domingo, novembro 13, 2016

domingo, outubro 23, 2016

How attractive, how delectable, the prospect of intimacy is, with the very person who will never grant it.

(Alice Munro, "The Turkey Season")

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

No comboio Porto-Aveiro, uma leitora folheou "Espaço do Invisível 3", de Vergílio Ferreira, antes de o guardar na mala e começar a ler outro livro, que não consegui identificar.

domingo, outubro 16, 2016

SETSUKO HARA (1920-2015)

(Obituário escrito por mim e publicado originalmente na revista LER.)


A actriz Setsuko Hara (1920-2015), que desapareceu a 5 de Setembro [de 2015]  (o anúncio surgiu mais de dois meses depois), participou pela última vez num filme em 1962, mas perdurou na memória dos cinéfilos graças sobretudo aos filmes que Yasujiro Ozu realizou entre 1949 e 1961. Nestes, a sua personagem é quase sempre uma mulher inteligente, sensata e activa, mas condicionada por conflitos entre gerações ou por situações familiares complexas. Representar personagens positivas e gentis pode ser uma vantagem aos olhos da posteridade, mas a explicação para o facto de Hara ser tão recordada e chorada mais de meio século depois da sua última aparição não se pode resumir a isso. Como escreveu Miguel Esteves Cardoso, a propósito da literatura: não basta escrever bem sobre coisas belas e moralmente defensáveis: convém também ser-se boa pessoa. Hara pertencia àquele rarefeito conjunto de actrizes que dão corpo a personagens plenas de uma humanidade sereníssima e que o fazem esplendidamente (porque é também de um talento assombroso que se está aqui a falar). Quanto à pessoa, essa remeteu-se à reclusão quando abandonou o cinema, mas deixou atrás de si uma presença humana que transcende os filmes e os anos e que condensa toda a decência, doçura e verticalidade que o cruel século XX teve para oferecer. Setsuko Hara foi a amiga, a irmã, a filha, a mãe, a mulher e a amante que todos julgamos, muito lá no fundo, poder vir a merecer. Os minutos finais de Viagem a Tóquio (1953), e em particular a cena em que Hara e o (também imenso) Chishu Ryu, de três quartos, parecem trespassados pelos cabos eléctricos omnipresentes nos filmes de Ozu, são momentos em que se percebe que o cinema é afinal uma maneira de tocarmos e olharmos de frente esse estranho fenómeno que se chama estar vivo no mundo.

terça-feira, outubro 11, 2016

OFÍCIO

Os poemas que não fiz não os fiz porque estava
dando ao meu corpo aquela espécie de alma
que não pôde a poesia nunca dar-lhe

Os poemas que fiz só os fiz porque estava
pedindo ao corpo aquela espécie de alma
que somente a poesia pode dar-lhe

Assim devolve o corpo a poesia
que se confunde com o duro sopro
de quem está vivo e às vezes não respira

(Gastão Cruz, "Escarpas", Assírio & Alvim, 2010)

quarta-feira, outubro 05, 2016

5 DE OUTUBRO

O 5 de Outubro de 2016 possui um sabor especial porque é a primeira vez que a data é celebrada com feriado nacional, como deve ser, depois do período negro durante o qual este e outros três feriados estiveram abolidos. Esse acto vergonhoso não deverá ser jamais esquecido. Porém, o que importa hoje é recordar e homenagear os heróis que, precisamente há 106 anos, puseram fim a quase oito séculos de reis, reizinhos, dinastias e crises sucessórias e lançaram as fundações do Portugal moderno. Viva a República!

segunda-feira, setembro 26, 2016

TANIZAKI E MELOPEIA

Talvez Manuel da Silva Ramos nunca venha a fazer parte dos meus duzentos autores portugueses favoritos; problema meu e só meu, bem entendido. Mas como não cobrir de indulgências alguém que diz de uma prostituta brasileira que podia ter saído de um romance do Tanizaki, e que intitula um dos seus contos "Melopeia sintrense com direito a sonho e pausa musical entendida como copulação sonâmbula vertical"? (A propósito de "Perfumes eróticos em tempos de vacas magras", Parsifal, 2014.)

sábado, setembro 17, 2016

Atendera ao aviso de um poema e os poemas não são de confiar.

(Hélia Correia, "Adoecer", Relógio d'Água, pág. 254)

segunda-feira, setembro 05, 2016

OH LA LA LOLITA

Em pleno zapping, chego ao canal "Arte" e constato que estão a passar "Lolita", de Kubrick. Não me falta vontade de ficar a ver pelo menos uns minutos, mas eis que descubro tratar-se de uma versão dobrada. O meu dedo carrega no botão do telecomando com uma prontidão proporcional à falta de vontade de ver um actor genial como Peter Sellers debitar um monólogo em francês postiço.

Agradeço ao Destino ter-me feito nascer num país pobretanas onde não há dinheiro para dobrar filmes.

segunda-feira, agosto 29, 2016

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

No Alfa Pendular, entre o Porto e Lisboa, uma leitora francesa lia uma tradução de José Rodrigues dos Santos. O talibã literário que dormita dentro de mim quase levou a melhor sobre o meu auto-domínio e me pôs a urrar: «Largue isso! Isso é uma coisa fétida! A literatura portuguesa não é isso!».

Felizmente, a presença de uma outra leitora que lia uma tradução portuguesa de "Mrs Dalloway" compensou parcialmente esta observação pouco feliz.

Esta última leitora comia batatas fitas de pacote enquanto lia. Não é um pormenor que tenha grande importância, mas parece-me oportuno revelá-lo.

quinta-feira, julho 14, 2016

14 DE JULHO

Os revisionistas de domingo como João César das Neves e João Carlos Espada bem podem esbracejar, mas a Tomada da Bastilha e a Revolução Francesa continuam a ser os eventos que mais abalaram a história contemporânea e que mais contribuíram para transformar um mundo marcado pelo privilégio e pela arbitrariedade num mundo minimamente respirável, no qual conceitos como "cidadão", "democracia", "igualdade" e "direitos" possuem algum significado prático.

Viva o 14 de Julho!


segunda-feira, julho 04, 2016

ABBAS KIAROSTAMI (1940-2016)

Eu seria uma pessoa pior sem os filmes de Kiarostami.

"O Vento Levar-nos-á" (1999)

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

A vida de um observador de leituras em lugares públicos não é só feita de alegrias e de descobertas aprazíveis e edificantes. Há também as decepções, não poucas vezes bastante cruéis. Por exemplo: numa paragem de autocarro de Genève, uma leitora lia aquilo que parecia ser um livro de Cioran. Um exame mais atento revelou que, em vez de CIORAN, aquilo que se lia na capa era GIBRAN.

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Na linha verde do metropolitano, uma leitora lia "As Verdes Colinas de África", de Hemingway.

Em tempo de canícula, nada como a grande literatura para refrescar o espírito.

sábado, junho 25, 2016

quarta-feira, junho 15, 2016

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Um leitor lia um livro de Horacio Quiroga na linha verde do metropolitano. Pareceu-me tratar-se de "Contos da Selva", na edição da Cavalo de Ferro.

Horacio Quiroga foi um escritor uruguaio que nasceu em 1878, em Salto, e faleceu em 1937, em Buenos Aires.

quarta-feira, maio 11, 2016

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

Um leitor lia "A Criação do Mundo", de Miguel Torga. Uma leitora lia "Contos do Gin-Tonic", de Mário-Henrique Leiria. Isto passou-se nas linhas verde e amarela do metropolitano. Tentar recordar se era o Torga na amarela e o Leiria na verde, ou vice-versa, é esforço demasiado para a minha memória. Viva a diversidade da literatura portuguesa!

LIVRO

O meu livro "O Leão de Belfort" já está à venda nas boas casas. É inútil procurarem nas más casas: não o encontrarão lá. Numa época em que os apelos ao consenso chovem de todos os lados, eu apelo ao consenso dos leitores em torno da excelência literária desta noveleta e do seu potencial para criar novos paradigmas.