiração oblíqua. Kleist tem sido um patrono gentil e sincero. Uma época de paradoxos pede a arte remota de alguém que traduziu os paradoxos e os sobressaltos da razão com uma acuidade nunca igualada. Habitar esta época sem a companhia de Kleist significa privar-se de um ângulo de visão e de um fio de lucidez precioso.