terça-feira, junho 20, 2017

Viver uma vida é também, ou sobretudo, gerir este desejo de validação e aprovação alheia que nos acompanha, mais ou menos domesticado, do princípio ao fim.

terça-feira, abril 25, 2017

25 4 1974

25 de Abril, sempre. Sem relativizações, sem referências mais ou menos manhosas a outras datas, sem "Ah, pois é, mas...", sem trocadilhos tendenciosos ("evolução/revolução"), sem mais nada. Apenas uma janela aberta de repente a separar o antes e o depois.

(Imagem retirada daqui.)


domingo, janeiro 15, 2017

Da exposição "Tentativa de Esgotamento" (2015-16), Daniel Blaufuks
Houve um dia em que o mundo tentou entrar, quando um empreiteiro bateu à porta e avisou de que o proprietário gostaria de trocar a janela por uma moderna com vidros grandes que deixariam entrar mais luz e menos frio e com a qual eu seria muito mais feliz. Ainda ele falava e já eu tinha fechado a porta.

(Daniel Blaufuks, texto de apresentação da exposição "Tentativa de esgotamento")

quarta-feira, janeiro 04, 2017

domingo, janeiro 01, 2017

Passam as horas violentas, do repúdio e do desassossego e passam igualmente as higiénicas, da acomodação. Passam também as de crítica, praticamente inútil. Passa tudo e volta tudo.

(Irene Lisboa, "Solidão")

sexta-feira, dezembro 30, 2016

Esse logro que consiste em julgar que existe uma resposta diferente de "sim" ou "não" para a pergunta «És feliz?». Bom 2017.

quinta-feira, dezembro 29, 2016

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

No Alfa Pendular, entre Porto e Lisboa, um leitor lia "Finisterra", de Carlos de Oliveira.

Há lá melhor lugar e circunstâncias para pôr em dia a leitura dos clássicos portugueses do século XX do que sobre carris, a 200 quilómetros por hora?

domingo, novembro 13, 2016

domingo, outubro 23, 2016

How attractive, how delectable, the prospect of intimacy is, with the very person who will never grant it.

(Alice Munro, "The Turkey Season")

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS

No comboio Porto-Aveiro, uma leitora folheou "Espaço do Invisível 3", de Vergílio Ferreira, antes de o guardar na mala e começar a ler outro livro, que não consegui identificar.

domingo, outubro 16, 2016

SETSUKO HARA (1920-2015)

(Obituário escrito por mim e publicado originalmente na revista LER.)


A actriz Setsuko Hara (1920-2015), que desapareceu a 5 de Setembro [de 2015]  (o anúncio surgiu mais de dois meses depois), participou pela última vez num filme em 1962, mas perdurou na memória dos cinéfilos graças sobretudo aos filmes que Yasujiro Ozu realizou entre 1949 e 1961. Nestes, a sua personagem é quase sempre uma mulher inteligente, sensata e activa, mas condicionada por conflitos entre gerações ou por situações familiares complexas. Representar personagens positivas e gentis pode ser uma vantagem aos olhos da posteridade, mas a explicação para o facto de Hara ser tão recordada e chorada mais de meio século depois da sua última aparição não se pode resumir a isso. Como escreveu Miguel Esteves Cardoso, a propósito da literatura: não basta escrever bem sobre coisas belas e moralmente defensáveis: convém também ser-se boa pessoa. Hara pertencia àquele rarefeito conjunto de actrizes que dão corpo a personagens plenas de uma humanidade sereníssima e que o fazem esplendidamente (porque é também de um talento assombroso que se está aqui a falar). Quanto à pessoa, essa remeteu-se à reclusão quando abandonou o cinema, mas deixou atrás de si uma presença humana que transcende os filmes e os anos e que condensa toda a decência, doçura e verticalidade que o cruel século XX teve para oferecer. Setsuko Hara foi a amiga, a irmã, a filha, a mãe, a mulher e a amante que todos julgamos, muito lá no fundo, poder vir a merecer. Os minutos finais de Viagem a Tóquio (1953), e em particular a cena em que Hara e o (também imenso) Chishu Ryu, de três quartos, parecem trespassados pelos cabos eléctricos omnipresentes nos filmes de Ozu, são momentos em que se percebe que o cinema é afinal uma maneira de tocarmos e olharmos de frente esse estranho fenómeno que se chama estar vivo no mundo.

terça-feira, outubro 11, 2016

OFÍCIO

Os poemas que não fiz não os fiz porque estava
dando ao meu corpo aquela espécie de alma
que não pôde a poesia nunca dar-lhe

Os poemas que fiz só os fiz porque estava
pedindo ao corpo aquela espécie de alma
que somente a poesia pode dar-lhe

Assim devolve o corpo a poesia
que se confunde com o duro sopro
de quem está vivo e às vezes não respira

(Gastão Cruz, "Escarpas", Assírio & Alvim, 2010)

quarta-feira, outubro 05, 2016

5 DE OUTUBRO

O 5 de Outubro de 2016 possui um sabor especial porque é a primeira vez que a data é celebrada com feriado nacional, como deve ser, depois do período negro durante o qual este e outros três feriados estiveram abolidos. Esse acto vergonhoso não deverá ser jamais esquecido. Porém, o que importa hoje é recordar e homenagear os heróis que, precisamente há 106 anos, puseram fim a quase oito séculos de reis, reizinhos, dinastias e crises sucessórias e lançaram as fundações do Portugal moderno. Viva a República!

segunda-feira, setembro 26, 2016

TANIZAKI E MELOPEIA

Talvez Manuel da Silva Ramos nunca venha a fazer parte dos meus duzentos autores portugueses favoritos; problema meu e só meu, bem entendido. Mas como não cobrir de indulgências alguém que diz de uma prostituta brasileira que podia ter saído de um romance do Tanizaki, e que intitula um dos seus contos "Melopeia sintrense com direito a sonho e pausa musical entendida como copulação sonâmbula vertical"? (A propósito de "Perfumes eróticos em tempos de vacas magras", Parsifal, 2014.)

sábado, setembro 17, 2016

Atendera ao aviso de um poema e os poemas não são de confiar.

(Hélia Correia, "Adoecer", Relógio d'Água, pág. 254)