sexta-feira, maio 30, 2008

PALMA DE OURO: Afinal, foi suficiente. Atribuo uma importância muito relativa a palmas, leões e ursos, mas satisfez-me que o galardão máximo do festival de Cannes deste ano tivesse sido atribuído a Laurent Cantet. Um cinema tão rico e diversificado como é o francês merece atenção e reconhecimento, e se a única (ou pelo menos a mais eficaz) maneira de receber essa atenção e reconhecimento é a reboque do mediatismo de um festival como o de Cannes, pois bem, venham as palmas e outros berloques em metal nobre. (Em dois jornais gratuitos publicados no dia seguinte à divulgação do palmarés, as manchetes iam para Benicio Del Toro, e era necessária alguma atenção para perceber quem tinha ganho a Palma de Ouro. É o culto da celebridade, na sua rotineira mesquinhez.) Teria preferido que o vencedor fosse Arnaud Desplechin, um dos poucos realizadores franceses nascido depois de 1940 a quem se pode aplicar o epíteto de "génio" sem qualquer escrúpulo de inexactidão ou hipérbole. Quanto a Philippe Garrel, já tem um Leão de Ouro na prateleira, o que torna mais tolerável a omissão do palmarés. De Cantet só conheço "L'Emploi du Temps", de que guardo boas recordações pela secura e inteligência da realização (mas também pela interpretação superlativa de Aurélien Recoing). Por coincidência, estou a ler neste momento um romance que se chama também "L'Emploi du Temps" (de Michel Butor), mas que nada tem a ver com o filme. Muitos foram os que assinalaram o facto de ser esta a primeira Palma de Ouro atribuída a um filme francês desde 1987 (Maurice Pialat, "Sous le Soleil de Satan"). O que quase ninguém disse foi que é preciso recuar outros 21 anos na lista dos galardoados para encontrar outro filme francês (1966, Claude Lelouch, "Un Homme et une Femme", que ganhou ex aequo com "Signore & Signori", de Pietro Germi). Ninguém pode acusar Cannes e o seu Festival de serem um feudo de chauvinismo nacionalista. Para além de Cantet e Lelouch, o único realizador francês vivo que triunfou em Cannes é Jean Delannoy (que cumpriu o seu 100º aniversário em Janeiro deste ano, e cujo filme "La Symphonie Pastorale" foi um dos distinguidos, em 1946, com o "Grand Prix du Festival International du Film" - era esta a designação do troféu máximo do certame, quer nesse ano quer em 1966). A esta lista poder-se-ia acrescentar Costa-Gavras (Palma de Ouro ex aequo em 1982 com "Missing", e que, salvo erro, possui dupla nacionalidade grega e francesa).

segunda-feira, maio 26, 2008

MONDAY, MONDAY: Os anos passam, tudo muda, as gentes mudam, os jornais mudam, os directores de jornais vão e vêm. No meio deste implacável devir, certas coisas permanecem intocadas e imunes ao passar do tempo, e uma dessas coisas é a crónica de João César das Neves no "Diário de Notícias", sem a qual as minhas segundas-feiras seriam muito mais áridas e difíceis de encarar. Desta vez, JCN debruça-se sobre uma das suas obsessões de longa data: o ateísmo. «A vida pública é hoje ateia ou agnóstica. Ouve-se muito criticar a tolice e o delírio das religiões, mas raramente se refere a fragilidade intelectual da própria atitude ateísta que, com todo o respeito, é muito inconsistente.» "Como todo o respeito", ou seja, sem ele (cf. "Yes, Minister"). A razão pela qual raramente se refere a fragilidade intelectual da atitude ateísta tem, possivelmente, a ver com o facto de que essa putativa fragilidade é infinitamente menos gritante do que a da atitude religiosa. Não é tarefa simples apontar inconsistências ao ateísmo sem se cair em falácias pouco bonitas de se ver, e JCN demonstra isso mesmo de forma magistral nas linhas que se seguem. «Recusar Deus é uma crença como as outras. No fundo trata-se de ter fé na ausência divina.» JCN arranca a todo o vapor, com a argolada do costume. Importa talvez relembrar (mas de que serve insistir no óbvio, perante alguém que cultiva a obstinação dogmática, e que prefere uma boa citação das escrituras a um silogismo?) que o ateísmo não é uma fé. Quem crê assume um estatuto lógico verdadeiro para um certo estado de coisas. Se essas coisas desafiam a verosimilhança (digamos, a encarnação, os milagres, a trans-substanciação, a ressurreição), existe uma ruptura com as evidências que qualquer crente deve, parece-me, ser capaz de assumir. As atitudes ateístas e agnósticas, pelo contrário, não implicam essa ruptura, mas sim a recusa em acreditar em coisas inverosímeis apenas porque são comummente aceites pela tradição cultural e religiosa onde o indivíduo se encontra inserido. Muito longe de ser uma fé, trata-se de uma postura racional e crítica. «A Antropologia e Sociologia sérias mostram o oposto: a religiosidade é o normal em todas as culturas e épocas.» A religiosidade é o normal em todas as culturas e épocas? De acordo, assim como não menos normal tem sido a tenacidade com que os cleros de todos os matizes e variedades têm batalhado para garantir essa normalidade, muito à força de astúcia, de chantagem e de entendimentos oportunos com o poder secular. Mas desde quando é que essa asserção, de índole sociológica e antropológica, tem relevância para a questão fulcral que é a de saber se o ateísmo e o agnosticismo são atitudes válidas? «O ateísmo é uma construção tardia e artificial de elites, sobretudo desde o Iluminismo.» Obra de elites artificial e tardia... Tal como a democracia, os direitos humanos, a emancipação da mulher (ups!, péssimo exemplo), o pacifismo, o fim da escravatura, a escolaridade obrigatória... (Sobre o emprego de "elites" no plural, ver aqui.) «Mantido em ínfima minoria, agora está em clara decadência. Vendo-lhe a lógica interna, percebe-se porquê.» Em que ficamos? A vida pública é hoje ateia ou agnóstica, ou o ateísmo é mantido em ínfima minoria? Parece-me que a "clara decadência" é da capacidade argumentativa do próprio JCN. Noutros tempos, podia ainda gabar-se, à falta de ter razão, de conseguir manter um vislumbre de coerência interna nas suas crónicas. E que estudos menciona JCN para sustentar essa "clara decadência"? Nenhuns. «O agnosticismo, hoje variante dominante, justificar-se-ia se a existência de Deus fosse inconsequente e negligenciável. Mas ignorar a possibilidade de Deus é como desinteressar-se da existência do pai, benfeitor ou patrão, senhorio ou polícia. E se Ele aparece?» Comparar Deus a um senhorio, eis aquilo que poucos ousariam sem pestanejar. Mas JCN ousa e não pestaneja, e talvez seja por isso que a sua crónica das segundas-feiras sobrevive a todos os ventos e marés. Este argumento não é mais do que uma versão rasca e pusilânime da aposta de Pascal. E se ele aparece? Pois é... À falta de certezas, mandam as cautelas e os caldos de galinha que se tenha fé, não se vá dar o caso de... Ou, pelo menos, que se pense no senhorio/patrão/papão de quando em vez. A vida não está fácil. Haverá algo de mais deprimente e degradante do que acreditar "just in case"? «A dificuldade mais visível vem da existência da realidade. Porque há algo em vez de nada? Porque existe ordem, não caos?» «Porque há algo em vez de nada» é mais uma frase de t-shirt do que uma questão filosófica séria. Em todo o caso, a existência (por oposição à não existência, hipótese inútil porque incompatível com um ser pensante que a concebesse) não pressuporia automaticamente um criador (ver mais abaixo). Quanto à existência de ordem em vez de caos, recomendo a leitura de alguns bons livros de Física, Química, Bioquímica e Astronomia. Por mais numerosas que sejam as questões por resolver, a compreensão de como a ordem pode surgir graças à acção de um punhado de partículas subatómicas e de algumas forças está ao alcance de qualquer leitor com um mínimo de formação científica. «A resposta ateia era recusar a questão, porque o universo sempre existira assim, mas a teoria do Big Bang explodiu essa certeza e deu solidez científica ao facto da Criação.» Afirmar que a teoria do Big Bang deu solidez científica à Criação é um daqueles disparates que dá vontade de perdoar porque faz sorrir. Igualmente patético, mas um pouco mais original, seria defender que a constante de Planck é Deus, ou que os três quarks que compõem os neutrões e os protões são a santíssima trindade. As possibilidades são inúmeras. «Eu e o mundo, as coisas, pessoas e outros seres não existiam e passaram a existir.» Mas não imediatamente após o Big Bang, meu caro JCN, as coisas ainda levaram o seu tempo. «Seria supina tolice supor um relógio surgindo perfeito das forças fortuitas da geologia e erosão.» Sem dúvida, mas o relógio é um artefacto humano. Nunca existiu pressão evolucionista que favorecesse o aparecimento de uma criatura dotada de um sistema de engrenagens que gerassem um movimento circular de um ponteiro com um período que fosse um submúltiplo do da rotação terrestre. O exemplo é tendencioso. «Um cérebro, muito mais complexo, quem o fez?» Não certamente o acaso, como JCN parece querer insinuar neste seu frouxo exercício de reductio ad absurdum, mas sim (e isto é crucial) mutações aleatórias, ao longo de muitos milhares de geração, conjugadas com a pressão evolucionista que favoreceu, em certos períodos, sistemas nervosos cada vez mais complexos e cada vez mais capazes de interagir criativa e eficazmente com o meio ambiente e com espécies rivais. O conceito não é dos mais intuitivos e fáceis de tragar, mas convenha-se que o esforço de imaginação requerido para interiorizar quão poderosa pode ser esta conjunção não é sobre-humano. «A resposta ateia tem de ser que o acaso de milhões de anos conduziu de uma explosão ao sorriso da minha filha. Ou o acaso é Deus, e o ateísmo nega-se (...)» Se se trata meramente de uma questão de nomes, então não existe desacordo. JCN é livre de chamar "Deus" ao acaso, à evolução, ao Big Bang, aos buracos negros e ao bosão de Higgs (aliás, não seria o primeiro a fazê-lo). Mas essa recuperação de conceitos científicos, longe de negar o ateísmo, reforça-o, pois constitui uma fuga para a frente por parte da religião, na direcção de uma posição cada vez mais vaga e inverificável: Deus é tudo, Deus é o cosmos, qualquer coisa que a ciência venha a descobrir é ainda Deus. Dir-se-ia um tratado de Tordesilhas unilateral em que quem parte e reparte insiste em ficar com a melhor parte, ou seja, tudo. «A violação da lei moral apenas confirma a sua existência. Muitos conseguem suprimir em si esta busca da justiça (embora a sintam quando vítimas), mas o trabalho que dá apagá-la revela a inscrição na própria identidade da raça. Uma lei implica um legislador. Como podem meros atómos de carbono, aglomerados em aminoácidos e evoluindo pela selecção natural, gritar que salário digno é valor universal?» Estas imagens, de esplendoroso fôlego surrealista, já se tornaram a imagem de marca de JCN. Têm a vantagem de poupar o comentador, pois ninguém, no seu perfeito juízo, se atreverá a argumentar contra átomos de carbono que fazem reivindicações salariais. Como desopilante, há muito pior. «O terceiro e pior obstáculo do ateísmo é a ausência de finalidade. Para o ateu este universo, sem origem nem orientação, também não tem propósito. Bons e maus têm o mesmo destino vazio. Saber que vivemos num mundo que se dirige à morte e ao nada faz de nós os mais infelizes dos seres. Se Deus não existe não existem o bem, a moral, a própria razão. Esta crueldade ontológica é tão avassaladora que poucos que a afirmam a enfrentam com honestidade.» Deus como condição necessária para a moral e para o bem é um lugar comum tão usado e abusado que mais vale deixá-lo entregue ao seu definhamento, que nem as recauchutagens sucessivas disfarçam. É mais digno de uma contracapa de edição barata de Dostoyevsky do que do discurso de uma pessoa educada. Quanto ao argumento subjacente (deve-se acreditar em Deus porque, sem Deus, o mundo seria cinzento, sombrio e desprovido de sentido), só são sensíveis a ele aqueles que preferem iludir-se a enfrentar a realidade munidos das armas de que dispõem: a lucidez, a objectividade, o cepticismo e o espírito crítico, mas também a compaixão, o bom humor, a coragem, a generosidade. (Vale a pena ler a crónica na sua totalidade, uma vez que os excertos nunca lhe farão inteira justiça.)

sexta-feira, maio 23, 2008

PLEONASMOS: No mesmo livro, Genette apresenta uma lista dos seus pleonasmos favoritos. Gosto bastante de "secousse sismique", "panacée universelle", "tri sélectif", "samba brésilienne" e "sciences cognitives", mas o mais precioso e suculento de todos é "chasseurs en colère". (Um dos choques mais difíceis de gerir durante a minha estadia em Paris foi o sucesso eleitoral, se bem que relativo, de um grupúsculo reaccinonário e patusco auto-intitulado "Mouvement Chasse, Pêche, Nature et Tradition", ectoplasma partidário da vontade de andar aos tiros pelos campos da doce França.)
SERÁ QUE GÉRARD GENETTE TEM ACOMPANHADO A HISTÓRIA RECENTE DO PSD?: «(...) le pays "réel", c'est celui qu'on veut séduire pour le dresser contre le pays "légal". L'usage de cette opposition est l'indice très sûr d'une démagogie de droite ou de gauche, qualifiée un temps d'"appel au peuple". Un autre marqueur de même sens est l'emploi péjoratif du mot "élite" - de préference au pluriel: l'élite peut être plus ou moins respectable, mais les élites ont toujours tort.» (Gérard Genette, In "Bardadrac", Éditions du Seuil, p. 258.)
ENTRETANTO, NA CROISETTE...: A selecção de filmes franceses em competição no festival de Cannes deste ano surge ao arrepio da tendência, predominante nos últimos anos, de escolher obras com um certo perfume "de autor" mas cirurgicamente insuspeitas de grandeza ou genialidade, e conformistas o quanto baste para evitar ofender a placidez mediática. (Não me esqueço de notáveis excepções, como Christophe Honoré, Bruno Dumont, Olivier Assayas, nem de falsas excepções ao jeito vivaço de Gaspar Noé e Dominik Moll.) Arnaud Desplechin e Philippe Garrel são, para além de realizadores consagrados, artistas em pleno vigor criativo, que assinaram recentemente obras-primas absolutas ("Rois et Reine" e "Les Amants Réguliers") estreadas em Portugal. A estes junta-se Laurent Cantet, que, sem ser um génio, sabe aplicar aos seus filmes as doses certas de inteligência, contenção e profissionalismo. Acho estupendo que se perca a vergonha de mostrar o cinema francês (o melhor do mundo, na minha opinião) em toda a sua excelência e pujança, ainda que tal possa não ser suficiente para que a Palma de Ouro fique em casa pela primeira vez desde que, em 1987, Maurice Pialat subiu ao palco (no meio dos assobios) e recebeu o troféu das mãos de Yves Montand, permitindo-se ainda um gesto que fez história («Si vous ne m'aimez pas, je ne vous aime pas non plus»).


"La Frontière de l'Aube", de Philippe Garrel.

terça-feira, maio 20, 2008

AINDA XADREZ: Durante anos, o "Échiquier Niçois" foi um dos sites que eu visitava com regularidade quase quotidiana, até ter sido interrompido pelo mais trágico dos motivos. Nem sempre, ao navegar pela internet, nos lembramos de como a possibilidade de desfrutar desta extraordinária riqueza de informação depende, em tão grande medida, do esforço, da persistência, da dedicação, do entusiasmo desmedido de alguns.
XADREZ NOVAMENTE: Jogar xadrez sem auxílio de tabuleiro é proeza corriqueira para o grande-mestre médio. Existe mesmo um torneio anual onde alguns dos melhores jogadores do mundo se defrontam às cegas. Bem entendido, o nível de jogo deixa algo a desejar, e abundam os erros de cortar a respiração. Bem entendido, o nível de jogo faria inveja a 99,99 % dos jogadores de todo o mundo. (Nada disto é muito importante, mas o ritmo de actualização do "Pastoral Portuguesa" tem vindo a rivalizar com o deste blog, e há que espicaçar o seu autor, tarefa para a qual urge convocar todas as forças vivas da nação, e que justificaria mesmo uma presidência aberta.)
XADREZ: O fim-de-semana offline recordou-me os tempos em que dependia da página de xadrez de Luís Santos, n'"A Capital" das terças, e da revista "Europe Échecs" (adquirida devotamente na Barata da Avenida de Roma), para me inteirar do que se passava na actualidade xadrezística. Passado o tormento que foi a impossibilidade de acompanhar as últimas duas rondas do torneio M-Tel, restou-me a profunda satisfação de constatar que "Chucky", o boneco diabólico, não vacilou. Depois da estrondosa primeira volta (5 vitórias em 5 jogos), Vassily Ivanchuk geriu o seu avanço com uma serenidade que deve ter enchido de alívio os seus fãs, habituados aos colapsos espectaculares do génio ucraniano. Após 4 empates (e alguns calafrios, especialmente face ao búlgaro Topalov e ao chinês Bu), Ivanchuk ainda triunfou, de negras, na última ronda, frente ao búlgaro Cheparinov, terminando o torneio com 1,5 pontos de avanço sobre o segundo classificado, e uma performance fenomenal de 2977 pontos Elo.
PAUSA FORÇADA: Fim-de-semana sem internet, por culpa de um problema de origem indeterminada. Segundo o técnico do Clix, a interrupção ocorrera "na rua", o que obrigou à intervenção da PT, dona e senhora de tudo o que se encontra a montante do domicílio do cliente da operadora rival. A sensação de ir de Herodes para Pilatos não durou mais do que uns dias, frustrantes mas não isentos de sensações fortes e revigorantes. Tudo novamente nos conformes. A queixa para a Anacom ficará para outra ocasião. E o que faz a polícia no meio disto? É esta a questão que atormenta a gente de bem, grupo no qual tentativamente me incluo.

terça-feira, maio 13, 2008

RARIDADE: «Um dia» dizia amargamente William Golding «alguém há-de descobrir um exemplar de um dos meus romances sem dedicatória, e valerá uma fortuna.» (Fonte: Gérard Genette, "Bardadrac", Éditions du Seuil.)
O DEDO NA FERIDA: A Linha dos Nodos põe o dedo na ferida. O que pensarão as bases do PSD do Matthew Barney? E qual a posição da concelhia de Famalicão sobre a teoria das supercordas? O que leva a Dra. Manuela Ferreira Leite a ocultar a sua opinião sobre a escola de Frankfurt (em geral) e Theodor Adorno (em particular)?
XADREZ:




Algo de extraordinário se está a passar em Sófia, Bulgária, no torneio "M-Tel Masters". O grande-mestre ucraniano Vassily Ivanchuk ganhou os seus primeiros 5 jogos (de um total de 10) contra os nºs 4, 6, 8, 22 e 27 do mundo. Atendendo à elevada percentagem de empates (tipicamente entre 50 e 70%) que normalmente se verifica a este nível, 5 vitórias seguidas constituem uma façanha assombrosa, que já evoca comparações com outras performances míticas na história da modalidade. Vêm à ideia, por exemplo, os triunfos de Bobby Fischer, só com vitórias, nos campeonatos dos E.U.A. ou no torneio dos candidatos, os sucessos esmagadores de Kasparov em torneios do mais alto nível, ou o triunfo de Karpov em Linares, 1994, com 11 pontos em 13.

Desde há muito tempo que Ivanchuk é o meu grande ídolo do xadrez. (Isto, claro, se não pensarmos em Karpov. O melhor é pôr Karpov à parte. O melhor é nem falar de Karpov... *) O seu estilo, combinação inimitável de heterodoxia e limpidez clássica, a sua ubiquidade nas grandes competições internacionais (que contrasta com a parcimónia de muitos dos seus pares, que se contentam com raras aparições em torneios seleccionados, quase a medo, como que mais preocupados em preservar a sua aura e o seu ranking do que em jogar xadrez), assim como (há que dizê-lo) as suas excentricidades atraíram uma leal base de fãs, que nunca deixa de se manifestar ruidosamente sempre que "Chucky" mostra o seu brilhantismo. Infelizmente, os nervos frágeis deste génio custaram-lhe muitos dissabores ao longo da sua carreira, e provavelmente a possibilidade de se tornar campeão mundial. Durante anos, escassearam os convites, e Ivanchuk só conseguiu manter-se entre os melhores do mundo trucidando adversários muito inferiores em competições de magnitude inferior. Aos 39 anos, ei-lo que aparece numa das suas melhores formas de sempre. Aos seus admiradores, resta fazer figas para que Ivanchuk não sofra um dos seus lendários colapsos na segunda metade do torneio.

Site oficial do torneio "M-Tel Masters".
Cobertura no site Chessbase.
Cobertura no site Chessdom.
Cobertura no site Europe Échecs.


* copyright Linha dos Nodos

quarta-feira, maio 07, 2008

LEITURAS EM LUGARES PÚBLICOS: Na estação de metro do Campo Grande, no espaço de poucos segundos: "Lord of the Flies", de William Golding, em versão original, e "A Arte de Amar", de Ovídio. O escrúpulo obriga-me a frisar que este último não estava a ser lido, mas tinha acabado de ser fechado pelo seu possuidor, pelo que a presunção de leitura não é descabida.

domingo, maio 04, 2008

ATENUANTES: Em defesa do autor e do(s) revisor(es) de "Rosa Vermelha em Quarto Escuro":
  • O nome original da equipa de basquetebol "New York Knicks" era "New York Knickerbockers". "Knickerbockers" é um apelido holandês, um tipo de calções muito em voga no início do século XX e o nome de uma personagem fictícia (de um conto de Washington Irving) que funcionou como símbolo da cidade. O substantivo "knickers", bem mais conhecido hoje em dia, derivou deste epónimo. Portanto, se é certo que os Knicks nunca foram conhecidos (que eu saiba) por "New York Knickers", essa designação não é completamente destituída de sentido etimológico. (Uma nota final: os Knicks são a equipa favorita do Joey Tribbiani da série "Friends".)
  • O número de volumes de "Em Busca do Tempo Perdido" pode ser diferente de sete, dependendo das edições. A minha, da Garnier-Flammarion, tem dez. Claro que isto depende de considerarmos, por exemplo, que "Sodoma e Gomorra" consiste em dois volumes ou num único volume dividido em dois tomos por conveniências de edição.

Quanto à mensagem principal do post, estou inteiramente de acordo. A revisão é o calcanhar de Aquiles da edição portuguesa. Infelizmente, o desleixo no campo ortográfico não é mais do que o reflexo da falta de exigência que, a este respeito, se cultiva em Portugal.

QUÍMICA: A acreditar na teoria de Joey Tribbiani (personagem da série "Friends"), quanto menor a empatia (a famosa "química") entre dois actores em palco, melhor eles se entendem fora dele. Se esta teoria possuir algum fundo de verdade, e se for transponível para a televisão, os bastidores das telenovelas portuguesas estarão repletos de romances tórridos entre os seus protagonistas. (E nem vou falar dos "Morangos", onde não é difícil adivinhar amor juvenil às mancheias eclodindo entre os actores, com intensidade directamente proporcional ao absurdo dos mismatches que abundam neste série. A Vera com o Bruno?! Estão a fazer pouco da gente honesta.)

sexta-feira, maio 02, 2008

A CARAVANA PASSA:




Dia 3 (amanhã), na Fnac Chiado, lançamento do livro "Caravana", de Rui Manuel Amaral. Com Fernando Alvim.

Clique aqui e veja o trailer desta apresentação na Fnac do Chiado:http://www.youtube.com/watch?v=MTJXUU6iVeU"

Mais informações sobre o livro e o autor aqui:http://www.angelus-novus.com/livros/detalhe.php?id=157

Conheça todas as datas e locais de apresentação de "Caravana" aqui:http://farm3.static.flickr.com/2279/2381814381_2c7444dd5e_o.jpg

quinta-feira, maio 01, 2008

ALGUMAS HORAS: Em "La Peau de Chagrin", a páginas tantas, a personagem principal (Raphaël) e a sua futura mulher (Pauline), que se reencontraram após uma série de peripécias, trocam declarações apaixonadas. O seu enlevo dá origem a um dos mais elegantes eufemismos a que Balzac se permitiu em toda a "Comédia Humana": Heureux qui devinera leurs joies, il les aura connues ! -Oh ! mon Raphaël, dit Pauline après quelques heures de silence, je voudrais qu'à l'avenir personne n'entrât dans cette chère mansarde. Após várias páginas de eloquência amorosa, a menção a "quelques heures de silence" não pode deixar lugar a dúvidas de interpretação. Uma das edições anteriores do romance ia mais longe, ao falar em "quelques heures de silence bien employées". Edições póstumas, pelo contrário, acharam bem reduzir as "quelques heures" a "deux heures", no nobre intuito, presume-se, de diluir o conteúdo escabroso sem atentar declaradamente contra a liberdade do artista.
A HORA RIVETTE (8), UM BANDO DE LOUCOS: "Um Bando de Loucos". A expressão empregue pelo Excelentíssimo Presidente Do Governo Regional Da Madeira (que, apresso-me a dizer, não é um palhaço, nem um arruaceiro, nem um grosseirão, e ao qual não é meu desejo associar qualquer qualificativo susceptível de desencadear acção judicial por difamação) não podia ter sido mais acertada. Enganou-se apenas nos destinatários. Em vez da assembleia regional da Madeira, a expressão assenta que nem uma luva àqueles que devotaram mais de uma dúzia de horas da sua vida à projecção integral de "Out 1", na cinemateca, dividida por dois fins de tarde e dois princípios de noite. Um bando de loucos na sala, outro bando de loucos no ecrã. Torna-se difícil dizer se a experiência foi mais demolidora e exaltante para quem assistiu ao filme ou para quem participou na sua rodagem, há quase 40 anos. Uma chávena de chocolate, uma malga de caldo verde e umas línguas de veado teriam sido recompensa bem merecida para todos os que, de entre este bando de loucos, saíram da sala Luís de Pina à 1 da manhã, algo titubeantes (pelo menos no meu caso). Em vez disso, apenas o olhar, misto de compaixão e de impaciência, do segurança que esperava pela debandada do cortejo de doentes mentais.
ARTE CORPORAL: Graças à revista "Ler", fiquei a saber que o escritor José Luís Peixoto tem o nome do condado imaginário dos romances de Faulkner ("Yoknapatawpha") tatuado no braço. Isto decidiu-me a tatuar "11, rue Simon-Crubellier" na minha omoplata direita. É a minha resolução de primavera.