(Via "The Daily Dirt Chess Blog", de Mig Greengard.)
terça-feira, dezembro 13, 2005
terça-feira, dezembro 06, 2005
FOI HÁ 100 ANOS: Para além do sorteio do Mundial de futebol, e de uma outra efeméride, o próximo dia 9 ficará marcado pela comemoração do centenário da lei que, em França, instaurou a separação entre Igreja e Estado.
Esta data, que, já de si, mereceria ser celebrada como marco na história da liberdade e emancipação política dos estados, ganha renovada ressonância (pelo menos aqui em Portugal)graças à recente "gue-guerra" dos crucifixos: refiro-me, obviamente, à decisão (em perfeita harmonia com a Constituição) de retirar os crucifixos das salas de aula deste país.
A respeito desta medida, não têm faltado as previsíveis reacções dos previsíveis sectores, parafraseáveis do seguinte modo: «A laicidade é muito bonita, mas não havia necessidade de ir tão longe.»
A maioria dessas reacções não deixou de glosar bafientos e desesperados chavões como o "fanatismo laicista" e o "ataque à religião".
Como seria de esperar, João César das Neves (que nós aqui no 1bsk adoptámos como mascote) meteu a sua colherada, na sua última crónica do "DN".
Por absoluta falta de tempo, escuso-me a comentar a prosa nevesiana com o detalhe que desejaria, limitando-me a deixar-vos com um demasiado breve florilégio.
«As pequenas coisas revelam mais que as grandes. Os jornais estão a tentar criar uma zanga à volta da retirada dos crucifixos das escolas públicas.
Os jornais? Ou certos fanáticos que sentem a maré a virar contra as suas convicções?
A falta de liberdade religiosa tem gerado a perda da liberdade e até da vida.
Plenamente de acordo.
Nunca se deve esquecer que, dada a impossibilidade lógica de demonstrar a inexistência de Deus, o ateísmo é apenas a crença de que Deus não existe.
Isto é subverter completamente a questão. Eu diria que cabe aos crentes o ónus da prova, na medida em que são eles que defendem certas coisas (parte integrante da doutrina) verdadeiramente inconcebíveis: ressurreição, concepção de uma virgem, transsubstanciação, milagres... O ateísmo não é uma crença. Só defende que o ateísmo é uma crença aquele que vê na fé um estado natural ao ser humano, e no cepticismo uma bizarria que requer justificação. Contudo, se eu acreditar que a lua é feita de queijo da serra, é a mim que cabe demonstrar tão ousada asserção, e não àquele que nela não acredita (com alguma razão, acrescente-se).
A recusa da divindade é uma fé, tal como o negro está na pintura e a pausa faz parte da música.
Esta analogia está trôpega à partida, mas eu diria que o ateísmo está para a fé, não como o negro para a pintura, mas como as paredes do museu (e a bilheteira, as escadarias, o bar, os telefones públicos...) para os quadros.
Aliás, constitui uma seita das mais pequenas, que, por isso mesmo, costuma ser extremista e fanática.
Em matéria de fanatismo, o mínimo que se pode dizer é que a Igreja Católica tem (e sempre teve) lições para dar.
O Estado laico deve assumir uma posição neutra perante as religiões, tal como deve assumir uma posição neutra perante as candidaturas presidenciais.
Outra analogia infeliz. O Estado não tem nada a ver com a religião: cabe-lhe apenas assegurar a liberdade de culto aos cidadãos. Em contrapartida, embora o Estado deva assegurar igual tratamento aos candidatos presidenciais, a Presidência da República não se trata de um assunto a ele alheio, por nítida maioria de razão!
Deus está na escola, tal como a cultura está na escola, a política, a arte, o futebol e a amizade estão na escola.
(E a sexualidade também, apetece-me dizer... JCN oferece argumentos a quem defende a educação sexual nas escolas. Mas não entremos por aí.)
JCN mete demasiadas coisas no mesmo alforge. Sucede que a Igreja Católica possui uma longa história de interferência com os poderes públicos, e de reivindicação de um papel privilegiado na transmissão de valores e saberes. Foi a própria atitude da Igreja, ao longo dos séculos, que a transformou em natural alvo de desconfiança por parte dos promotores de uma escola livre, e que fez do crucifixo um símbolo que, neste contexto, é tudo menos inócuo.
O que os poderes públicos devem garantir é a autonomia para cada escola fazer o que os seus professores, pais e alunos decidam.
Livra! Podem imaginar o que resultaria de uma autonomia total, por parte das escolas e dos encarregados de educação, para decidir sobre conteúdos, modos de leccionamento, etc.? Seria uma porta aberta ao sectarismo e ao comunitarismo. É normal e desejável que matérias sensíveis para o funcionamento das escolas sejam decididas de forma centralizada, de forma a assegurar o cumprimento dos programas tal como estipulados.
Sobretudo, não são activistas ou burocratas a centenas de quilómetros que têm o direito de definir a decoração das paredes, em vez dos alunos, famílias, professores e funcionários.
Precisamente. São. E assim é que deve ser.
Num país livre pode ser-se ateu ou religioso. Mas, em nome da liberdade, os laicistas arrogam-se o direito de obrigar as escolas a seguir os seus gostos e irritações pessoais.
Ai ai, faltava ainda o lugar comum do azedume laicista. Mas JCN não nos desilude.
Um pequeno grupo arma-se em juiz de todos os cultos, só porque não segue nenhum e os considera horríveis a todos. Como odeia a religião diz-se neutro perante ela.
(Isto merecia acompanhamento musical.)
Os crucifixos na sala de aula são apenas um pequeno detalhe. Mas um detalhe revelador de uma luta crucial da Humanidade, a luta em prol da liberdade.
Ora não podia estar eu mais de acordo!
O Ministério da Educação, em vez do esforço baldado para tirar Deus das escolas, devia antes procurar pôr algum bom senso nelas.»
Cem anos depois, e ainda as mesmas falácias para aturar...
ROHMER MAS NÃO SÓ: Criei um blog chamado A Mulher do Aviador, onde tenho vindo a recolher (com exagerada lentidão...) os textos sobre cinema publicados no 1bsk ao longo dos seus já quase três anos de existência.
A ideia é servir-me deste blog como estímulo para escrever mais amiúde sobre cinema. Nele não serão publicados textos originais, pelo menos numa primeira fase. Trata-se, pois, de uma ferramenta essencialmente pessoal, mas quem quiser passar por lá, e talvez deixar um comentário, será muito bem-vindo!
segunda-feira, dezembro 05, 2005
MODO ACTIVO: Hoje, a impressora do meu local de trabalho mostrava no seu visor a mensagem "MODO ACTIVO INACTIVADO".
Suponho que isso seja precisamente equivalente a "Modo Inactivo Activado".
Mas quem sou eu, mero mortal analógico, para me alargar em conjecturas sobre aquilo que, em informática, é ou deixa de ser?
O TEMPO TRANSBORDA: Acabo de escutar parte de uma emissão na Antena 1, conduzida por José Nuno Martins. Quando penso em José Nuno Martins, recordo invariavelmente a resposta que ele deu, há já um ror de anos, a um inquérito efectuado por uma revista. A pergunta era "Qual era o filme da sua vida?". José Nuno Martins, fugindo às descoroçoantes mas previsíveis banalidades objecto da escolha dos demais entrevistados ("África Minha", "E Tudo o Vento Levou"...), mencionou... Jacques Rivette, "L'Amour Fou".
Por isso, por este acto de coragem, José Nuno Martins passou a ter perante mim crédito infinito. Pode até suceder que ele venha a apresentar a "1ª Companhia" ao lado de um burro que fala. Para mim, isso nada pesará face ao facto de ter escolhido para filme da vida um filme como "L'Amour Fou", essa inquietante obra-prima em que os planos do teatro e da vida, talvez ainda mais do que em qualquer outra obra de Rivette, se dilaceram e potenciam mutuamente.
Por isso, por este acto de coragem, José Nuno Martins passou a ter perante mim crédito infinito. Pode até suceder que ele venha a apresentar a "1ª Companhia" ao lado de um burro que fala. Para mim, isso nada pesará face ao facto de ter escolhido para filme da vida um filme como "L'Amour Fou", essa inquietante obra-prima em que os planos do teatro e da vida, talvez ainda mais do que em qualquer outra obra de Rivette, se dilaceram e potenciam mutuamente.
domingo, dezembro 04, 2005
ANÚNCIOS DE GATO PERDIDO INVENTADOS (14):
Perdeu-se lindo gato, não hoje, nem ontem, mas há catorze anos, quando em tempos de exílio, dias insípidos de chuva sem trégua. Foi em Mannheim, cidade que faz parte do estado de Baden-Württemberg (superfície 35 750 quilómetros quadrados, capital Stuttgart). O gato era preto com focinho branco, o gato não era meu, mas apareceu na minha vida num dia que ficou também marcado por uma ferida, não uma ferida real, mas antes uma ferida metafórica. Paredes de chuva abatiam-se sobre as ruas de Mannheim, e o gato parecia conhecer os seus contornos movediços, e o seu corpo felpudo ocupava nesgas improváveis de quietude no seio dos excessos pluviométricos. Um dia perdi-o, a esse gato que era lindo e o único no mundo para mim. Esforçava-me para reter junto a mim fiapos do meu país deixado para trás, recitava expressões portuguesas em paragens de autocarro solitárias escolhidas para o efeito. Apreciava sobretudo aquelas que exibiam uma pátina absurda mas familiar. "Preso por arames", "Cair como sopa no mel", "Por dá cá aquela palha". Gato, a tua figura era mefistofélica, mas benigna porque esplendorosa e refractária à baça desolação que se confundia com o tempo. Passaram os anos, moro em Lisboa, ao Campo de Ourique, leio boa ficção portuguesa e tenho cuidado com a alimentação. Gato, pensei em escrever este anúncio que ninguém lerá, este anúncio-pedra-risco para assinalar uma desaparição com a qual fui cobarde em me conformar. Meu gato que eu prezo mais do que todos os anjos e demónios que a humanidade alguma vez foi capaz de convocar, sinto a tua falta.
quarta-feira, novembro 30, 2005
domingo, novembro 27, 2005
É SEMPRE A MESMA CANÇÃO: A Cinemateca irá apresentar, no próximo mês, um ciclo intitulado "Tema e Variações". Neste ciclo serão apresentados filmes relacionados entre si pela história que desenvolvem, pela obra em que se baseiam ou por um outro aspecto menos óbvio. (Exemplos: "Tempest", de Paul Mazursky e "Prospero's Books", de Peter Greenaway; "Die Marquise von O...", de Éric Rohmer e "Benilde ou a Virgem Mãe", de Manoel de Oliveira; "India Song" e "Son Nom de Venise Dans Calcutta Désert", de Marguerite Duras.)
Curiosamente, tal como é observado no programa, outros dois filmes deste mês poderiam também ter entrado neste jogo de correspondências: "Breakfast at Tiffany's" (apresentado na rubrica "O Que Quero Ver"), de Blake Edwards, e o novo filme de João Pedro Rodrigues apresentado em ante-estreia, "Odete". Ponto em comum: "Moon River", a canção que Henry Mancini compôs para o filme de Edwards.
Aliás, esta canção parece exercer um fascínio cinéfilo duradouro sobre as gerações recentes de realizadores. Em "La Mala Educación", de Pedro Almodóvar, era uma versão de "Moon River", cantada pelo pequeno Ignacio, que comovia até às lágrimas o padre Manolo. E, no novo filme de Arnaud Desplechin, existe um tema musical recorrente baseado na mesma canção.
sexta-feira, novembro 25, 2005
ÁGUAS DE MARÇO: Desde as suas primeiras palavras (em Março e à chuva) que este blog, parece-me, tem vivido assombrado pelo desejo de exprimir num só troço de frase, agudo e elíptico, uma melancolia gélida que fosse ao mesmo tempo sentimento pessoal e latejante de universalidade.
Não se trata de reconhecer o falhanço. Trata-se de ponderar quantas vezes a decência tolera a repetição de um tal falhanço.
DUAS PALAVRITAS APENAS: Duas palavritas apenas sobre o fim anunciado do Blogue de Esquerda (porque o meu estado de espírito presente não é compatível com epitáfios efusivos).
O Blogue de Esquerda nunca deixou de ser um dos mais bem escritos e interessantes de Portugal. Contudo, e porque me parece supérfluo estar a cobrir de elogios um espaço que mereceu reconhecimento tão amplo e generalizado, por parte de tantos quadrantes diferentes, limito-me a esboçar uma nota pessoal. Foi o Blogue de Esquerda que me trouxe para a blogosfera. (Não directamente, é certo. Mas é como se o fosse.) E isso, que podia ser um quase nada, representou e representa muita coisa. Pelo menos para mim. Mas eu avisei de que isto era uma nota pessoal.
Adeus e obrigado.
QUANTUM: A Quantum é uma revista on-line criada por alunos do Departamento de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.
Iniciativas como esta são extremamente louváveis, sobretudo numa altura em que parece estar cada vez mais na moda insistir no estereótipo do estudante universitário irresponsável e mimado, mais amigo dos shots do que dos livros.
E mais não digo, por receio de cair num paternalismo tão detestável como os mais detestáveis lugares comuns. Dêem uma olhada na Quantum. Vale a pena.
quinta-feira, novembro 24, 2005
SURSUM CORDA: O meu coração rejubila, e se o meu coração rejubila é porque está anunciada, já para a próxima quinta-feira, a estreia em Lisboa do filme "Rois et Reine" (Arnaud Desplechin). Tenho muita vontade de o rever, depois de uma sessão memorável na última Festa do Cinema Francês, e posso já garantir que ele saltará dos alforges da Atalanta para a minha lista dos melhores do ano.
O filme de Desplechin suscitou uma rara quase-unanimidade entusiasta por parte da crítica especializada francesa. Isto, só por sim, nada quer dizer, e poderia até ser sinal preocupante. Neste caso, porém, julgo tratar-se do simples reflexo do modo como o autor do também genial "Esther Kahn" conjuga uma componente popular com um apelo cúmplice à inteligência e à ousadia do espectador.
Espero voltar a falar deste filme.
O filme de Desplechin suscitou uma rara quase-unanimidade entusiasta por parte da crítica especializada francesa. Isto, só por sim, nada quer dizer, e poderia até ser sinal preocupante. Neste caso, porém, julgo tratar-se do simples reflexo do modo como o autor do também genial "Esther Kahn" conjuga uma componente popular com um apelo cúmplice à inteligência e à ousadia do espectador.
Espero voltar a falar deste filme.
terça-feira, novembro 22, 2005
MORE REPÚBLICA BLOGOSFÉRICA: O Boina Frígia é um muito interessante blog onde os temas republicanos merecem lugar de destaque. Parabéns aos autores!
IDEIA PARA UM CONTO: Eu tinha uma ideia para um conto baseado num poema de António Franco Alexandre, aquele poema dos "Quatro Caprichos" em que há uma pessoa que está a dirigir a equipa de basquetebol do liceu e o grupo de teatro do mesmo liceu. Mas o livro está numa estante demasiado alta para lá chegar sem me levantar, por isso fica para outro dia.
quinta-feira, novembro 17, 2005
PARIS E O SOBRESSALTO (4): Nestes tempos em que uma constelação inteira de fazedores de opinião é, a propósito dos motins em França, apanhada todos os dias em flagrante delito de superficialidade e má fé, não se deve deixar de exaltar os oásis de lucidez que subsistem, e a Esquerda Republicana é um deles. Isto é válido tanto para os artigos que aí são enlaçados como para aquilo que o próprio Ricardo vai escrevendo.
O nível intelectual (e o estilo, já agora) dos artigos de Olivier Roy e Jason Burke nada tem a ver com aquilo que o leitor português se arrisca a ler quando folheia um qualquer órgão da imprensa escrita portuguesa.
Não me falta vontade para rebater os trôpegos argumentos que tenho lido em jornais e blogs, os raciocínios adulterados e as generalizações abusivas, assim como as desavergonhadas tiradas francófobas. O que me falta é o tempo.
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